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«A estamparia digital é uma ferramenta, não é a solução»

Mário Jorge Machado, presidente da Adalberto, assume a vontade de crescer na estamparia digital, mas sublinha que esta não resolve todos os problemas da estamparia e que há situações em que o processo convencional continua a ser uma solução mais interessante.

Pioneira em Portugal, há 20 anos que a Adalberto tem estamparia digital dentro de portas. A empresa, que emprega cerca de 400 pessoas, tem acompanhado a evolução dos equipamentos e do mercado, reforçando a sua aposta nesta área – há dois anos comprou um novo equipamento que permitiu quadruplicar a capacidade instalada, atualmente na ordem dos 30 mil metros diários.

Como nasce a estamparia digital na Adalberto?

A Adalberto comprou a primeira máquina de estamparia digital em 1998, portanto ainda estávamos no século XX. Desde aí, a empresa tem vindo a evoluir e a acompanhar as novas tecnologias – os fabricantes têm introduzido novos equipamentos, quer os fabricantes de máquinas, quer os fabricantes de cabeças de impressão. Quando compramos uma máquina de estampar digital estamos a comprar, sobretudo, uma dada cabeça de impressão, e isso é que faz a diferença.

O que mudou na tecnologia ao longo destas duas décadas?

As expectativas que tínhamos para esta tecnologia há 20 anos mantêm-se hoje. É mais uma ferramenta de trabalho. A grande diferença de há 20 anos é que os custos de produção utilizando esta tecnologia caíram muito. As tintas passavam dos 120 euros por cada litro e hoje estamos nas duas dezenas de euros por litro. Outra mudança foram as velocidades. Os primeiros equipamentos tinham capacidades de impressão na ordem de um a dois metros por hora e hoje temos velocidades de impressão de 2 mil metros por hora. Também as cabeças de impressão aumentaram a resolução – passámos de cabeças que tinham resoluções da ordem dos 300 dpi para resoluções que vão aos 1.200 dpi. Do ponto de vista tecnológico, houve um salto muito grande. Onde é que não houve um salto muito grande? Na fragilidade das cabeças de impressão – ainda hoje estamos a falar de equipamentos que são muito caros em termos de aquisição e muito frágeis em termos do seu tempo de vida.

Como se encontra o mercado da estamparia digital na atualidade?

Houve muitas empresas que, não conhecendo todos os custos e toda a manutenção necessária para produzir e utilizar máquinas de estamparia digital, investiram pensando que ia ser a solução para todos os problemas de estamparia. E está muito longe disso. Inclusive, neste momento, em Itália, já se estão a vender quase tantas máquinas de estampar convencionais quantas digitais. As empresas chegaram novamente à conclusão que a estamparia digital é uma ferramenta, não é a solução para todos os processos de estamparia. A estamparia digital transmitiu a falsa ideia de que era ligar a máquina à tomada elétrica e saíam estampados do outro lado. Aparentemente é isso que acontece, mas o diabo está nos detalhes. E a estamparia, quer a convencional quer a digital, tem muitos detalhes. Houve já várias empresas que não tinham experiência de estamparia e que se meteram no negócio digital, em Portugal e não só, e depois perceberam que a dimensão, a complexidade e os custos eram muito superiores àquilo que tinham estimado. Por último, também vieram a descobrir que a dimensão do mercado não era tão grande quanto pensavam. E isso tem levado a que, dentro do mercado, haja uma concorrência muito grande. Cada um quer ter uma fatia maior do mercado e o mercado não é elástico, não está em crescimentos na proporção dos investimentos feitos em estamparia digital. E isso notou-se claramente nestes últimos tempos, inclusive no ano de 2018 – houve muitas empresas que já tiveram os equipamentos parados vários dias porque não havia mercado para todos. Os custos fazem com que este tipo de tecnologia seja utilizado só em segmentos de mercado médio-alto e isso também faz com o que o mercado não seja muito grande.

Que consequências daí advêm?

Existe neste segmento de mercado uma situação de pressão muito forte nos preços, porque existe já excesso de oferta. Em determinadas alturas do ano, no mercado europeu e, em algumas situações, no mercado mundial, já começa a haver excesso de oferta. E quando existe excesso de oferta, começa a haver uma forte pressão de baixa nos preços, com todos os graves problemas que isso traz quando há excesso de oferta na capacidade instalada.

De que forma se complementam a estamparia convencional e digital?

Tem tudo a ver com o tipo de trabalho de estamparia que estamos a executar. A convencional é mais adequada para determinado tipo de desenhos, tipo de matéria-prima, tipo de corantes com que se pretende estampar. E há outras situações em que a digital, em função do tipo de desenhos, do tipo de matéria-prima e tipo de corantes que se quer utilizar, é mais adequada. Como dizia o senhor Einstein: tudo é relativo, até o tempo.

E em termos de preços?

