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«A digitalização é um processo contínuo»

Atento ao universo digital, onde os videojogos, no passado, e o metaverso, mais recentemente, têm influenciado a forma de criar e vender moda, Manuel Gonçalves, administrador do grupo TMG, acredita que não há retrocesso possível na digitalização, uma área onde a empresa que lidera tem feito uma forte aposta.

Manuel Gonçalves

Num processo de digitalização que não é novo, mas que foi acelerado pela pandemia, o grupo TMG tem procurado posicionar-se na vanguarda e responder às necessidades dos novos modelos de negócio, com o design em 3D e uma forte ligação às questões da sustentabilidade a fazerem parte dos esforços do grupo.

Em entrevista ao Jornal Têxtil, Manuel Gonçalves, administrador do grupo TMG, acredita que, para prosperar, a indústria têxtil e vestuário terá de se adaptar a este impulso da digitalização e colaborar com outros sectores, como o do software, uma área onde o Cluster Têxtil: Tecnologia e Moda, no qual preside ao Grupo de Alto Nível, tem procurado desvendar oportunidades.

A pandemia originou mudanças na forma de trabalhar da indústria têxtil e vestuário e muitos acreditam que acelerou a digitalização. Que efeitos práticos teve na TMG?

Mudou muita coisa. A impossibilidade de deslocações neste período pandémico conduziu a uma adaptação da cadeia de valor aos meios digitais. Numa primeira fase na troca de imagens e alguns correios, mas rapidamente evoluiu para a utilização de ferramentas em 3D que permitam simular em ambiente digital materiais e peças de vestuário. Os benefícios na utilização destas ferramentas rapidamente se tornaram visíveis, pelo que temos vindo, em conjunto com os nossos clientes, a adaptar os processos de desenvolvimento de produto e os processos administrativos a esta nova realidade.

É algo que considera ter vindo para ficar?

Acho que aquilo que veio, ficou. Não volta atrás. Hoje já temos liberdade para viajar, mas continuamos a reunir por Teams porque é mais prático e mais fácil. Obviamente que retomaremos algumas viagens e o contacto físico e presencial com as pessoas, mas nunca ao mesmo nível do que tivemos em 2019 e para trás. Há muitos assuntos que são resolvidos por via eletrónica.

Tendo em conta que o têxtil vive sobretudo do toque, como é que, digitalmente, isto se traduz?

Não conseguimos substituir o toque na digitalização, mas também as marcas não mudam radicalmente de materiais e de modelos-base de coleção para coleção. Provavelmente não conseguimos no processo de desenvolvimento de coleções desmaterializar 100% da coleção, mas estou certo de que a grande maioria conseguimos.

As marcas terão sempre uma parte da coleção destinada a experimentar novos modelos e novos materiais e estes têm de ser testados no mundo físico. Depois de testados e bem-sucedidos podem transitar para coleções futuras em formato digital.

A digitalização trouxe outros benefícios, nomeadamente ao nível da sustentabilidade?

Claro que sim e a União Europeia está a fazer uma grande aposta na digitalização e na transição climática – estão intimamente relacionadas.

A transformação digital é o pilar central para viabilizar a sustentabilidade, ou seja, o compromisso com as questões ambientais, sociais e de governança (ESG) impõem custos adicionais ao processo produtivo e, consequentemente, ao produto. Para mitigar este efeito e manter as empresas europeias competitivas é necessário criar, através da automação de sistemas e tecnologias, redes que controlam a cadeia de valor e tornam os processos de produção mais eficientes e sustentáveis.

Em paralelo terá de haver uma maior consciencialização do consumidor, que terá obrigatoriamente de adaptar os seus hábitos de consumo ao impacto ambiental. Não pode continuar a privilegiar o descartável e/ou os produtos com ciclos de vida muito curtos como se vê, por exemplo, na indústria do vestuário no mercado da fast-fashion, onde os produtos são baratos e duram apenas algumas lavagens.

