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A economia condiz com a moda?

O crescimento económico é tendência nos noticiários, mas estará em destaque nas montras das lojas dos designers nacionais? As moedas estrangeiras têm ajudado à retoma do mercado nacional, mas estarão a comprar moda? Anabela Baldaque, Júlio Torcato, Diogo Miranda e Miguel Vieira respondem.

Miguel Vieira

Na recente síntese de conjuntura de outubro, o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) refere que, em 2017, o crescimento económico em Portugal deverá ficar próximo dos 3%. O Governo aumentou também as estimativas para este ano, prevendo um crescimento económico de 2,6% e um défice orçamental de 1,4%.

Do lado do turismo, que muito tem contribuído para a boa saúde das contas do país, em 2017, o Porto voltou a ser escolhida como melhor destino turístico da Europa. No ranking, a cidade Invicta superou Paris, Roma, Viena ou Madrid, sendo, pelo terceiro ano consecutivo, a preferida.

A repetição

Há 18 anos com portas abertas na cidade do Porto, Anabela Baldaque destaca, em declarações ao Portugal Têxtil, o impulso que o turismo deu às vendas da marca epónima.

Anabela Baldaque

«Temos visitas de estrangeiros e que repetem. Repetem a cidade do Porto e repetem consumir Anabela Baldaque», afirma.

O mercado nacional representa a maior parte das vendas (80%) da Anabela Baldaque, que tem encontrado um novo fôlego no consumo interno nas últimas estações.

«Sinto que estou a vender mais, há mais pessoas a retomar a compra, sinto a retoma a nível geral», revelou a designer, que trabalha com uma equipa de quatro pessoas, a que se juntam vários subcontratados, quando necessário.

O otimismo

Júlio Torcato, que no início do ano inaugurou uma loja em parceria com a filha, Inês Torcato, no Porto, parece partilhar a opinião da sua conterrânea.

«Admito que haja uma retoma, há, pelo menos, mais otimismo. Eu tenho uma experiência um bocadinho particular, abri com a minha filha [Inês Torcato] uma loja e é recente. Com o novo ponto de venda estamos satisfeitos, achamos que foi uma boa aposta», confessou ao Portugal Têxtil.

Júlio Torcato

O espaço intimista, assinado pelo arquiteto José Carlos Nunes de Almeida, foi inaugurado a 21 de janeiro e está dividido em três áreas: uma alberga a coleção de Júlio Torcato, outra é dedicada à marca Inês Torcato e a terceira está preparada para receber os clientes do atendimento personalizado.

Os números das vendas de moda no retalho em Portugal que alcançaram, no ano passado, os 3.800 milhões de euros – valor que representa uma subida de 1,3% face a 2015, de acordo com o Observatório Sectorial DBK da consultora Informa –, corroboram estas afirmações.

Resistência versus consistência

Ainda na região Norte, mas já em Felgueiras, Diogo Miranda mantém um atelier, uma loja e uma equipa de 10 pessoas que o tem ajudado a vestir os quatro cantos do mundo. Atualmente, a marca epónima do designer está presente em aproximadamente 10 mercados, conseguidos graças ao investimento em presenças internacionais, com passagem, sob a égide do Portugal Fashion, por Paris – com a participação em feiras e desfiles – e Nova Iorque, onde mantém um showroom com investimento próprio.

Diogo Miranda

Dentro das fronteiras do território nacional – ainda muito discreto nas vendas, considerando que a exportação ronda os 90% –, os negócios ainda encontram resistência, apesar da ajuda de um showroom no Porto «que comercializa para Portugal inteiro».

«No mercado nacional, as pessoas precisam de ver uma, duas, três estações de um designer e só a partir da quarta ponderam comprar», explica o designer sobre os hábitos de compra do consumidor nacional.

Atualmente com as baterias apontadas para o mercado americano, Diogo Miranda conta já com uma fiel carteira de clientes em França, Itália e Médio Oriente.

Miguel Vieira

A partir de São João da Madeira, onde mantém o atelier, Miguel Vieira tem vindo vestir, a calçar e a adornar o mercado nacional sem grandes oscilações nos seus 30 anos de carreira, muito graças às vendas no canal multimarca.

«A Miguel Vieira, em termos de mercado nacional, sempre teve um papel muito importante», considera o designer, sublinhando que, «apesar do percentual muito grande em termos internacionais» a marca sempre se esforçou por crescer de dentro para fora, sem nunca «abandonar os clientes em Portugal».

Para o designer não há, por isso, “booms”, mas «uma continuidade» no consumo interno, admitindo que as compras «em massa» não estão a acontecer na moda de autor, mas nas alternativas da moda rápida «com preços mais económicos».