Aí a grande diferença tem a ver com os custos de amortização, das gravações dos cilindros. Se as quantidades não permitirem a amortização do investimento à cabeça nos cilindros, então a digital na maioria das situações torna-se mais competitiva em termos de custos. De forma genérica, e atendendo aos preços com que anda a digital e os custos dos cilindros, em quantidades abaixo dos 1.000 metros a digital é mais competitiva do que os cilindros.

Quanto investiu já a Adalberto nesta área de negócio?

Nas diferentes gerações de equipamentos que fomos tendo ao longo destes 20 anos, deve estar perto dos 4 milhões de euros.

A tecnologia tem-se revelado competitiva também para os têxteis-lar?

Depende. Nos têxteis-lar, em segmentos de mercado mais alto temos clientes que, pelo design, pelo tipo de trabalhos que se pode fazer, estão dispostos a pagar o preço para ter aquele tipo de produto. Mais uma vez é um segmento de mercado cuja dimensão não é comparável com o segmento de mercado que a estamparia convencional consegue abranger. Estamos a falar da ordem dos 4% ou 5% daquilo que se estampa em têxteis-lar a nível mundial, portanto, 95% do mercado ainda é feito de forma convencional. Mas o sentido vai ser a digital continuar a crescer. Há equipamentos digitais que, com a evolução, também vão conseguir ser mais competitivos e ganhar alguma quota de mercado à estamparia convencional. Isso vai continuar a acontecer progressivamente. Pode vir a acontecer que daqui a 10, 20 ou 30 anos a estamparia digital já consiga ter as soluções todas.

Que expectativas tem para a próxima década?

Se os fabricantes de cabeças de impressão investissem para encontrar soluções para a área têxtil, a evolução era mais rápida. Só que o mercado têxtil na área de impressão é um mercado pequeno relativamente à impressão em papel – é um nicho. E como tal, o investimento que eles fazem nas cabeças de impressão vai continuar a ser pequeno. Até haver um fabricante que resolva fazer cabeças de impressão somente dedicadas aos processos e produtos têxteis, vamos continuar a evoluir mas é uma evolução que vai a reboque daquilo que acontece na impressão do papel.

Que capacidade instalada dispõe hoje a empresa?

Dentro da estamparia digital temos uma capacidade de produção na ordem dos 30 mil metros por dia. Estamos a desenvolver ações comerciais para crescer, porque não utilizamos toda a nossa capacidade de impressão – estamos a utilizar 65% a 70%. Ainda temos disponibilidade para crescer.

Quanto já representa a estamparia digital nas vendas?

Em 2018, a estamparia digital representou cerca de 35% a 40% das nossas vendas, mas depende dos trabalhos que nos aparecem. Se aparecem mais trabalhos para fazer em convencional, fazemos mais em convencional, se aparecem mais em digital, fazemos mais digital. Tem muito a ver com a moda, com as quantidades, com as matérias-primas e com os corantes. Nós queremos que cresça, porque ainda temos capacidade disponível para crescer. E se essa capacidade para crescer vier a concretizar-se, podemos chegar aos 50% com a estamparia digital.

Quais são os principais mercados da Adalberto, no geral?

Quase 80% está no mercado europeu. Os EUA, neste momento, representam cerca de 20% daquilo que fazemos e queremos crescer dentro deste mercado. A Ásia ainda representa muito pouco naquilo que estamos a vender. Temos muito para crescer na Ásia – é a zona onde a indústria têxtil europeia tem de encontrar mais oportunidades de crescimento. Idealmente, a nossa empresa deveria estar a vender de uma forma equilibrada a nossa capacidade nestes três continentes.

Há novas apostas ou reforço de apostas em termos de mercados?

Estamos com ações no mercado europeu, que continua a ser o nosso maior mercado, e estamos a reforçar ações no mercado americano. Este ano estamos também a promover uma série de ações nos mercados asiáticos. Quer pela presença nalgumas feiras, quer por ações comerciais diretas.

Que investimentos tem privilegiado a Adalberto?

As empresas que investem continuamente no seu negócio podem ir a jogo. As empresas que não investem, é uma crónica de uma morte anunciada. Investir é um fator crítico para a continuidade de qualquer empresa, em qualquer negócio. Então nas indústrias, em que a performance dos produtos, a velocidade e, na área da moda, em que tudo isto se passa muito mais rapidamente, é crítico o investimento ser feito de forma continuada. Nós temos investido de uma forma continuada. Todos os anos investimos centenas de milhares de euros na continuação da melhoria dos nossos processos, nas questões que nos permitem uma maior sustentabilidade, nas situações que nos possibilitam uma melhor competitividade, uma melhor qualidade… Isto nas empresas é algo que pode parecer muito aborrecido, mas nem todas as situações são muito sexy. Nós comprarmos equipamentos que nos permitem gastar 12 em vez de 60 litros por quilo de artigo num processo de branqueio. Isto não é muito sexy, mas em termos de sustentabilidade é muito importante. Todo este tipo de investimentos que temos vindo a fazer, assim como uma grande generalidade das empresas do sector em Portugal, não é sexy, mas estas ações em conjunto acabam por contribuir para que o sector seja competitivo, inovador e sustentável. Em 2017 investimos perto de 5 milhões de euros. Em 2018 continuamos a investir mas não nessa ordem de grandeza. Em 2019 estamos a fazer investimentos de substituição, em equipamentos que nos permitem poupar vapor e menos desperdícios nos processos de preparação. O plano de investimento deste ano será cerca de um milhão de euros, para áreas ligadas quer à estamparia convencional, quer à estamparia digital. Mas temos projetos de investimento em carteira que vão para perto novamente dos 5 milhões de euros. E sendo este um ano de ITMA, se as coisas correrem como pensamos que venham a correr, podemos vir a fazer investimentos significativos na continuação da melhoria de equipamentos.

