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À descoberta do Irão – Parte 2

Na eminência do restabelecimento das relações diplomáticas, o Irão é um mercado a descobrir pelas marcas ocidentais, que se revelam simultaneamente otimistas e cautelosas face ao potencial deste mercado, por enquanto, desconhecido.

As marcas internacionais debatem-se, ainda, com as dificuldades de acesso a um mercado que, na eminência da aproximação ao panorama ocidental, impõe ainda diversas limitações à atuação de agentes externos. Paralelamente, o mercado negro, alimentado por décadas de sanções, é uma parte integrante da economia paralela iraniana e um modo de vida de uma geração (ver À descoberta do Irão – Parte 1).

Forças contrárias
Estão em ação diversas forças que alimentam a procura por marcas internacionais no Irão. A maioria encaixa-se no quadro mais amplo de uma sociedade que se tornou visivelmente mais permissiva do que era há apenas uma década.

Dado o isolamento do país, a obtenção de estatísticas confiáveis é difícil, mas estima-se que mais de 70% dos iranianos habitem em cidades, 60% tenham idade inferior a 40 anos e cerca de um em cada quatro seja proprietário de um smartphone. Usando proxies para aceder a páginas ilícitas no Instagram – onde alguns criaram micro-boutiques que vendem marcas compradas no exterior –, a juventude do Irão está ligada a movimentos globais de estilo e cultura de celebridades. Tendo por objetivo servir os mais afluentes entre eles, os canais de televisão via satélite em língua persa, como o Farsi1, são transmitidos a partir do estrangeiro, contornando a censura.

«As pessoas contrabandeiam as últimas edições da Vogue e GQ», afirma Fazaeli, referindo-se às fortes restrições colocadas sobre os meios de comunicação, especialmente aqueles com imagens consideradas subversivas ou muito reveladoras.

Um relatório recente produzido no âmbito do projeto de liberdade de expressão Global Voices Advocacy refere que os censores iranianos bloquearam diversos canais de media de moda, incluindo o site da Vogue e contas Instagram de marcas como Burberry e Gucci. Para aquelas que não foram bloqueados, como a Chanel, o relatório sugere a utilização de uma «filtragem inteligente», que permite eliminar imagens indesejáveis ​ – embora, inexplicavelmente, algumas das contas mais provocantes, como Calvin Klein, tenham evitado os censores. Desde o movimento do protesto de rua de 2009, o regime iraniano desligou o Facebook e Twitter em diversas ocasiões e censura serviços de mensagens como o Viber.

O policiamento da moda nas ruas é mais simples. Embora os “Basij” assediem as mulheres que não se vestem de forma suficientemente modesta, a polícia da moralidade iraniana já não goza do poder que detinha no passado. Muitas mulheres jovens e liberais, em diversas cidades do país, têm contornado as regras do código de vestimenta durante vários anos.

Com a ascensão do presidente Hassan Rohani ao poder, reconhecido pela sua moderação, é mais comum ver trajes coloridos coordenados com mantos e lenços de cabeça vagamente drapeados, do que multidões de mulheres envergando o tradicional chador preto. Nos bairros mais afluentes, as mulheres com cabelos pintados de cor platina ou vermelha são uma visão familiar, assemelham-se aos protagonistas da serie “Rich Kids of Tehran” (miúdos ricos de Teerão, em português) que se popularizou na rede social Instagram.

«Teerão tem pessoas da moda e diferentes bairros de estilo, como qualquer outro lugar no mundo. O mercado de luxo situa-se em torno de Elahieh e as lojas independentes estão localizadas na área envolvente ao distrito de Jordão. Em Enghelab, os artistas passam o seu tempo e há um parque de estacionamento na rua Jomhoori onde as pessoas compram produtos vintage interessantes», releva Araz Fazaeli, um jovem empresário iraniano.

Tais desenvolvimentos tiveram um efeito positivo sobre a indústria da moda local, retirando-a da obscuridade. Recentemente, surgiram mais figuras da indústria da moda, desde que emergiram relatos de um decreto religioso emitido pelo líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, que declara que a moda e os desfiles não estão proibidos pelo Islão.