Como coabitam a digitalização e a sustentabilidade na TMG?

Vivemos uma era em que o greenwashing e a desinformação reinam. É de importância extrema a utilização de ferramentas de apoio à decisão para avaliar vários impactos ambientais em diferentes fases da vida de um produto: desde extração e processamento de matérias-primas, uso/reutilização/manutenção e descarte/reciclagem. Pensando nisso, a TMG está focada em desenvolver mais produtos sustentáveis de forma transparente e com credibilidade. Por exemplo, a TMG Automotive já implementou, nos seus processos, a utilização da ferramenta LCA – Life Cycle Assessment, que à data de hoje é a mais robusta para garantir critérios ambientais mais transparentes. Estes resultados podem ser consultados no relatório de sustentabilidade que a TMG Automotive prepara desde 2018.

Também na área do vestuário temos introduzido, nos nossos processos, o eco-design, que exige que a conceção de um produto tenha o menor impacto possível no seu fim de vida.

E como se enquadra o eco-design, enquanto conceito e filosofia de trabalho, no desenvolvimento do produto na empresa?

Nem sempre é fácil. O eco-design procura soluções que mantenham os recursos a circular na economia, através da durabilidade dos produtos, do aproveitamento continuo das matérias-primas e da fácil desmontagem, que permita a recuperação dos componentes.

A conceção do produto tem de ter em conta estas variáveis para que possamos reciclar e reutilizar os diferentes componentes. Uma peça de vestuário, por norma, é composta por diferentes materiais, o que aumenta a complexidade no momento do seu desmantelamento. Criar produtos com a menor diversidade de materiais e que permitam o seu fácil desmantelamento é o desafio que a indústria enfrenta.

No caso da TMG, quais vão ser as suas forças condutoras?

Fornecer soluções que capacitem o sucesso dos nossos clientes é o nosso propósito. Somos o parceiro industrial promovendo vantagens competitivas reforçadas pelo talento e conhecimento, levando ao design de produtos que se destacam pelas suas características técnicas e estéticas.

O peso das vendas online tem aumentado e, com isso, os modelos de negócio tendem a evoluir. As marcas estão cada vez mais expostas e, por isso, necessitam de introduzir novidade com maior frequência e trabalhar com níveis de stocks muito mais baixos. Este facto leva a uma aproximação da produção aos centros de consumo. A TMG tem aqui uma oportunidade, por estar inserida num cluster têxtil que pode servir de base para muitas marcas.

Uma outra força será o desenvolvimento de ferramentas que permitam, aos clientes com forte exposição à venda online, desenvolver ofertas centradas no made-to-order e no made-to-measure que, associado a tecnologias de 3D, pode desencadear um conjunto de novas funcionalidades que enriquecem a experiência do consumidor nos meios digitais.

Por exemplo, imagine um cliente que, na sua loja online, cria o seu avatar com as suas medidas antropométricas, experimenta diversas combinações de estilo e quando encontra a combinação certa adiciona os itens ao carrinho. Passados alguns dias recebe o produto em casa com o fit perfeitamente alinhado com as medidas do seu corpo.

E já que produzimos peças de vestuário em 3D, porque não vender no metaverso

 

Que outros modelos de negócio pode a TMG desenvolver?

Hoje vivemos uma era em que a anatomia social da net nos conecta. Cabe à TMG desenvolver novos modelos de negócio que permitam capitalizar sobre essa tendência. Desenvolver ferramentas que potenciem a monetização do talento pode ser um caminho inovador através da criação de ecossistemas que juntem diferentes atores na cadeia de valor da indústria do vestuário e acessórios.

Cada vez mais encontramos pessoas com talento nas redes sociais, com uma capacidade de influenciar um conjunto alargado de pessoas. Com as ferramentas certas, estes influenciadores podem transformar a indústria da moda.

