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«A ERT já desenvolve projetos na área da sustentabilidade há mais de 10 anos»

Há dois anos na direção do departamento de inovação da ERT, David Macário revela, em entrevista ao Portugal Têxtil, os próximos passos que a empresa especialista na área automóvel, mas com ligações também ao calçado, está a dar no desenvolvimento de soluções sustentáveis, que lhe valeram inclusivamente um prémio na mais recente edição da Techtextil.

David Macário

Um revestimento feito a partir de desperdícios de couro, um projeto iniciado no âmbito do Texboost, valeu um prémio de inovação na mais recente edição da feira de têxteis técnicos e não-tecidos de Frankfurt, confirmando a aposta da especialista em laminagem e revestimento na sustentabilidade e, sobretudo, na inovação. Um percurso que tem sido acelerado nos últimos anos, tendo David Macário, como revelou em entrevista ao Portugal Têxtil realizada aquando da sua visita ao Modtissimo no passado dia 6 de setembro – onde a ERT foi parceira do iTechStyle Green Circle, tendo revestido os bancos do espaço – usado os dois anos que leva a liderar o departamento de inovação para capitalizar o trabalho realizado no passado e projetar os novos desenvolvimentos da empresa, onde constam a aplicação de eletrónica em têxteis e produtos que incorporam reciclados e são, eles próprios, recicláveis, para o interior dos automóveis.

Quais foram as prioridades nestes dois anos como diretor de inovação da ERT?

No primeiro semestre, o desafio foi reorganizar o departamento e operacionalizar o sistema de gestão da inovação que já existia – no fundo, foi fazer uma compilação de tudo o que tinha sido desenvolvido no passado. O Fernando Merino [ex-diretor de inovação da ERT] deixou uma obra muito boa, fez muita coisa, e foi um pouco perceber tudo o que tinha sido feito, as ideias que tinham sido desenvolvidas e pôr aquilo a rolar outra vez. O que adicionámos de novo? Seguindo esta corrente da sustentabilidade, entrámos numa série de candidaturas no âmbito do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] e também a projetos do Horizonte 2020. Entre janeiro e abril fizemos um pequeno demonstrador do Horizonte 2020 e agora vamos arrancar com dois projetos – um, em que está também o CITEVE, vai trabalhar, a nível europeu, cadeias de valor para a reciclagem e valorização dos resíduos da têxtil. Foi um pouco isso que estivemos a fazer na ERT, a integrar gente nova, a continuar o que estava a ser feito e a fazer novas candidaturas. Neste momento estamos também a dotar a empresa de um laboratório de investigação. Antes havia um centro criativo e agora estamos a fazer um laboratório de investigação, que para já tem instrumentos muito simples, mas é um espaço onde, para além de trabalharem as pessoas da equipa da inovação e da própria equipa de engenharia da empresa, recebe estudantes para fazerem projetos, seja de estágio, sejam projetos de mestrado ou cadeiras de curso que possam ser desenvolvidos em ambiente industrial.

De que tipo de equipamento estamos a falar?

Estamos a comprar equipamento ótico e comprámos alguns instrumentos de medida. Comprámos muito equipamento para a área da eletrónica. E aqui não quero puxar a brasa à minha sardinha, mas a ideia é tentar, entre portas, fazer alguns desenvolvimentos de eletrónica flexível. Temos muitos pedidos de parceiros da área do automóvel e, uma vez que fazemos laminados e revestimentos, estamos também a ensaiar como embeber eletrónica quer nos laminados, quer mesmo em peças que sejam injetadas com o sistema do foam in place.

Olhando para o automóvel, que é a área em que a ERT está focada, que eixos gostaria de privilegiar e como vê essa integração da eletrónica e respetivas vantagens para o utilizador final?