Para além do branqueio, que outras áreas têm sido objeto de iniciativas em prol da sustentabilidade?

Neste momento estamos a substituir tudo o que é fluorescente por LED. Mais uma vez é uma medida que não é muito sexy, mas é uma medida que, do ponto de vista de sustentabilidade, é importante. São medidas que, passo a passo, contribuem para que toda a indústria seja mais sustentável. Não é só a indústria têxtil, é toda a indústria. A estamparia digital em alguns aspetos consegue ser mais sustentável que a convencional, noutros nem tanto, mas permitiu, nalgumas situações, que as quantidades de água e de energia utilizadas fossem inferiores. Para processos de lavagem e de secagem na estamparia digital, conseguimos reduções da ordem dos 25% aos 30%.

Há também uma apostas verde no desenvolvimento de produto?

Estamos envolvidos em vários projetos em que os nossos produtos e subprodutos são integrados noutras economias, noutras situações. Estamos a desenvolver projetos em que podemos vir a utilizar, no nosso processo de estamparia, produtos que são obtidos através do tratamento de alguns desperdícios usados na indústria automóvel. Estamos envolvidos num processo em que parte dos componentes de produtos químicos retirados do automóvel, que são utilizados para as fixações dos corantes na estamparia convencional, podem vir a ser reutilizados em parte do nosso processo produtivo.

Como correu o último exercício financeiro?

Em 2018 mantivemos basicamente o volume de negócios de 2017 – ficou perto dos 30 milhões de euros. Tínhamos objetivos de crescer, por isso mesmo fizemos os investimentos, mas 2018 manteve-se idêntico a 2017. Há uma série de ações comerciais que tínhamos planeado, mas por motivos vários transitaram para 2019. O nosso objetivo é ver se conseguimos crescer a dois dígitos. Com todas as nuvens negras que temos no horizonte, é claro que o trabalho das nossas equipas comerciais vai ser bastante complicado. Mas estamos confiantes. O ano está a arrancar de uma forma mais positiva do que 2018, portanto, vamos trabalhar para que o nosso objetivo de crescer a dois dígitos se concretize para justificar todos os investimentos que temos vindo a fazer de forma continuada na indústria.

Enquanto empresário, está também envolvido no associativismo, sendo vice-presidente da ATP. Que análise faz do sector no presente e que oportunidades e desafios vê para o futuro?

É muito importante termos essas duas situações: estarmos nas empresas e estarmos a trabalhar para o bem comum do sector. São duas situações que devem ser complementares. Devemos ter uma visão de que as horas e os dias gastos com as situações que têm a ver com o associativismo, são situações que se vão refletir no sector e ultimamente vão se refletir em todas as empresas, inclusive na minha. Se o sector estiver bem, todos vamos estar melhor. E se todos percebermos isso, que o associativismo é importante, o trabalhar em conjunto é importante, que ajuda todo o sector e ajuda o país, esta dimensão de não estarmos só a olhar para o nosso umbigo e para o nosso interesse, acaba por ser melhor, por ser muito mais positivo, mesmo para cada uma das empresas. Este espírito de cooperar, de entreajuda dentro do sector é muito importante para conseguirmos manter o interesse dos clientes por Portugal. Todos os anos, os desafios com que o sector têxtil se debate são sempre superiores aos desafios que se tinha no ano anterior. Sabemos que, para o sector têxtil, não há vitórias garantidas. Todos os anos temos que trabalhar para conquistar o nosso espaço. Sabemos que a concorrência a nível mundial vai continuar a crescer, os nossos concorrentes na zona da Ásia vão continuar a querer fazer produtos melhores, mais rápido, com mais design e tudo isso vai obrigar-nos, em 2019, 2020 e 2021, a continuar também a inovar, a sermos mais criativos, a dominarmos melhor as cadeias de logística, as cadeias de distribuição, a importância da sustentabilidade no negócio, percebermos a evolução dos consumidores… Não é novidade para nenhum empresário e para nenhum quadro das empresas do sector têxtil que, a cada ano que passa, vamos tendo desafios maiores para vencer.