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A ética da Primark

Assente num modelo de negócio que tem como principal objetivo oferecer aos consumidores os preços mais baixos da high street, a retalhista de fast fashion é alvo de interpelações constantes sobre o seu compromisso com um conjunto de questões éticas e ambientais.

Paul Lister, responsável pela equipa de ética da Primark, explicou ao just-style.com que «a força da ética de uma marca não se mede na etiqueta de preço» e que um envolvimento próximo com a cadeia de aprovisionamento é algo fundamental. Detida pela Associated British Foods (ABF), a Primark é uma das mais destacadas histórias de sucesso de retalho do Reino Unido na última década.

Com uma quota de 14,3% do mercado de vestuário do Reino Unido, é a terceira maior retalhista de vestuário em valor e, em 2015, registou um crescimento de vendas de 13% e um aumento no espaço de venda ao público de 9%. Mas, apesar de todo este sucesso, a Primark enfrenta constantemente perguntas acerca dos seus preços e sobre como este mina consistentemente os oferecidos pelos rivais – embora a retalhista recorra precisamente aos mesmos fornecedores e fábricas e se esforce por manter os mesmos padrões éticos e ambientais.

De acordo com o responsável pela equipa de ética, a resposta é simples e começa com a escolha de não replicar as margens dos concorrentes, que podem chegar aos 20%, comparadas com os 10% a 13% da Primark. Isto, sublinhou o responsável pela equipa de ética, dá «menos espaço de manobra» à retalhista. «Não fazemos publicidade, por isso podemos poupar 150 mil libras ao não anunciar com a escala que alguns dos nossos rivais fazem, que vão diretas para o preço», explicou.

«Estamos a comprar roupas relativamente simples, não mudamos as encomendas, não cancelamos pedidos e, às vezes, compramos fora de época. As t-shirts brancas podem ser compradas em qualquer época do ano… e vamos comprar pullovers fora de época, porque sabemos o que estamos a comprar e podemos conseguir um preço melhor», acrescentou.

Paul Lister considera o relacionamento da Primark com os seus fornecedores um fator crucial e que ilustra que a retalhista se envolve na sua cadeia de aprovisionamento para garantir que estes sejam pagos mais cedo do que os rivais. «Se os artigos não vendem em loja fazemos descontos imediatos, não estamos à espera dos saldos e as encomendas não são canceladas», explicou.

Uma vez que o fornecedor tem a encomenda da Primark, vai, em seguida, começar a intersetar todas as outras, que têm, talvez, maior margem para o fornecedor, são mais “fashion” e, por isso, mais propensos a mudar.  «As nossas despesas gerais são extremamente baixas. Não temos agentes, fazemos o sourcing nas fábricas, por isso, tudo isso é projetado para manter o preço tão baixo quanto nos for possível. Queremos ter descaradamente o melhor preço na high street», afirmou.

A Primark também não tem comércio eletrónico, porque «não funciona para nós», referiu Lister. «Não queremos perder dinheiro. Se perdermos dinheiro online, vamos ter que pagar na loja, e descobrimos que coisas como devoluções nos reduzem as margens, e não temos muita margem para desperdiçar».

A perceção de que Primark pode vender uma t-shirt por duas libras e ainda apresentar-se como uma empresa ética é muitas vezes questionada e é um assunto sobre o qual o responsável pela equipa de ética se mostra verdadeiramente defensivo. «Não critico as pessoas pela indulgência e não tenho problema com ela. Mas tenho um problema quando as pessoas dizem que se é barato é porque é mau. Há algumas vozes mal-informadas que vão criticar os preços e fazem-no por falta de informação e porque, francamente, é fácil», advogou.

«Todos aprovisionamos nos mesmos locais, partilhamos 98% dos nossos fornecedores com outras retalhistas. A força da ética de uma marca não se trata de um preço, é sobre se a retalhista está preparada para trabalhar em prol da ética e reconhecer que o sourcing no mundo em desenvolvimento traz consigo riscos associados», acrescentou Lister.

Abordagem colaborativa

O  lidera uma equipa de ética de mais de 60 pessoas para gerir o programa de comércio ético e realizar as auditorias na Primark – das quais 2.412 foram efetuadas em 2014 –, incluindo a recente contratação de um inspetor estrutural. Esta contratação dever-se-á expandir a 80, à medida que a retalhista procura construir relações mais próximas com os seus fornecedores.

