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«A estamparia digital é o caminho»

Propulsora da inovação, a diretora-geral da Acatel, Ana Pimenta, tem previstos novos investimentos e, embora não acredite no fim da estamparia convencional, considera que o futuro está na digital, pelo que tem como ambição que esta área de negócios represente em breve 30% das vendas da empresa.

Depois de uma primeira incursão em 2007, foi a partir de 2015 que a Acatel investiu em força na estamparia digital, uma área que tem vindo a crescer e na qual a empresa continua a apostar. A evolução do negócio ditou a especialização da estamparia digital com corantes reativos, na qual conta com uma capacidade diária de 6 mil metros – a somar às outras atividades industriais de estamparia convencional, tinturaria e acabamentos.

Como surge a estamparia digital na Acatel?

Devemos ter sido das primeiras empresas a ter estamparia digital. Tivemos a máquina Dupont em 2007, quando a estamparia digital começou a ter importância. Mas as tintas eram muito caras e, com o preço a que comprávamos as tintas, não era possível vender ao mercado. Fizemos algumas encomendas, era uma máquina de pequena capacidade, mas permitiu-nos aprender bastante. Mais tarde, quando a estamparia digital tinha já uma evolução bastante grande e havia no mercado bastante oferta, fizemos um estudo dos diferentes equipamentos. Em 2015 adquirimos a primeira máquina, que ficou a trabalhar com dispersos. Ainda fizemos muitas encomendas, mas entretanto sentimos necessidade de adquirir outra máquina para reativos. Neste momento, o mercado de dispersos não é interessante porque surgiu um volume enorme no mercado de transfer, que não é a mesma coisa que estampar direto, mas, de facto, faz-nos alguma concorrência. Não conseguíamos, de forma alguma, fazer os preços do transfer e então decidimos mudar a primeira máquina também para reativos. Neste momento temos as duas máquinas a estampar reativos – são máquinas que dão três mil metros por dia cada uma, com uma qualidade excelente. E tanto estampamos tecidos como malhas, em todo o tipo de matérias celulósicas que é possível estampar com reativos.

Que mais-valias trouxe esta tecnologia?

A Acatel nunca optou pelo baixo custo, optou sempre pela diferenciação, pela qualidade, por ter produtos que os outros não oferecem para quando o cliente tiver uma encomenda para colocar, nem sequer pensar duas vezes. Os nossos clientes sabem que quando vêm cá têm um serviço, um prazo e uma qualidade. Acho que o sucesso da Acatel se deve exatamente a isso. Ao longo do tempo que cá estou, e já são 17 anos, fomos comprando equipamentos de última geração, sempre com uma preocupação muito grande na sustentabilidade, na economia de energia, de água, de produtos. Nós conseguimos competir no mercado, por várias razões. Primeiro, porque tudo o que aparece novo no mercado, experimentamos – começo sempre pelas experiências de laboratório e depois, se correr bem, começámos ensaios à escala industrial. Posso dizer que, por exemplo, quando cá cheguei, a energia sobre as vendas representava 17%. Em 2010 chegou a 28% e no ano passado foi 14%. A energia não baixou, o que conseguimos, com equipamentos, com recuperação de energia, com alteração de processos, com alteração de produtos, com alteração de tudo, foi vir para 14%. Conseguimos baixar muito a energia, conseguimos baixar a água, os não conformes praticamente não temos. Medimos tudo e todos os sectores têm objetivos. Somos muito assertivos. Fazer bem à primeira e zero defeitos é sempre o nosso objetivo.

Cláudia Angeira (Estamparia Digital)

O que mudou para quem trabalhava na estamparia convencional?

Primeiro não há limitação de cores, não há limitação de desenho, não há limitação de rapport, pode-se fazer qualquer um. Depois é muito rápida. Tenho clientes que têm cá sempre malha preparada e faço uma amostra de um dia para o outro. Por outro lado, nos rolos, cada rolo tem um desenho, cada desenho tem uma cor e para pôr uma máquina a andar pode demorar duas horas. Estampar mil metros pode demorar duas horas e demoro outras duas horas a remover e a lavar. Na digital não. Estampo os mil metros, tenho o banho pronto, tenho a malha pronta e não tenho desperdício nenhum. Portanto, ecologicamente, não tem nada a ver. Monitorizamos a água que gastamos na convencional e na digital e a digital gasta 10% da água da convencional. E não há desperdício de tinta. Depois, não temos aquele espaço enorme para guardar rolos… Portanto, acredito francamente que a estamparia digital é o caminho.

