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A Espanha dos pequenitos

As pequenas empresas do país vizinho garantem aproximadamente 34% dos postos de trabalho do sector privado mas, nos últimos anos, estes negócios de pequena escala e de base familiar acabaram por se assumir um obstáculo à produtividade espanhola.

A recuperação económica de Espanha não impulsionou as vendas da mercearia de meio século de Ricardo Sainz, no bairro operário de Orcasitas, em Madrid. As vendas caíram dos cerca de 25.000 euros por mês antes de a recessão escalar em 2008 para os 10.000 euros atuais. Sainz prevê que os números continuem a cair nos próximos anos. Os clientes fiéis e, por seu turno, mais velhos, estão a morrer, e as camadas mais jovens preferem comprar nos supermercados das proximidades. Todos os empregados abandonaram a loja e o dono não os substituiu. Ricardo Sainz trabalha sozinho, 11 horas por dia, seis dias por semana. «A recuperação está a ajudar alguns», afirma em declarações ao Bloomberg. «Mas não as empresas do tamanho da minha. O sistema não nos suporta», continua.

A receita das pequenas e médias empresas espanholas caiu 32% de 2007 para 2014 e o número de funcionários caiu 27%, em média, de acordo com um estudo da IESE Business School, desenvolvido junto de empresas de vários tamanhos, publicado em novembro último. Por seu turno, as vendas mantiveram-se constantes nas suas contrapartes de maior escala, que aumentaram inclusivamente a força de trabalho em 7%.

Tal como a loja da Sainz, quase 96% dos 3,2 milhões de empresas espanholas são pequenas, com um máximo de nove funcionários e menos de 2 milhões de euros de receitas anuais. Estes microempresários, como são conhecidos em Espanha, representam 33,5% do emprego no sector privado, mais de 4% acima da média da União Europeia (UE).

Uma análise da Fundação BBVA do ano passado notou que as microempresas espanholas não geram muita receita nem duram muito tempo, o que as torna um fardo para a produtividade. «A questão é, como podemos ajudá-los a subir a escada do crescimento? É um dos maiores desafios estruturais que a economia espanhola enfrenta», analisa Rafael Doménech, economista do BBVA Research.

Ainda desanimado com o colapso, em 2014, do seu negócio de mobiliário de escritório que empregava 40 funcionários, Juan Carlos Giménez não ambiciona crescimento. O empresário vendeu a casa e gastou todas as suas economias quando a empresa de 26 anos entrou em falência. Giménez, a esposa e alguns colegas decidiram depois erguer uma empresa de consultoria, em 2015, para que pudessem fazer uso da sua experiência na indústria e ajudar outros fabricantes de mobiliário sem precisarem de contratar funcionários ou assumir outros custos fixos.

Desde que a crise começou, o governo aprovou várias leis destinadas a estimular a confiança dos empresários, incluindo medidas que facilitam a contração e despedimento de funcionários ou o acesso ao crédito. As medidas ajudaram, mas a abordagem tem sido «muito fragmentada», defende Gayle Allard, economista da IE Business School, em Madrid.

«Os empresários saíram da crise assustados», diz Juan Carlos Giménez. «Mesmo sabendo que as pessoas são a parte mais importante de qualquer negócio, não querem investir nelas ou assumir outros riscos», completa.

Os custos de financiamento em Espanha são os mais elevados entre os principais países europeus. Um obstáculo ainda mais relevante é conseguir que os clientes paguem a tempo, afirma Antonio Garamendi, presidente do grupo CEPYME, que estima que demore em média três meses para se liquidar uma conta. «Esse é o problema que atrapalha as pequenas e médias empresas», considera. «Em vez de se concentrar no futuro do negócio, o proprietário fica distraído a pensar em como fazer a folha de pagamento que termina amanhã».

O empresário madrileno Javier Goyeneche, que também teve de abrir mão da sua empresa de acessórios, julga ter sido subestimado pelas políticas governamentais. «Se os empreendedores tivessem recebido mais ajuda, a recuperação seria muito mais rápida», garante Goyeneche, que começou uma nova empresa de vestuário e acessórios de moda feitos a partir de materiais reciclados, a Ecoalf, em 2012. Goyeneche espera que o negócio que emprega atualmente 30 pessoas chegue ao ponto de equilíbrio este ano. «São necessárias milhares de empresas como esta», acredita. «Não se trata apenas de criar negócios. A outra parte é expandi-los. Porque caso contrário, ficam presos num tamanho que dificulta a sua sobrevivência», conclui.