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A era da ansiedade

Os eventos mundiais estão a despoletar uma onda de incerteza que está a varrer todo o planeta. Há cada vez mais pessoas a sofrerem com sintomas de ansiedade, que afetam o seu quotidiano e são malvistos pela sociedade. Mas há sinais de mudança, com áreas como a arte e a tecnologia a aliviarem o peso da doença mental.

Com os alarmantes eventos no mundo a gerar uma incerteza que se espraia pelo quotidiano, o gabinete de tendências WGSN aponta novas iniciativas e estudos que estão a tentar contrabalançar as preocupações crescentes dos consumidores. A Universidade de Bristol terá uma conferência interdisciplinar em junho de 2017 sob o tema “Culturas de Ansiedade”, onde irá explorar as recentes tendências nesta área. A ansiedade será discutida na sua relação com o género, a raça e a sexualidade, na educação, nas sociedades, culturas e comunidades, assim como na música, na arte e na arquitetura.

Outra iniciativa direcionada para a melhoria da saúde mental é a MQ, uma associação sem fins lucrativos dedicada à investigação que está a financiar académicos que estão a trabalhar no mapeamento do desenvolvimento do cérebro de adolescentes. Com 75% das doenças mentais a emergirem antes dos 18 anos, esta investigação poderá abrir caminho para novos tratamentos. Seguir o desenvolvimento do cérebro nesta altura irá ainda permitir que os médicos atuem aos primeiros sintomas. «É ambicioso, mas pode ser que consigamos prevenir a progressão ou impedir que os sintomas se tornem crónicos», explica Ed Bullmore, professor na Universidade de Cambridge. «Isso seria um enorme passo em frente», aponta.

Um outro passo importante é a discussão do tema sem tabus. O número de antidepressivos prescritos a pacientes em Inglaterra duplicou numa década e, no entanto, este tema é ainda difícil de discutir. Eleanor Morgan, autora do livro “Ansiedade para Iniciantes” explica que «atualmente somos tão abertos em relação à nossa saúde física que discutimos os nossos sintomas de síndrome de intestino irritado com os nossos colegas e fazemos tweets com as dores do período. Mas ainda não fazemos o mesmo em relação a antidepressivos. Isso tem de mudar».

Uma pessoa com stress pós-traumático citada pelo WGSN confirma. «Levou mais de uma década para ser sincero com os meus amigos e família em relação à minha ansiedade. Carreguei esse peso sozinho, como uma mochila de vergonha mental», explica.

Apesar da vergonha que ainda subsiste, há cada vez mais iniciativas, da arte ao design, passando pela tecnologia, para retirar o dramatismo da doença mental e ajudarem os pacientes a olharem para o mundo com um renovado otimismo.

Da imprensa ao ioga

Os livros e revistas dedicados ao tema multiplicam-se, procurando desdramatizar e ajudar os pacientes de ansiedade. A revista Anxy, por exemplo, tem como objetivo reduzir o estigma da doença mental, o mesmo acontecendo com o Doll House Journal, que é feito por pessoas com doença mental. Já o Stress Report apresenta conselhos práticos, com soluções para lidar com estes problemas.

Na Holanda, a Ortho Wijchen é uma nova clínica dentária pensada para aliviar a ansiedade dos pacientes. Paredes brancas, luz natural e janelas com vistas fazem parte da arquitetura, já que o tratamento dos dentes é uma atividade causadora de grande ansiedade para muitas pessoas.

Casey Vallance, da Cox Rayner Architects, dá ao WGSN a sua solução para design que reduz a ansiedade, aplicada numa unidade de formação de dentistas na Universidade de Queensland. «Disseram-nos desde logo que havia uma grande ansiedade relacionada com a profissão de dentista. Tentamos reduzir isso», explica o designer, que recorreu a materiais naturais para criar o menor stress possível.

A indústria do bem-estar está igualmente a tentar aliviar a ansiedade através de experiências profundas e idílicas. O ChromaYoga é um novo estúdio de ioga que combina terapia da cor, frequências de som e aromaterapia. Em Londres, o Will Williams Meditation está a tornar-se no maior centro de meditação da capital britânica, enquanto o ginásio Third Space, também em Londres, tem já aulas para reduzir a ansiedade, com os dados preliminares, segundo Justin Feinstein, neuropsicólogo clínico, a mostrarem que as mesmas estão a ajudar as pessoas a acalmar a sua ansiedade sem a utilização de medicamentos.

Arte e tecnologia no ataque ao problema

Discutir a doença mental de forma mais honesta parece ser uma das formas de acalmar a ansiedade, pondo fim ao estigma que ainda afeta muitas pessoas. «Não é uma loucura que seja socialmente aceitável ir ao ginásio para tornar o corpo mais forte ou ir ao dentista para manter a saúde dos nossos dentes e haja ainda um estigma em ir ao terapeuta para reforçar a nossa mente, quando o cérebro é um dos órgãos mais vitais na nossa qualidade de vida? Porque é que podemos tomar medicamentos para resolver o desequilíbrio no nosso sangue mas há aina estigma relacionado com tomar medicamentos para um desequilíbrio químico no nosso cérebro?», questiona Jessica Walsh, fundadora do movimento Let’s Talk About Mental Health.

Um outro campo emergente é tecnologia que reduz a ansiedade. O Self-Love Hotel é um jogo que encoraja as pessoas a descomprimir. É possível entrar virtualmente num hotel para uma noite de “mimo”, incluindo massagens, spa e passear num jardim.

Já a tabela interativa da ativista de saúde mental Jace Harr, batizado You Feel Like Shit: An Interactive Self-Care Guide, pretende guiar o utilizador em alguns passos importantes para cuidar de si, para que consiga lidar melhor com episódios de ansiedade. «Algumas pessoas – como eu própria – têm doença mental ou crónica e têm dificuldade em encontrar a melhor forma de tomar conta de si a curto prazo. O meu projeto é uma ferramenta que pretende resolver este problema, na forma de um quadro informativo e interativo», explica Harr.

Há ainda projetos que procuram adotar uma visão mais otimista sobre a vida, como o A Big List of Good News From 2016, que lista todos os eventos capazes de instilar um sorriso que ocorreram no ano passado.

A saúde mental está igualmente a ser abordada ao nível criativo. A recente exposição de arte da Wellcome Collection, “Bedlam: the Asylum and Beyond”, explorou a instituição mental como um local de refúgio e cuidado, incluindo o projeto individual Madlove. «O problema é que muitos hospitais psiquiátricos são mais uma punição do que amor», afirmam os artistas. «Precisam de Madlove», acrescentam.

No design, o Calming Stone, um produto semelhante a um seixo lançado em 2016, ajuda a acalmar a ansiedade. O produto segue o ritmo cardíaco e mimetiza-o, como um eco, através de luzes suaves e um ligeiro pulsar. Juntamente com som, ajuda a criar uma experiência calmante.

Um nível macro ou micro, estes projetos de arte e design estão a repensar a forma como a sociedade pode tratar, abordar e envolver-se com a saúde mental – uma área que o WGSN acredita que vai continuar a crescer, à medida que esta questão se torna um tema cada vez mais obrigatório na sociedade.