Então é o fim da convencional?

Cada vez mais os nossos clientes estão preocupados com a sustentabilidade e também com os timings, mas não acredito que seja o fim da estamparia convencional.

Com está a relação em termos de preço entre ambas?

Cada vez se aproximam mais. O preço por metro da estamparia digital é hoje 10% do que custava há 10 anos. Estou convencida de que para as quantidades muito grandes, vai compensar a convencional. Para aquelas quantidades de dois ou três mil metros, não vai compensar.

Quanto já investiram em estamparia digital?

Cerca de três milhões de euros. Comprámos duas máquinas e tivemos que construir um pavilhão, porque tem de ser isento de contaminações.

A capacidade de resposta atual é suficiente para os próximos cinco anos?

Espero bem ter que comprar outra máquina antes. Para este ano não está previsto, mas no próximo ano se calhar já precisamos. Começámos com o digital devagarinho e fomos ganhando mercado. Neste momento temos as máquinas a trabalhar 24 horas por dia.

Joana Castro (Laboratório de Controlo de Qualidade)

Logo após a aposta na estamparia digital foi a vez das feiras internacionais, com a Première Vision Paris. Porquê?

Precisávamos de internacionalizar. Só fazemos as encomendas se tivermos preço para as fazer. Temos uma alta eficiência de processo e conseguimos baixar até a um determinado limite, mas depois há níveis que não se consegue baixar. Em 2014 comecei a ficar preocupada, tinha a fábrica cheia, não tinha onde meter um metro de malha ou de tecido para estampar, mas comecei a pensar que o futuro ia ser diferente.

Que dificuldades antevia?

As empresas têm que evoluir, ver um bocado mais à frente e definir estratégias. Não pode ser navegação à vista. O ano de 2014 foi excelente, tinha a fábrica cheia e estava preocupada, como dizia. Então em 2015 contratámos um comercial para a internacionalização. A minha preocupação era que estávamos a ficar um pouco dependentes de uma marca que já ia nos 30 e tal por cento. Quando os clientes se lembram de ir, como estão a ir agora, para outros países… Um fortíssimo concorrente português é a Turquia. Eles trabalham bem, têm empresas bem equipadas e preços muito mais competitivos. E fica aqui ao lado. Não tem a ver com a China, a Índia ou o Bangladesh. Isso começou-me a preocupar porque o futuro podia complicar-se. E o tempo veio dar-me razão. Neste momento não tenho nenhum cliente que represente mais de 17%.

Em matéria de equipamentos sente ter ainda alguma lacuna?

Precisamos de melhorar os acabamentos, é agora a nossa aposta. Já apostamos no digital, a nossa tinturaria está excelente, o nosso acabamento está bom, mas precisamos de melhorar. Não é preciso muitos milhões, é preciso escolher bem as máquinas. Neste momento, para os acabamentos, precisava de investir cerca de três milhões de euros, essencialmente em râmulas. Já estamos a ver máquinas.

Marlene Arezes (Laboratório de Cor)

Quantas pessoas trabalham na Acatel?

Temos 180 pessoas, mas todos os responsáveis de sector foram formados cá, são pessoas recém-licenciadas que normalmente caem aqui a fazer um estágio. Os que vêm cheios de vontade de trabalhar e não estão à procura de emprego, normalmente têm lugar, encaixam-se na nossa equipa. Estamos certificados com a ISO 9000 – encaro-as como normas de gestão. Temos também certificados da ISO 14000 desde 2012, o sistema é integrado. E tudo funciona. As regras estão muito bem definidas, toda a gente sabe o que tem para fazer. E a maior satisfação que tenho é poder estar ausente e não receber um telefonema ao longo do dia. Hoje tenho equipas excelentes porque foram trabalhadas para a excelência. Fazemos formação todos juntos e eles sentem-se muito motivados e valorizados. Pus o nosso sistema informático, feito à medida, a responder de tal forma que não precisamos de andar atrás de ninguém. Se um cliente perguntar pela encomenda, em cinco minutos tenho tudo do cliente, as datas que entrou, como está…

Foi esta equipa que construiu que permitiu-lhe ser bem sucedida nos novos desafios?