Até à data, que desafios e oportunidades teve enquanto administrador da TMG?

Houve muitas mudanças, houve decisões que tomámos que foram boas, houve decisões que não foram tão boas. É como tudo na vida. Aquilo que o meu avô criou, criou com aquilo que, na altura, era o melhor para o negócio. Com o meu pai, foi transformado, porque o mundo foi mudando. A empresa é um ser vivo e vai-se adaptando, mediante as necessidades. Nós, a terceira geração, também temos tomado algumas decisões que têm permitido à empresa prosperar e crescer e continuar a ser uma referência. É todo um conjunto.

E que desafios e oportunidades subsistem hoje para a empresa?

Penso que este novo mundo que se aproxima é aquele que pode marcar a diferença, daí estar a dar tanta enfâse à desmaterialização de materiais e de peças de vestuário, porque acho que, a nível dos designers, hoje têm mais dificuldade em desenvolver em ambiente digital, mas a geração que vier a seguir não vai saber fazer de outra forma.

Portanto, temos de estar preparados para responder a essa tendência de haver novos designers a virem para o mercado totalmente familiarizados com ferramentas 3D. Amanhã não vamos estar a trabalhar com amostras de cor, vamos estar a trabalhar com coordenadas de cor. Pôr as fábricas a trabalhar à coordenada de cor é, por si só, revolucionário.

A TMG tem de adaptar as suas plataformas industriais para poder responder aos novos desafios. Desenvolver competências digitais e adaptar as plataformas industriais a realidades de produções unitárias em massa são centrais nos desafios futuros na área do vestuário.

O que mudou já nesse sentido?

A digitalização é um processo contínuo. Por exemplo, o facto de introduzirmos tecnologia de 3D nos nossos processos e apoiarmos alguns clientes que já colocaram nos seus objetivos a intenção de desmaterializar o desenvolvimento de coleções, permite-nos estar preparados para potenciar o nosso crescimento. Não diria a 100%, porque isso nunca estaremos. É um processo evolutivo, é um processo de aprendizagem, mas é um dos passos que já demos nesse sentido.

É também presidente do Grupo de Alto Nível do Cluster Têxtil: Tecnologia e Moda. Ciente, com base na experiência empresarial e industrial, das necessidades no terreno, como pode este cluster contribuir para a evolução da ITV?

Acho que o Cluster Têxtil é uma ferramenta poderosíssima como elemento agregador de um conjunto de empresas (têxteis e não têxteis), universidades e centros tecnológicos com capacidade para detetar tendências e, em conjunto com as empresas, potenciar o desenvolvimento de tecnologias capazes de preparar para um futuro que tende a aproximar o consumidor do produtor e que, face à horizontalidade da sociedade, provocará alterações radicais aos modelos de negócio tradicionais.

Adicionalmente, o desenvolvimento tecnológico de novas aplicações de estruturas têxteis, economia circular, eco sensibilidade, etc. abre todo um conjunto de novas de oportunidades que o Cluster Têxtil poderá dinamizar.

Numa escala mais macro, que desafios e oportunidades tem a indústria têxtil e vestuário pela frente?

A oportunidade é a sustentabilidade, o desafio é desenvolver produtos sustentáveis sem que estes representem um aumento de custo para o consumidor e/ou uma perda na sua performance.

Estrategicamente, as empresas devem melhorar os seus processos produtivos de forma a reduzir a pegada de carbono, aumentar a circularidade dos seus produtos pela inovação em novos materiais ou pela adaptação dos seus produtos a novas matérias. Para o conseguir, as empresas têm de apostar na formação dos seus colaboradores e aproximar as suas equipas técnicas aos seus fornecedores para, em conjunto, desenvolverem novas soluções.

E porque a sustentabilidade vai tirar competitividade é necessário investir na digitalização para tornar os processos produtivos mais eficientes, reduzir custos e aumentar a eficiência na cadeia de valor.