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A corrida ecológica da Primark

Nos últimos anos, a Primark tem levantado o véu do trabalho em prol da transparência e sustentabilidade da sua cadeia de aprovisionamento: em particular, os esforços para garantir que todo o algodão utilizado seja produzido de forma sustentável.

Na última década, a marca detida pela Associated British Foods (ABF) assumiu-se como uma das principais histórias de sucesso no retalho do Reino Unido. Com uma quota de 14,3% do mercado de vestuário britânico, é a segunda maior retalhista, apenas atrás da Marks & Spencer.

No último ano fiscal, as receitas da Primark cresceram a dois dígitos, graças aos bons resultados nos meses de verão, à expansão global e à boa performance no seu mercado interno.

As receitas escalaram 19% no ano terminado a 16 de setembro, para os 7,05 mil milhões de libras (aproximadamente 7,98 mil milhões de euros), à medida que a cadeia de moda continuou a expandir-se, tendo inaugurado 30 lojas em nove países. Ao contrário de muitas grandes empresas de vestuário, a Primark sempre optou por não definir abertamente alvos de sustentabilidade e compromissos éticos. No entanto, nos últimos anos, a retalhista começou a divulgar as suas ações nessas áreas.

Algodão sustentável

O programa de algodão sustentável lançado em Gujarat, o maior estado produtor de algodão na Índia, é um desses exemplos.

O projeto, criado há pouco mais de quatro anos em comunidades agrícolas, combina o conhecimento da iniciativa de agricultura sustentável conhecida como Cotton Connect, que recruta pequenos agricultores e da Associação de Mulheres Trabalhadoras Independentes (SEWA) na promoção de mudanças duradouras e sustentáveis ​​no aprovisionamento de algodão – desde a seleção de sementes ao armazenamento. Cerca de 1.251 mulheres em 37 aldeias já integraram o projeto, sendo que o objetivo é chegar às 10.000 nos próximos seis anos.

Os três primeiros anos do programa, segundo revelou Katharine Stewart, diretora de comércio ético e sustentabilidade ambiental na Primark, ao Just-style, ultrapassaram as expectativas da Primark.

As agricultoras mais do que duplicaram os lucros, enquanto reduziram o uso de pesticidas químicos e fertilizantes.

O algodão produzido entrou em 16 designs de pijamas da Primark – a primeira linha da retalhista com algodão 100% sustentável e a primeira que permite rastrear o algodão ao longo da cadeia de aprovisionamento.

«O algodão é a fibra mais utilizada nos nossos produtos. Atualmente apenas 12% do algodão produzido no mundo é classificado como sustentável», afirmou Stewart.

Até agora, apenas uma «pequena percentagem» do algodão produzido pelo programa chegou a peças de roupa Primark – valor que a retalhista se mostra reticente em divulgar –, com a maioria destinada à cadeia de aprovisionamento doméstica e 20% exportados.

Não obstante, Katharine Stewart ressalvou que a empresa gostaria de aumentar a percentagem e tem planos de implementá-lo em mais artigos.

Rastreabilidade

Ter começado por uma linha de produtos de grande volume, como os pijamas, foi uma aposta inteligente e serviu para oferecer um vislumbre da vontade da Primark em alcançar a completa rastreabilidade.

Isso, de acordo com a diretora de comércio ético e sustentabilidade ambiental da Primark, é vital para a retalhista, numa altura em que mostra interesse em investir em novas tecnologias a fim de melhorar a rastreabilidade.

«Trabalhámos muito nos últimos 18 meses com as agricultoras do programa, a Cotton Connect, a SEWA e os nossos fornecedores para garantir que podemos rastrear o algodão em toda a cadeia de aprovisionamento», sublinhou Katharine Stewart.

A aposta na transparência, contudo, ainda não se estendeu à divulgação da lista global de fornecedores da Primark.

Ainda que um número considerável de marcas e retalhistas tenha cedido à pressão da indústria para publicar os nomes das fábricas nas quais se aprovisionam, a Primark continua a mostrar reservas.

«Estamos a partilhar a nossa lista onde é apropriado fazê-lo. Através da Ethical Trading Initiative (ETI) partilhamos a nossa lista de fornecedores e, através do “Bangladesh Accord on Fire and Building Safety” [Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios no Bangladesh] partilhamos a nossa lista completa. Fazemos onde se justifica, trabalhando de forma colaborativa. Temos o país de origem em todas as nossas roupas», garantiu Stewart.

Colaboração

A Primark foi a primeira retalhista do Reino Unido a assinar Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios no Bangladesh e uniu forças com o Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido (DfID) em vários projetos, como a emancipação económica das mulheres, o desenvolvimento do mercado e a resposta a desastres nos seus cinco principais destinos de aprovisionamento – Bangladesh, Paquistão, Myanmar, Etiópia e Índia.

Há ainda o HERproject, no qual a Primark estabeleceu parceria com a consultora Business for Social Responsibility (BSR) em 2011 para proporcionar cuidados de saúde e planeamento familiar às mulheres que trabalham nas fábricas fornecedoras.

A colaboração, de resto, é uma ferramenta cada vez mais importante na indústria do vestuário para abordar as questões de sustentabilidade e ética na cadeia de aprovisionamento global.

«Por exemplo, nos salários, fazemos parte de uma iniciativa denominada ACT [Ação, Colaboração, Transformação], uma colaboração entre 16 grandes marcas e a IndustriAll Global Union que está focada em três áreas. Uma das áreas-chave é trabalhar com os governos, as partes interessadas e as associações comerciais para pressionar e defender melhores acordos de negociação coletiva e melhor negociação salarial», explicou a diretora de comércio ético e sustentabilidade ambiental.

Ainda neste âmbito, em abril de 2016, a Primark duplicou o número de auditorias às fábricas fornecedoras na Turquia, país que alberga cerca de 100 das 1.700 fábricas que a Primark usa globalmente. Em média, a retalhista realiza cerca de 3.000 auditorias por ano em toda a cadeia de aprovisionamento.

No futuro, o foco deverá continuar a incidir nos esforços colaborativos da Primark, a fim de se poderem gerar mudanças significativas no horizonte do sector.

«Isso poderá realmente mudar a indústria», concluiu Katharine Stewart.