Início Arquivo

A dama do punk

Grande senhora da moda, cofundadora do movimento punk, ativista destemida: Vivienne Westwood é tudo isto e muito mais. Mas aos 73 anos, a designer britânica decidiu “abrir a janela” sobre todos os ângulos da sua vida. A biografia autorizada da criadora de moda, intitulada simplesmente “Vivienne Westwood”, revela a vida ao lado do manager dos lendários Sex Pistols, Malcolm McLaren, que faleceu em 2010. Uma relação disfuncional, como define Westwood, e uma parceria criativa que, nos anos 70, ajudou a moldar o visual e o som do movimento punk. De acordo com as suas próprias palavras e contributos de amigos e família, o biógrafo Ian Kelly mostra como Westwood passou de revolucionária a fundadora de uma casa de moda internacional. O seu olho para uma imagem marcante é um tema recorrente, assim como o seu entusiasmo quase infantil, alguns diriam fanatismo, por novas ideias e ação social através da arte. Vivienne Westwood continua a trabalhar a tempo inteiro na moda, ajudada pelo seu segundo marido Andreas Kronthaler, que conheceu em 1989 quando ele tinha 23 anos e ela 48 anos. Mas usa cada vez mais a sua riqueza e atenção pública para campanhas políticas e ambientais. «As ideias fazem-me feliz», defende. A lenda de Westwood começou com McLaren, que conheceu em 1965, quando tinham 25 e 20 anos, respetivamente. Em 1971 abriram a loja no n.º 430 de King’s Road, “Let It Rock”, mais tarde “SEX”, uma fonte escandalosa de vestuário fetichista e novos visuais estranhos que atraíram toda a gente, de Chrissie Hynde a Iggy Pop, Adam Ant, Jerry Hall e Charles Saatchi. Foi a partir da loja que McLaren juntou os Sex Pistols, a marca que deu voz a uma juventude britânica desencantada e que revolucionou a cena musical com o lançamento do disco “God Save the Queen” em 1977. O punk ainda é conhecido tanto pelo visual – t-shirts rasgadas, slogans estampados e cabelo com “picos” – como pela música. O livro argumenta que Vivienne Westwood devia ter a maior parte do crédito por isso, tendo desenhado e cosido ela própria as roupas no seu apartamento em Clapham, no sul de Londres. Mas durante anos, Westwood viveu na sombra do seu companheiro, que uma vez a descreveu como a sua «costureira». McLaren «tinha essa coisa de não conseguir sair do apartamento sem me fazer chorar», recorda. A designer afirma que às vezes era «mais simples ceder, deixar cair as lágrimas para que ele parasse. As lágrimas reais nunca voltaram para mim», acrescenta. Questionada por que se manteve na relação, que ocasionalmente se tornou violenta, Vivienne Westwood diz simplesmente que «gostava das ideias dele e queria juntar-me à viagem de descoberta em que ele estava». Eventualmente, o seu temperamento e os seus ciúmes tornaram-se aborrecidos – assim como aconteceu com a raiva mal canalizada por detrás dos Sex Pistols. «Quando me voltei para trás, nas barricadas, não estava lá ninguém. Foi assim que senti. Que eles estavam ainda simplesmente a saltar. Por isso perdi o interesse», explica. Westwood e McLaren tiveram um filho em conjunto, Joe Corre, que a designer de moda criou sozinha, juntamente com o filho do seu primeiro casamento, Ben Westwood. O casal separou-se em 1981, altura em que ela começou a desenhar sozinha. Criada no meio de trabalhadores da indústria têxtil em Derbyshire, Vivienne Westwood sempre fez roupas mas não tinha formação formal – saiu da escola de artes apenas alguns meses depois de ter entrado e inicialmente trabalhou como professora. Aprendeu sozinha a desfazer roupas velhas para copiar os padrões e agora cria peças de vestuário sensuais e ousadas que são imediatamente reconhecíveis pela utilização dos tartans e tweeds tradicionais e designs históricos. Ao longo dos anos, foram-lhe atribuídos estilos tão variados como a introdução do corpete no vestuário moderno, os slogans estampados em t-shirts, os sapatos de plataforma “pedestal”, a moda unissexo e a utilização de roupa interior no exterior. A designer britânica foi homenageada pelo seu sucesso primeiro com um Order of the British Empire e depois foi nomeada Dama – embora tenha mostrado que não se acomodou ao aparecer no Palácio de Buckingham em ambas as vezes sem usar roupa interior. Agora avó, Vivienne Westwood ainda usa todas as oportunidades para promover as suas campanhas para salvar a floresta tropical e libertar a fonte da WikiLeaks, Bradley Manning. «O que eu faço agora ainda é punk – tem a ver com gritar contra uma injustiça e fazer as pessoas pensar, mesmo que seja desconfortável. Serei sempre punk nesse sentido», conclui.