De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, os eventos de moda exclusivos para convidados devem aderir às orientações de modéstia, mas a sua interpretação parece ser fluida. Porém, o acesso do género masculino não é ainda autorizado em desfiles de moda, protagonizados na sua maioria por mulheres.

Um caminho para Teerão
De acordo com Fazaeli, «o Irão não tem escolas de moda adequadas e somos ainda demasiado jovens para termos influenciadores poderosos, mas o Mzone Tehran Showroom e a Semana da Moda de Teerão estão a liderar a mudança. Langardi por Kathy Fassihi, que estudou na Parsons, foi a primeira marca iraniana a iniciar uma produção profissional de pronto-a-vestir. Logo depois, os jovens talentos criativos como Shiva e Shirin Vaqar, Salar Bill e Foje chegaram ao mercado», disse.

Em todo o país, bazares persas tradiciionais enfrentam agora a concorrência de novos centros-comerciais ao estilo ocidental, como o Sam Centre, Golestan e Palladium. Alguns especialistas do mercado afirmam que o investimento subjacente a essa revolução no retalho pode ser atribuído a uma nova elite empresarial composta por comandantes da Guarda Revolucionária do Irão. A sua ascensão, sob a alçada do presidente anterior, tem conduzido a uma diminuição da omnipotência dos clérigos religiosos.

Assistindo ansiosamente do outro lado da fronteira, os grandes retalhistas de moda da região sentem-se encorajados. Marwan Shehadeh, diretor do grupo de desenvolvimento corporativo do Al-Futtaim Group, caracterizou recentemente o Irão pelo seu potencial transformador. O conglomerado, com sede no Dubai, opera lojas de retalhistas, como a Marks & Spencer, em oito países em todo o Médio Oriente e está declaradamente interessado em expandir o portefólio da empresa para o Irão.

No entanto, para alguns retalhistas de moda intrépidos, o Irão é já um mercado em iminente crescimento. Através de uma colaboração com o parceiro de franquia iraniano Lilian Mode, a loja dos grandes armazéns britânicos Debenhams está no Irão desde 2009. A sua quinta loja no território será inaugurada na cidade de Isfahan, com filiais existentes em metrópoles como Teerão, Shiraz e Mashhad. Um porta-voz da Debenhams descreveu os seus clientes iranianos como «extremamente recetivos».

Apesar das variadas dificuldades decorrentes das sanções, o Irão é a segunda maior economia do MENA (Médio Oriente e Norte da África) e o segundo país mais populoso. A abundância de petróleo e gás natural significa que a economia pode florescer se as sanções forem suspensas. Na verdade, uma flexibilização parcial e temporária das sanções de exportação de petróleo já conduziu a uma recuperação e crescimento de 3% da economia iraniana no ano passado.

Alguns analistas revelam-se preocupados face ao poder de compra do país, citando os milhões de iranianos que vivem abaixo ou na eminência do limiar da pobreza. No entanto, o Fundo Monetário Internacional estima que o PIB per capita do Irão seja de 16.500 dólares, o que significa que os consumidores iranianos, em média, possuem mais dinheiro do que os consumidores brasileiros ou indianos.

Paralelamente, aqueles que auferem rendimentos mais elevados estão a crescer rapidamente. De acordo com a consultora New World Wealth, o Irão conquistou a segunda posição na região do Médio Oriente em termos de crescimento de indivíduos que dispõem de rendimentos líquidos elevados, com património líquido superior a 1 milhão de dólares. Apenas o Qatar cresceu mais rapidamente. Entre 2000 e 2014, o número de milionários iranianos aumentou 194%, para 32.100 – quase tantos como os que residem no Kuwait.

Se estes números representam o que a economia do Irão consegue alcançar apesar de anos de sanções e isolamento, alguns debatem-se sobre as suas potencialidades uma vez terminadas as sanções. Com o Médio Oriente transformado num barril de pólvora, qualquer chama geopolítica poderá minar o acordo eminente com o Irão e adulterar os planos de negócios já arquitetados para o país. No entanto, diversos líderes do sector da moda estão agora suficientemente convencidos do potencial do Irão e fazem, já, os preparativos preliminares.

Porém, não se trata apenas de otimismo cauteloso, afirma Fazaeli. «Devemos considerar o seguinte: quanto mais fechada é uma sociedade, mais devemos antecipar o inesperado», conclui.