Lister é rápido em admitir, porém, que o trabalho de supervisão da cadeia de aprovisionamento de uma marca requer a colaboração e é impossível fazê-lo sozinho. «Podemos resolver questões individuais dentro das fábricas dos nossos fornecedores, mas não podemos estabelecer um salário mínimo», revelou.

A Primark é signatária de uma série de esquemas éticos e ambientais sendo, por exemplo, membro do conselho da Ethical Trading Initiative (ETI) – uma aliança de empresas, sindicatos e organizações de voluntários que trabalham para melhorar a vida dos trabalhadores de fabricam bens de consumo.

A Primark foi também a primeira retalhista do Reino Unido a assinar o Accord on Fire and Building Safety in Bangladesh e juntou forças com o Department for International Development (DfID) do Reino Unido numa série de projetos, como o desenvolvimento das competências económicas das mulheres, desenvolvimento de mercado e resposta a desastres em cinco principais mercados de aprovisionamento – Bangladesh, Paquistão, Myanmar, Etiópia e Índia.

Existe ainda o HERproject, no qual Primark firmou parceria com a consultora Business for Social Responsibility (BSR) desde 2011 para providenciar cuidados de saúde e educação em saúde para as mulheres que trabalham nas suas fábricas. E, mais recentemente, a retalhista prolongou o seu programa sustentável de algodão para as trabalhadoras indianas por mais seis anos.

O responsável pela equipa de ética salientou ainda que a Primark tem revelado preocupações com a sua cadeia de aprovisionamento há mais de uma década, e que esta não é apenas resultado do colapso do edifício Rana Plaza há três anos – embora admita que a «eficácia e a aprendizagem» melhoraram desde os trágicos acontecimentos e que resultaram na contratação recente de um engenheiro de estruturas e de um responsável pela segurança contra incêndios.

Mapa de sourcing

O mapa de sourcing da Primark manteve-se relativamente inalterado ao longo dos anos, e Lister sublinha que o grupo foi firme na sua decisão de continuar a destacar a produção para o Bangladesh quando outras retalhistas a deslocalizaram depois de Rana Plaza. «Nós ficámos e fomos muito claros ao dizer que iríamos trabalhar no Bangladesh para fazermos as coisas de forma correta. Há uma força de trabalho de milhões de pessoas que dependem disto, por isso, é completamente errado as marcas dizerem que estão a desistir do Bangladesh», explicou.

Não obstante, a Primark não está a seguir a rota de muitas outras marcas e retalhistas quando se trata de revelar publicamente a sua lista de fornecedores, embora concorde que há uma maior necessidade de transparência na cadeia global de aprovisionamento de vestuário. Lister refere que «não vê necessidade» de lançar uma lista tão «comercialmente sensível» porque muda à medida que a retalhista cresce.

O responsável pela equipa de ética admite, no entanto, que a incursão recente da Primark no mercado de retalho dos EUA pode mudar ligeiramente a sua estratégia de sourcing. As primeiras lojas abriram em Boston e na Pensilvânia em setembro do ano passado e há planos para abrir outras nove até ao final do ano (ver A invasão da América). «Ainda estamos a aprender nos EUA e isso pode significar olharmos mais para a América em algumas das nossas linhas que antes colocávamos na Turquia e na Europa. Vamos entrar com o que sabemos e, em seguida, vamos aprender, assim como fizemos com os nossos outros mercados», justificou.

Na verdade, fora do Reino Unido, a Primark tem 134 lojas na Irlanda, Espanha, Portugal, Alemanha, Holanda, Bélgica, Áustria, França e EUA, representando cerca de 44% das 302 lojas do grupo. Mais de metade do investimento da Primark no ano passado foi gasta na expansão e esta deverá ser uma abordagem para continuar em 2016, com a empresa a adicionar a Itália ao seu portefólio, e, claro, as novas lojas nos EUA.

Apesar da expansão, o responsável pela equipa de ética adianta que deverá haver pouca mudança no modelo de negócios da Primark ao longo dos próximos anos, estando confiante de que a empresa tem a estratégia certa para garantir que continue a funcionar eficiente e eticamente.