Sim. Temos uma equipa que, como é jovem, está sempre aberta. Eu sou a mais velha, quando lhes lanço qualquer desafio, toda a gente agarra. Por exemplo, na tinturaria mudámos tudo. Para termos esses resultados de energia, mudámos os processos todos, desde os isolamentos às preparações. E estão sempre a aparecer coisas novas no mercado, mais ecológicas, produtos mais amigos do ambiente, e tenho muita recetividade por parte da equipa. Por exemplo, a única mudança que fizemos na preparação consegue reduzir duas horas de tempo de máquina e cinco produtos. Permite diminuir a água em quase 50%, a energia em 30%, tempo de máquina menos duas horas – quase que ganho aqui um quarto do tempo do processo completo. Aderimos ao ZDHC – Zero Discharge of Hazardous Chemicals, que decorre até 2020, mas mandei fazer análises às nossas águas e já cumprimos com tudo. Temos as certificações todas, incluindo a bluesign – penso que não existe mais nenhuma tinturaria e estamparia em Portugal com esta certificação –, fomos dos primeiros em Portugal a ter OEKO-TEX, em 1994.

João (Tinturaria)
Virgínia Ferreira (Acabamentos)

Fala-se muito na indústria 4.0 e na digitalização. Isso contribuiu para esse nível de eficiência e excelência?

Muito. Por exemplo, os comerciais sabem exatamente o que é que a malha dos clientes está a fazer e em que posição se encontra. Reunimos duas vezes por semana a equipa produtiva com a equipa comercial para definirmos a semana seguinte, afinar a estratégia e tomarmos decisões. E depois cada um controla as suas coisas. Informaticamente temos tudo, porque o nosso sistema é muito fiável. Mesmo em termos de estatística, temos os indicadores todos. É uma ferramenta muito importante.

No geral, qual é o vosso modelo de negócio?

O nosso modelo é respostas rápidas, quantidades não muito grandes e claro que a estamparia digital aí é muito melhor, porque é muito mais rápida, é assertiva, não há problema com os desenhos. Hoje temos uma equipa de design de cinco pessoas.

Quantos clientes ativos tem a Acatel?

Cerca de 100, com 15 clientes a representarem 80% das vendas.

Qual é hoje a quota de exportação direta?

A exportação deve andar à volta dos 20%. O principal mercado é Inglaterra. Veio nem eu sonhava com o Brexit. É um mercado muito forte, muito bom. Também temos o mercado espanhol, o francês, estamos a começar o italiano e o alemão. Procuramos investir na diversificação de mercados.

Como se dividem atualmente as vendas da empresa?

Digamos que é 40% estamparia tradicional, 40% tinturaria, 10% estamparia digital e 10% o tingimento de seamless. Mas espero que haja uma inversão: a digital vá para os 30%, a convencional fique nos 20% e 50% para a tinturaria.

Sandra Araújo (Controlo de Qualidade do Produto Final)
Carlos Figueiredo (Estamparia Convencional)

Que balanço faz de 2018?

Acabámos sensivelmente igual a 2017, com cerca de 11 milhões de euros de volume de negócios.

Quais são as expetactivas para o corrente ano?

Estamos muito expectantes. Em 2018, as expectativas eram muito boas e afinal não foi melhor do que o ano anterior. A minha expectativa era que 2018 fosse superior, na nossa projeção tínhamos um aumento de 5% das vendas e não conseguimos. Para 2019 continuamos nessa aposta, aumentar os 5%. Não sei se vamos chegar lá, mas vamos trabalhar para isso.

Que metas estão traçadas para o médio/longo prazo?

Gostava de vender na vertical – a malha pronta, tingida e estampada. Queria, em 2020, já estar pelo menos com 30% e, em 2025, com 50%. Temos esse potencial.