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«A conferência é internacional e vai continuar a ser»

Uma conferência internacional a pensar nas empresas portuguesas é uma das linhas condutoras da iTechStyle Summit. A missão é assumida por António Braz Costa, diretor-geral do Citeve, que nos 30 anos do centro tecnológico prepara mais uma fase de crescimento desta entidade, para acompanhar, e até liderar, as tendências globais.

Ao fim de três edições, que balanço faz da iTechStyle Summit?

Sou um homem feliz porque optámos por um modelo de risco. Juntar académicos com gente da indústria é arriscado, tentar criar em Portugal um evento internacional é arriscado e um evento de três dias também é arriscado. Mas chegamos à conclusão que o modelo não está errado. Nesta edição ultrapassámos os 700 participantes, conseguimos ter tantos oradores estrangeiros como nacionais e registámos uma participação estrangeira superior às duas anteriores, quer em número de países envolvidos, quer de participantes.

Têm feito algumas mudanças de edição para edição. Mas o que ainda falta fazer?

Na primeira edição, a conferência teve dois dias com sessões paralelas. E, em conversa com muita gente que participou, disseram-nos ser uma pena haver coisas a acontecer a que não podiam assistir. Foi aí que decidimos passar para três dias sem sessões paralelas. Da segunda para a terceira fizemos uma adaptação, ainda envergonhada, que não foi devidamente promovida: o bilhete-empresa, que no fundo é uma caderneta de bilhetes que a empresa pode distribuir por 15 colaboradores diferentes, sendo que cada um deles vai apenas um dia, sem ter custos acrescidos. Acreditamos que na próxima edição, com uma divulgação e um esclarecimento melhores sobre esta tipologia de bilhete, e para uma capacidade que não pode esticar muito mais – vamos voltar a fazer no Terminal –, conseguiremos envolver mais pessoas e gente do chão de fábrica.

Esta edição desenvolveu-se em três eixos: a indústria 4.0, os novos materiais e aplicações e a sustentabilidade e economia circular. O que motivou a seleção destas temáticas?

A cada ano temos que fazer escolhas. No fundo, temos duas possibilidades: tratar os temas todos de forma menos profunda ou fazer escolhas. E estes três temas são sempre temas presentes. Vemos a conferência como um instrumento que ajuda a que as empresas façam um percurso estratégico. E, portanto, a seleção dos temas tem de estar, de alguma forma, conectada com aquilo que é a nossa perceção do que é importante e do que vai ser o futuro.

Pode já avançar alguma novidade da iTechStyle Summit’20?

Vai haver, mas seria completamente estúpido, neste momento, ter ideias fechadas sobre aquilo que vai ser, até porque o modelo de construção do próprio programa é um modelo misto. Metade é por concurso, a outra metade somos nós que convidamos, porque temos que garantir que o resultado final responde àquilo que vamos tendo perceção do que são interesses do sector em Portugal. Não queremos que a conferência seja uma conferência para portugueses – a conferência é internacional e vai continuar a ser – mas temos uma preocupação, em primeiro lugar, com as empresas portuguesas. O nosso principal objetivo é proporcionar às empresas portuguesas a participação a custos contidos e aqui próximo numa conferência internacional do têxtil.

Neste momento há grandes manifestações internacionais ligadas à moda e à sustentabilidade da moda com interesse em fazer um paralelo com a iTechStyle Summit. A área tecnológica e de inovação é fundamental para se conseguir concretizar as políticas e as filosofias de sustentabilidade para o futuro. A iTechStyle Summit nasce como uma conferência eminentemente técnica e pode ter esse papel em termos internacionais. Quando ela nasceu, o objetivo não era assim tão amplo, era um bocadinho mais acanhado, mas não vamos negar dar à iTechStyle Summit uma projeção diferente se tivermos essa possibilidade. Neste contexto, somos aquilo que os outros acharem que somos, não adianta a gente pôr-se em bicos de pés.

O evento serviu também para celebrar os 30 anos do Citeve. O que destaca deste percurso de três décadas?

O Citeve teve várias fases, como o sector teve. Quando apresento o Citeve, faço sempre um paralelo entre aquilo que foi a evolução do sector e a do Citeve. Quando o problema era a qualidade, o Citeve criou laboratórios. Quando, neste momento, se colocam questões em relação à digitalização, nós estamos a montar uma learning factory. O Citeve tem dado esses passos, nalguns casos com dificuldade de se pagar, porque há coisas que fazemos em antecipação que depois já não é negócio para o Citeve. Mas a missão pública que o Citeve tem, obriga-nos a isso e vamos fazendo essa transformação. O Citeve não fez mais do que o que a sua missão impõe. É para isso que existe.

Que desafios se colocam hoje ao centro tecnológico?

Este sector é imprevisível, tudo pode acontecer a qualquer momento, e a melhor aposta estratégica que um centro tecnológico como o Citeve deve fazer é estar preparado para reagir. É óbvio que o Citeve está muito ativo na área da sustentabilidade. E está ativo não apenas na promoção das empresas, mas na promoção da imagem de sustentabilidade do país – estou orgulhoso do trabalho que os meus colegas têm feito. Neste momento sentimos que, nos circuitos profissionais, já há essa ideia de que, em Portugal, o nível de sustentabilidade é elevado. Eu começo por explicar às pessoas que 70% da energia elétrica que consumimos tem origem renovável. É exterior à indústria, mas é importante dizer que «esta t-shirt foi fabricada em condições em que a energia elétrica só em 30% utilizou fonte fóssil».

