Início Notícias Mercados

A herança da Caxemira

Os distúrbios políticos e a violência são frequentes no vale de Caxemira e montanhas circundantes, mas sob a onda de conflitos, o estado mais setentrional da Índia é rico em história sobre a arte de tecer sozni aí praticada há largas centenas de anos.

A tecelagem Sozn é uma técnica de tecelagem que utiliza agulhas finas na lã de caxemira para criar intrincados e elaborados bordados, com padrões florais ou paisley. Anjali Rao Koppala, correspondente da Reuters em Bangalore, descobriu esta arte em visita a Srinagar, a capital do estado de Jammu e Caxemira, onde conheceu Ali Muhammad Beigh e a sua família.

Beigh, de 70 anos, é um dos artesãos mais idosos e venerados de Srinagar. Muitos admiram-no pela sua arte de cruzar as teias e as tramas. As paredes da sua casa estão decoradas com certificados, medalhas e prémios de excelência.

Os Beighs vivem na cidade antiga de Srinagar, no coração do Bazar Alamgiri. No piso superior da modesta habitação encontra-se atelier, dividido por dois quartos. Num deles são guardados os produtos acabados e no outro, que serve de sala de trabalho, existem somente armários de madeira para armazenar os fios de seda e as mantas pasheminas. A família senta-se no chão e trabalha.

Ali Beigh aprendeu esta arte com o seu irmão mais velho, Gulam Hassan Beigh, que normalmente ocupa um dos cantos para tecer as suas criações. A mão esquerda de Ali Beigh está marcada pelas picadas das agulhas. Os seus dois filhos, ambos tecelões sozni, também trabalham no mesmo aposento. Ali Beigh formou ainda as suas filhas e noras na arte de tecer.

«Apesar de ser analfabeto, as competências em sozni proporcionaram, a mim e aos meus familiares, a oportunidade de viajar para o exterior e mostrar a nossa arte em países estrangeiros, algo que não é de menos importância», conta Ali Beigh. «Não é apenas um ganha-pão, mas uma forma de preservar a minha herança, que perdurará através do meu trabalho, por muito tempo, depois que eu partir».

«Já recebemos tantos prémios estatais que deixámos de participar nas competições e agora somos escolhidos para avaliar os participantes», revela Mehboob, o filho mais velho de Ali.

Para uma família que ganhou inúmeros prémios de reconhecimento ao longo dos anos, sentem que os aplausos não são suficientes para evitar o desaparecimento desta arte. Ali Beigh já formou mais de 1.000 pessoas. A maioria delas são raparigas que não procuram trabalho fora do ciclo doméstico, mas que sustentam as suas famílias com este ofício.

Beigh confessa que o número de pessoas interessadas em aprender esta arte está a diminuir e este ano não teve ainda nenhum aprendiz. O seu neto, que tem vinte e poucos anos, não está interessado em dar continuidade ao legado.

A tecelagem sozni exige muito trabalho e paciência, uma vez que cada manta demora dois a três anos a ser concluída. O artesão deve trabalhar durante seis horas, todos os dias, criando padrões coloridos. Uma manta como esta é vendida no mercado a um preço que varia entre os 763 dólares e os vários milhares de dólares. «Uma vez que demora muito tempo a terminar uma peça, a geração mais jovem não está interessada em dar coninuidade. Um salário diário de 4,58 dólares não é suficiente para atraí-los para este ofício. Ao contrário de nós, o meu neto é formado, pelo que pretende obter um emprego de “colarinho branco”», explica Ali Beigh.

O filho mais novo de Ali, Shabir, aponta as mantas feitas à máquina como uma das causas que está a matar a arte. Com o aparecimento de máquinas poderosas, os fabricantes podem vender as suas mantas como pashminas verdadeiras a preços mais acessíveis. «A verdade é que, uma pashmina original, elaborada pela tecelagem sozni, é muito mais delicada e a sua qualidade não pode ser equiparada às mantas tecidas à máquina», defende Ali. «A pashmina tornou-se agora uma marca utilizada para vender as mantas feitas à máquina, desacreditando o duro trabalho dos tecelões».

Ali Beigh revela que o financiamento do governo a esses teares prejudica os artesãos. «Quando uma réplica barata de trabalho sozni feito à máquina a partir de viscose está disponível no mercado por alguns milhares de rúpias, as pessoas confundem-na com uma manta sozni original. O mínimo que o nosso governo pode fazer é etiquetar as mantas feitas à máquina, para diferenciá-las daquelas que são puramente tecidas e bordadas à mão», conclui.