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A comunidade uniu-se, a ModaLisboa aconteceu

A impossibilidade de ter público fisicamente para conhecer as coleções dos designers portugueses não travou o ímpeto da ModaLisboa, que nos quatro dias do evento reuniu perto de um milhão de visualizações dos seus conteúdos nas plataformas digitais e 15 mil visualizações nas redes sociais.

Luís Carvalho [©ModaLisboa/Ugo Camera]

#Comunidade, como foi batizada esta edição, que se realizou de 15 a 18 de abril, acabou por mostrar que o público e os protagonistas da ModaLisboa são muitos e variados e que a distância física não quebrou o contacto. «O objetivo era claro: fazer com que os constrangimentos da pandemia afetassem o menos possível a apresentação das coleções dos designers nacionais», explica um comunicado da organização. «Unidos pela vontade, continuámos e chegámos ao mundo inteiro. Voltámos a ter connosco, ainda que à distância, o nosso público fiel, a imprensa nacional e internacional, ao mesmo tempo que conquistámos novos territórios, desbravámos conceitos, ativámos uma nova forma de comunicar. Criámos um lugar seguro que potenciou todos os nomes do calendário nos seus mercados-alvo e conseguimos, apesar de todas as restrições, erguer uma ModaLisboa relevante, sonante e com um impacto indelével», afirma.

Os designers presentes no calendário foram os principais protagonistas, mas as figuras públicas, como Catarina Furtado, Rita Pereira ou Cláudia Vieira, os artistas e até outros designers, como Luís Buchinho ou Dino Alves, também marcaram presença, contribuindo para os conteúdos paralelos que estão disponíveis nas diferentes plataformas da ModaLisboa.

Resposta à pandemia

Na passerelle, o impacto da pandemia foi bem visível no processo criativo. O simples e o mundano que a pandemia impediu que fizéssemos no último ano foi o ponto de partida das propostas de Aleksandar Protic para a próxima estação fria.

Carlos Gil [©ModaLisboa/Ugo Camera]
«O processo criativo foi bastante diferente desta vez», reconheceu o designer. «Peguei nas atividades que não podíamos fazer já há um ano, peguei nos elementos do vestuário dessas atividades, misturei-os e usei como material para criar a coleção», admitiu. Uma coleção pensada, tal como a marca do designer, «para todos aqueles que se sentem bem nas roupas que faço», apontando para um público abrangente.

Também Carlos Gil refletiu no que perdemos e decidiu partilhar os beijos e abraços que deixamos de dar. Now Know, como batizou a nova coleção, é repleta de sentimento e emoções, traduzidas também pelas cores usadas. «Há uma variedade muito grande de cor nesta coleção. Contudo, o preto e amarelo são apontamentos de cor e tudo o resto vem à volta de uma paleta que começa com rosas, vai ao verde, ao azul alilasado… anda tudo muito à volta daquilo que rodeia o beijo e o abraço» adantou o designer.

Valentim Quaresma [©ModaLisboa/Ugo Camera]
A proximidade entre os corpos das festas dos anos 90 inspiraram Gonçalo Peixoto, que tinha já apresentado esta coleção para o outono-inverno 2021/2022 na sua estreia em Milão, e Luís Carvalho trouxe a aurora boreal nórdica para a passerelle, com silhuetas oversized e diversas camadas compostas por lamés, fazendas e jacquards com padrões florais e camuflados, onde predominam tonalidades como o preto, dourado, azul-marinho e diferentes variantes do verde. Com esta coleção, revelou o designer, «a mensagem é não desistir, não deixar de fazer aquilo que gostamos, mesmo que tenhamos algumas limitações, que neste caso é esta pandemia e as dificuldades económicas que isso nos possa ter trazido, e não permitir que isso limite o nosso trabalho criativo».

