Início Notícias Tendências

A casa da Geração X em 2020

Têm cerca de 50 anos e estão em plena “crise da meia idade”, mas é em casa que os membros da Geração X se sentem bem. Mais jovens de espírito do que a geração anterior, procuram ter uma casa bonita, onde a cozinha e o quarto dos miúdos têm um lugar especial.

Deepak Chopra

A abordagem jovem ao envelhecimento por parte da Geração X (aqueles que nasceram entre 1965 e 1980) está a revelar-se na casa, uma área importante para esta geração, onde sente que pode mostrar que “ainda não perdeu o jeito”. Um estudo de 2016 da agência de marketing Inkling, citado pelo WGSN, concluiu que 51% dos homens e mulheres da Geração X se sentem pressionados para terem uma casa bonita e veem isso como uma parte importante da sua imagem, com um número maior de inquiridos mais velhos (entre os 45 e os 54 anos) a sentirem mais pressão do que os mais jovens da mesma geração (entre os 35 e os 44 anos). No que diz respeito à decoração da casa, 43% dos homens da Geração X afirmam ser os principais decisores.

De acordo com Tiffanie Darke, ex-editora de estilo do Sunday Times e autora do livro “Now We Are 40”, a obsessão com as casas bonitas deve-se ao facto de «a Geração X não querer pôr em causa a estética do design em nenhuma parte da sua vida». E isso abarca todas as áreas da casa. Tal como a Geração X veste os filhos com t-shirts dos Ramones e Vans como uma extensão da sua imagem “cool”, também estão a gastar tempo e dinheiro em cada divisão da casa, incluindo o quarto dos miúdos.

Além da casa ser uma forma de expressar a sua individualidade e gostos, é também um santuário para esta geração stressada e com privação de sono. Muitos estão a criar famílias jovens e a cuidar dos pais idosos, ao mesmo tempo que trabalham numa altura de instabilidade económica. A casa tem de ser o santuário da Geração X e, cada vez mais, o ambiente da casa tem de ser suficientemente flexível para acomodar a família alargada da Geração X.

Crise da meia-idade

Os membros da Geração X estão stressados. Muitos estão a ser pais numa idade mais tardia do que a geração anterior e estão muitas vezes a cuidar dos filhos pequenos e dos pais idosos. E a idade da reforma, tendo em conta a conjuntura internacional, está cada vez mais longe.

Pressionados por todos os lados pelas exigências da vida quotidiana, os americanos com 40 e 50 anos são os que dormem menos, segundo os dados do Fitbit. Um estudo de 2018 do LinkedIn concluiu que a Geração X é a geração mais stressada no trabalho, com mais de metade dos inquiridos (57%) a dizer que considera o seu trabalho stressante.

O desafio para muitos indivíduos da Geração X é manter a calma enquanto enfrentam a realidade de envelhecer e das responsabilidades. Das tatuagens a drogas recreativas, uma crise típica da meia-idade não funciona da mesma forma para esta geração – eles já fizeram isso e, ao contrário da geração anterior, os Baby Boomers, não têm dinheiro para gastar em carros desportivos. A resposta é, pelo menos em parte, focarem-se no ambiente em casa.

Miranda Sawyer, que fala da crise da meia-idade da Geração X no seu livro “Out of Time”, afirma que ao chegar a meio dos 40 anos, o seu sucesso começou a ser definido pelo aspeto da casa. «Por irracional que possa parecer, não ter uma cozinha com status e a caixa de vidro nas traseiras da casa representa uma espécie de falhanço», explica. «Olhei para casas que não podíamos pagar e fiquei obcecada com ter um jardim… Era de loucos. Era a minha fantasia de uma vida adulta de sucesso», confessa.

Democratização do design

O acesso a design de interiores com qualidade é atualmente mais fácil. Contas de Instagram como @_roomonfire, @openhousemagazine, @thegreycollective e @themodernhouse são alguns exemplos de inspiração para a casa que estão a atrair a Geração X.

Aberta no final de 2017, a primeira loja da Goop, a marca de lifestyle criada por Gwyneth Paltrow, é descrita como «um bungalow 100% comprável». Paltrow usou os mesmos designers de interiores que decoram as suas casas, Robin Standefer e Stephen Alesch, da Roman and Williams, para criar o espaço. «É quase um estado mental», afirma Standefer à Architectural Digest sobre o conceito da loja. «Queríamos que fosse realmente sobre a casa», acrescenta.

Uma nova geração de startups está a tornar o design de interiores acessível e barato. Apps e plataformas online como a Hutch, a Roomy, a ARKit, da Apple, e a Ikea Place usam realidade virtual e aumentada para tornar mais fácil do que nunca desenhar um espaço único.