Nos próximos cinco a 10 anos, diria que os eixos para criar valor no automóvel vão ser, sem sombra de dúvida, tudo o que seja a sustentabilidade e a circularidade. Cada vez mais, os nossos clientes estão a pedir-nos componentes para automóveis feitos com partes de automóveis antigos ou então fazer um componente para o interior que tenha sido feito com outras partes, seja dos pneus, seja de outros revestimentos, seja do que for, basicamente com partes recicladas. Há mesmo muito esse pedido. A integração da eletrónica é para valorizar os interiores, isto é, tentar tornar os interiores mais simples. Se antes tínhamos aquela consola com botões e com muitos comandos, tudo muito concentrado, se calhar ter os comandos dispersos pelo próprio substrato têxtil, em que percebemos que o comando está lá de uma forma muito discreta. Também tornar esses têxteis interativos, quer aos fatores ambientais, quer ao tipo de utilização que o veículo está a ter. Uma coisa que estamos a trabalhar agora, que nos parece interessante, é em sistemas de aquecimento para os automóveis, que normalmente têm resistências feitas com fios condutores, utilizando substratos impressos que são laminados diretamente com o tecido, e, em vez de criarmos zonas aquecidas, a ideia é criar superfícies grandes no interior que vão emanar calor e de uma forma, esperamos nós, muito mais eficiente, porque é mesmo a própria superfície que é aquecida.

Acabam de receber um prémio na Techtextil. Quais as características do desenvolvimento premiado?

O produto premiado é um revestimento feito com um hidrolisado de aparas de couro de automóvel. Aproveitamos as aparas para um processo de digestão química, em que as proteínas são extraídas e os polímeros que existem nessas aparas são dissolvidos, e pegamos nessa solução e fazemos uma pasta para fazer um novo revestimento. É um projeto que teve a sua génese no Texboost e que já vinha de antes, ainda do tempo do Fernando Merino. Foi uma das coisas boas que aproveitámos. O projeto Texboost terminou quatro ou cinco meses após a minha entrada e continuámos a apostar no desenvolvimento do produto com recursos da ERT e também a trabalhar com as empresas parceiras do Texboost, mas por nossa conta. Continuámos a estudar o produto e a caracterizá-lo, mesmo com a integração de um aluno de mestrado da Universidade do Minho e, de certo modo, acabámos por ter acesso aos laboratórios e a poder continuar os trabalhos de uma maneira, digamos assim, científica. Essa pessoa até foi integrada posteriormente na ERT. O nosso enfoque foi sobretudo em melhorar o aspeto estético e a quantidade de componente reciclada no produto.

Que aplicação final poderá ter?

Neste momento, esse revestimento já pode ser utilizado para artigos de moda. É algo semelhante à pele sintética, basicamente. Mas agora, até mesmo utilizando os incentivos do PRR, estamos a tentar desenvolver o produto para a indústria automóvel e estamos a fazer algumas parcerias com fabricantes para testar o produto, mas numa fase ainda de desenvolvimento. Queremos desenvolver a formulação para tentar obter um produto que passe os requisitos do revestimento automóvel ao nível de abrasão, solidez à luz, estabilidade dimensional, etc…, o que não é fácil, mas esse é o nosso desenvolvimento futuro.

De que forma é que a sustentabilidade tem sido um dos eixos de investigação, desenvolvimento e inovação na ERT?