Mãos na sustentabilidade

A sustentabilidade foi outro tema premente. Ricardo Andrez, que tinha estado já em Paris, abriu a “passerelle principal” com uma coleção para o outono-inverno 2021/2022 produzida a partir de stocks armazenados. «Já há algumas seasons que só uso deadstock de fábricas. Além disso, nesta tentei fazer um upgrade, que foi tentar fazer algumas parcerias com a indústria têxtil com tecidos reciclados e com fibras também recicladas», destacou. A coleção resultante «transmite alguma esperança» e é «menos dura» que as anteriores. As silhuetas, assinalou, são a continuidade do que o designer tem vindo a apresentar com a marca, «um pouco mais longa nas calças e vestidos». As cores são frias, com muitos azuis, que são equilibrados pelas texturas dos materiais.

Valentim Quaresma apresentou “metamorfose”, a sua resposta à ideia de transformar em direção ao progresso e à sustentabilidade. «A metamorfose foi o ponto de partida para a inspiração desta coleção. A utilização de materiais alusivos a invólucros de casulos, conseguidos através de manipulação têxtil feita com desperdício de fios de seda com técnica de película hidrossolúvel, remete para um imaginário de transmutação, criando referências de proteção e transformação do corpo humano através de peças inspiradas em exoesqueletos», justificou.

Béhen [©ModaLisboa/Ugo Camera]
Integrada na plataforma Lab, onde desfilaram também Carolina Machado, Hibu, Buzina, Duarte, Constança Entrudo e João Magalhães, a Béhen – que “desfilou” no primeiro dia, a seguir ao Sangue Novo – manteve o seu conceito de reutilização de materiais, depois da estreia bem sucedida em outubro. Quero-te Muito foi o nome da coleção apresentada pela marca de Joana Duarte, que regressou com uma lua de mel com inspiração mundial.  «O conceito é uma continuação da coleção passada. Na coleção passada, os apaixonados casaram e desta vez foram de lua de mel, por terras distantes e pelo mundo inteiro. Portanto, [a coleção] não foi só inspirada em Portugal, os materiais foram comprados em Portugal, mas tem tapeçarias e coisas de Macau, de outros sítios, e que representam exatamente ir para outros sítios e trazer estes tesouros que representam outras comunidades», explica a designer num vídeo disponível nas plataformas da ModaLisboa.

Arte que inspira

A arte, por seu lado, continua a ser fonte de inspiração. Nuno Baltazar, que abandonou as estações há alguns anos, trouxe Script e uma tripla de musas – Astrid Werdnig, Sónia Balacó e Soraia Chaves – à ModaLisboa, num vídeo onde os bastidores e o palco se cruzam.

Nuno Baltazar [©ModaLisboa/Ugo Camera]
A coleção, colorida por tons como champanhe, marfim, conhaque, canela, preto, prata e ouro e criada com materiais como algodão, linho, lã e seda, traduz as «múltiplas personalidades e os múltiplos personagens que nos inspiram, e a mim em particular, e que na verdade acabam por ser um só personagem, que somos nós», apontou o designer.

A fechar esta edição da ModaLisboa, Ricardo Preto mostrou Unfastened, uma coleção criada praticamente no digital, já que os impedimentos de viagens fizeram com que o designer tivesse de trabalhar à distância com os seus fornecedores. Ricardo Preto convidou ainda artistas que estamparam e grafitaram algumas das propostas, incluindo kispos e acessórios, nomeadamente Pedro Gomes, Cláudia Efe e António Real.

Ricardo Preto [©ModaLisboa/Ugo Camera]
«Os tempos mudaram, as nossas necessidades e as nossas vontades também mudaram bastante. A minha proposta com a coleção outono-inverno 2021/2022 é retratar e fazer com que sejam muito funcionais as peças que vestimos, que sejam contemporâneas e que satisfaçam as nossas necessidades, que nos sintamos sempre confortáveis e ao mesmo tempo sofisticados e bonitos», resumiu o designer.

Os vídeos com as propostas dos designers continuam online e até 25 de abril estão a ser transmitidos programas diários da ModaLisboa, entre as 20h15 e as 21h. No Dia da Liberdade, será emitido o compacto ModaLisboa Comunidade na RTP Internacional, às 15h10, e na RTP Internacional Ásia, às 7h56.

«É necessário apoiar a moda nacional 365 dias por ano, porque este tecido empresarial que se baseia na liberdade criativa e na profundidade do saber-fazer tem tudo para crescer. Mas, para isso, precisa da sua #Comunidade», garante a ModaLisboa.