Dizer que estamos muito concentrados numa região e há 20 anos que temos um sistema centralizado de tratamento de efluentes. Dizer que andamos à procura de matérias-primas alternativas, que temos investigação e empresas ativas na produção desses materiais. Quando falamos de coisas que, em termos de negócio ainda são irrelevantes, como os caules das rosas ou os plásticos do fundo do mar, a verdade é que estamos a criar uma imagem de um país que está preocupado com a sustentabilidade. E está, porque as empresas que vêm a Portugal, e que sabem que os nossos preços não podem ser iguais aos preços do Sri Lanka ou da Etiópia, vêm à procura de coisas diferentes. E uma das coisas que vêm perguntar é o que temos em termos de sustentabilidade.

Em que consistem as representações internacionais do Citeve, no Brasil, Chile, Argentina, Tunísia e Paquistão?

São representações estritamente comerciais e o que vendemos fora de Portugal são serviços, essencialmente de certificação, que são, digamos, competitivos com outros operadores. Ou seja, se não estivéssemos nós, alguém estava. O que obtemos em troca, para alem do negócio que isso gera – cerca de 20% do volume de negócios do Citeve é exportado –, é um conhecimento muito grande desses países. E isso para nós é muito útil. Temos ajudado empresas a entrar nesses mercados, a perceber melhor os sistemas produtivos desses mercados, porque estamos lá e em contacto com as empresas de lá. Temos um primeiro exemplo de criação de infraestrutura tecnológica num país estrangeiro, mas que neste momento ainda está a ser pensado. Agora, temos trabalhado diretamente com muitas empresas estrangeiras.

Estamos a falar de que países?

Essencialmente Espanha, França e Alemanha, são talvez os mais importantes. Depois temos o mercado asiático, da Índia e do Paquistão, a Tunísia e o Brasil.

Há outros países na linha de mira para expansão dos serviços?

Marrocos é um caso conhecido, em que o próprio governo se envolveu para montarmos lá um centro tecnológico. A Turquia tem feito grandes aproximações para fazermos transferência de tecnologia, quer para os centros deles, quer para empresas em particular. O Brasil tem feito algumas incursões também. O que é mais novo é haver grandes grupos têxteis que, neste momento, estão a trabalhar connosco diretamente.

Que áreas são fulcrais na atividade do Citeve?

Claramente há três áreas que têm maior expressão, até ao nível do volume de negócios – testes e certificação, por um lado, investigação, desenvolvimento e inovação, por outro lado, e depois há uma terceira parte que está a adquirir uma relevância grande, que é o suporte às empresas na internacionalização. As duas primeiras representam 80% da faturação.

Em termos de valências, qual é o melhor cartão-de-visita do centro tecnológico junto da indústria têxtil e vestuário nacional?

Aquilo pelo que somos mais reconhecidos é pela área dos testes, ensaios, certificação, porque é talvez a área que toca mais pessoas individualmente dentro das empresas. Há empresas que todos os dias mandam para cá amostras. Claramente temos uma excelente competência nessa área.

Que investimentos tem em cima da mesa?

Estamos a iniciar agora um ciclo de investimento grande, a rondar a meia dúzia de milhões de euros, porque basicamente as instalações-piloto cansaram-se. Com a aparição do conceito de indústria 4.0, o objetivo é ter um espaço onde as empresas possam contactar com a tecnologia, aprender com a tecnologia. Estamos a comprar equipamento para efeitos de prototipagem, de desenvolvimento, de demonstração, etc., mas que simultaneamente se vai constituir como uma learning factory.

Que tipo de tecnologia abarcará?

Isso é o que estamos a definir neste momento. Mas não há dúvida: funcionalização, economia circular, indústria 4.0, nesta perspetiva de utilizar toda a infraestrutura de equipamentos como um laboratório de desenvolvimento de aplicações de indústria 4.0 e de demonstração. Tudo o que tem a ver com estruturas avançadas, nomeadamente para compósitos, são os grandes drivers do projeto de investimentos que está neste momento a nascer.

Como financia o Citeve as suas atividades?

Temos que trabalhar para pagar salários. O Citeve custa 8 milhões de euros por ano.  85% das receitas são prestação de serviços e 15% são subsídios, mas entenda-se subsídios como o pagamento do nosso trabalho no âmbito dos projetos. Não é dinheiro do Orçamento de Estado para a gente existir.

Conseguem ter alguma margem para investimentos?

O Citeve tem que ser visto como uma entidade privada, mas não renega a sua missão pública. Digamos que o nosso objetivo é nem ter lucro nem ter prejuízo, até porque quando temos lucro ele é completamente reinvestido na atividade. O ano passado foi um ano interessante, com resultados líquidos à volta dos 400 mil euros. Já há alguns anos que não tínhamos um resultado tão alto.

O que permitiu alcançar esse resultado?

Os resultados que atingimos no ano passado são o resultado de um trabalho muito intenso, de uma equipa espetacular que temos aqui. Além disso, para estes 400 mil euros concorreu diretamente o esforço internacional, porque com empresas estrangeiras não há missões públicas – é a prestação de serviços, em condições competitivas, porque estamos a competir com todos os outros. E a competição entre os vários centros tecnológicos é feroz. O que contribuiu claramente para isso foi uma boa gestão da produção e um conjunto de oportunidades em mercados estrangeiros que fomos buscar. Mas isso não cai do céu, só é possível com gente que dá o litro.

Quantas pessoas trabalham no Citeve?

Trabalham 135 pessoas.

Qual é a meta traçada para o futuro próximo?

Para nos mantermos bons localmente, temos que estar com os olhos abertos para o internacional. É como a história da iTechStyle Summit: atuar global para ser bom local. E, sobretudo, ter capacidade de adaptação rápida.