Recharge Café

Os preços acessíveis da Ikea permitem aos consumidores redecorar uma divisão a qualquer momento, enquanto lojas online pensadas para a Geração X, como a Made.com, a Swoon e a Loaf e as semelhantes Hay e Normann Copenhagen, e os sites de produtores, como a Etsy e a One of a Kind, tornam fácil criar ambientes familiares para a Geração X que são bonitos e cool.

A casa de família da Geração X, de resto, tornou-se muito diferente da casa tradicional. O desejo de alargar o seu sentido estético aos filhos levou a que o mercado de vestuário de criança no Reino Unido tivesse aumentado exponencialmente, estando estimado, atualmente, em cerca de 5,9 mil milhões de libras (cerca de 6,67 mil milhões de euros). Esta tendência está a estender-se aos espaços em casa dedicados aos mais pequenos, desde as casas de bonecas ultraminimalistas da Kartell às cadeiras de baloiço da Thonet e marcas de retalho, como a Ikea e a Made, em que os quartos de criança são tão pensados como qualquer outro espaço em casa. Os arquitetos estão, cada vez mais, a receberem pedidos de pais para desenharem os quartos das crianças de forma a que estas possam desenvolver a criatividade e a imaginação.

Bem-estar em casa

Ser física e mentalmente saudável é o que os membros da Geração X consideram mais importante para ser feliz (apontado por 67% dos inquiridos pela Inkling). De acordo com a Organização Mundial de Saúde, entre 80% e 90% dos aspetos ligados à saúde estão relacionados com o sítio e a forma onde vivemos.

À medida que a Geração X se torna mais atenta ao seu bem-estar físico e mental, há uma maior procura por soluções holísticas para a casa.

Toto

Designers inovadores, cada vez mais focados em criar ambientes que ajudem ao bem-estar, muitas vezes adotam uma abordagem imersiva que abrange os vários sentidos. No Salone del Mobile de 2017, a empresa de mobiliário Humanscale colaborou com o designer Todd Brancher para criar o RE:CHARGE Café, um espaço com iluminação biológica que seguia os ritmos circadianos e com paredes que purificam o ar.

Várias empresas estão também a entrar no nicho do bem-estar em casa. As banheiras de luxo da Toto são pensadas para induzirem ondas cerebrais relaxadas, enquanto a Olfinity permite aos utilizadores programarem a sua própria sessão de aromaterapia em casa. Os relógios despertadores com aromaterapia da Nox Aroma “sentem” quando a pessoa atinge o ponto mais leve no ciclo de sono e libertam um aroma à escolha para a acordar.

Deepak Chopra fez uma parceria com a promotora imobiliária de Nova Iorque Property Markets Group e a consultora de bem-estar imobiliário Delos para criar as primeiras casas pensadas completamente à volta do bem-estar biológico e da saúde preventiva. «As características de bem-estar e as tecnologias que estamos a desenhar vão melhorar tanto o bem-estar físico como emocional do proprietário da casa», garante Chopra. O primeiro projeto é em Miami e cada residência incorpora sistemas customizados de iluminação circadiana e de purificação de ar e água. O projeto inclui também cores que mimetizam a natureza e se alinham com o humor de quem habita a casa.

Um lar multigerações

Com a Geração X a ter filhos mais tarde e, muitas vezes, a ter de cuidar dos pais idosos ao mesmo tempo, é cada vez mais comum que três gerações partilhem a mesma casa.

Este fenómeno é mais comum na Ásia e é aí que a arquitetura de casas com este conceito está mais desenvolvida. O foco está em equilibrar os espaços comuns e a privacidade individual, assim como em desenvolver soluções inovadoras de arrumação e uma distribuição flexível que permita responder às exigências mutáveis dos habitantes da casa.

Casa Ancaster Creek

Este é o motivo que tem levado a Geração X a mudar de casa. «As pessoas não estão a mudar-se porque têm de ter uma casa maior. Estão a mudar-se porque querem uma casa que se adapte melhor. Algo que lhes dê a funcionalidade que eles procuram», esclarece Jenni Lantz, diretora na especialista em tendências de produtos para a casa DesignLens.

Um dos projetos mais referidos nesta área foi desenhado pelo gabinete de arquitetura canadiano Williamson Williamson no início de 2018 para um realizador de cinema, a sua esposa, os seus filhos e os seus pais. «O projeto constrói um cenário para viver que permite autonomia ao mesmo tempo que beneficiam mutuamente de proximidade», indica o gabinete de arquitetos. «A Casa de Ancaster Creek é um exemplo de desenvolvimento impulsionado pelo proprietário, criando uma solução única para a questão complexa de envelhecer mantendo-se em casa», resume.