É interessante que esta questão da sustentabilidade começou a levantar-se há relativamente pouco tempo. Há cerca de 10 anos, era muito os e-têxteis, a eletrónica integrada nos têxteis. E, há cerca de, diria eu, uns quatro ou cinco anos para cá, começou-se a ouvir falar de sustentabilidade e ela entrou em força no nosso vocabulário do dia a dia em 2019 e 2020, por altura da pandemia. A ERT já desenvolve projetos na área da sustentabilidade há mais de 10 anos. Pelo grupo ser muito extenso, por termos a parte do automóvel, dos laminados, termos uma parte de calçado, onde temos muitas aparas de solas, as aparas de couro, começámos a desenvolver projetos, já nessa altura, que pudessem reciclar esses materiais, que eram para nós resíduos e que tínhamos de pagar para serem processados para lhes agregarmos valor. Numa fase inicial, começou muito focada na parte da reciclagem puramente mecânica, a fazer agregados, e agora, com o Texboost e com os hidrolisados, já estamos a trabalhar no processamento químico dos materiais e também queremos alargar o estudo do processamento químico na reciclagem aos laminados do automóvel, aqueles complexos em que temos um PVC, uma espuma, um não-tecido ou um PVC e uma espuma, e queríamos alargar porque são materiais compósitos em que temos, por exemplo, uma espuma em poliuretano, temos um PVC, temos um material têxtil que é o backing do PVC, aquela malhazinha de transporte, e é muito difícil reciclar isso, porque está tudo misturado. Ou trituramos e usamos como enchimento para o que quer que seja ou fazemos agregados, mas o nosso sonho era avançar, e existem esses processos e até já há empresas em Portugal que estão a trabalhar nisso, e nós também estamos agora envolvidos num projeto europeu em que temos, digamos assim, essa ambição, que é trabalhar a parte da digestão química desses materiais. Basicamente, vamos colocar num reator pedaços de um material de um complexo laminado, por exemplo, uma espuma com PVC e com um tecido e vamos fazer uma solvólise. Temos um composto que é uma mistura de vários polímeros e conseguimos separar polímero por polímero. Isso, para mim, vai ser o futuro da reciclagem. Depois, ficamos com os materiais base ou com subprodutos que permitem fazer os materiais base e aí a nossa esperança é vir a ter um poliéster reciclado muito próximo do poliéster virgem. A lógica é essa: trabalhar ao nível molecular.

Que próximas novidades podemos esperar da ERT?

O que estamos a prever realmente serão novidades nos próximos anos na área do calçado sustentável e também dos materiais compósitos de origem bio. Estamos a trabalhar muito nessas áreas. Na parte da funcionalização e da eletrónica começámos a fazer coisas internamente muito recentemente, mas já estamos com alguns projetos-piloto, com um construtor automóvel mesmo de topo, em que estamos a desenvolver coisas concretas que não posso ainda referir.

Em termos comerciais, como é que na ERT a inovação chega ao mercado?

Esse é o grande desafio que eu tenho. Já temos um historial de fazer coisas, queremos continuar a explorar coisas fora da caixa, mas também queremos retorno financeiro. Mesmo com as coisas fora da caixa, acabamos por ter retorno financeiro indiretamente, porque nos posicionamos de uma forma completamente diferente perante os nossos clientes, mas também queremos começar a aproveitar algumas coisas para introduzir nos produtos. Então, o que é que a inovação tem feito? Por um lado, tem dado apoio direto à engenharia de produto e também à comercial para fazer o levantamento de soluções inovadoras já industrializadas que possam ser introduzidas de imediato. A própria ERT está a montar um departamento de engenharia de produto avançado que o que faz mesmo é essa ponte da inovação para o cliente, fazendo demonstradores à medida para o cliente. O departamento de inovação está a fazer isso também, mas é uma forma de autonomizar muitas das coisas, porque podemos desenvolver uma coisa à medida para um cliente e depois, com outros requisitos, mas mantendo o conhecimento, sempre que possível a engenharia de produto avançada replicar isso e dar escala industrial. A engenharia de produto avançado faz essa ponte intermédia entre inovação e também a atividade comercial.

Pode dar um exemplo prático?

Sim. Não vou dizer nem para quem nem para quê, mas temos estado a desenvolver complexos laminados aplicáveis no automóvel em série já utilizando adesivos e processos de laminagem amigos do ambiente, com adesivos de origem bio e os próprios materiais utilizados nesse laminado já são, parte deles, reciclados, sendo que o próprio laminado está pensado para poder ser reciclado mais tarde.