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A Indústria Têxtil europeia não vai desaparecer

William Lakin,director-geral da Euratex, deu uma entrevista ao Noticiero Têxtil, da qual o JT publica um resumo:

Noticiero Têxtil (NT) – A industria têxtil e de vestuário (ITV) europeia é uma das prejudicadas com a eliminação das quotas. Existe verdadeiramente o risco de desaparecer?

William Lakin (WL) – A industria têxtil e de vestuário europeia não vai desaparecer. Basta observar os números de exportações que em 2003 alcançaram os 40 mil milhões de euros, mais de 20% da facturação do sector, e num contexto muito competitivo. Por outro lado, contamos com um bom número de produtores de têxteis técnicos no ramo automóvel, aeronáutico, da medicina e da construção, onde somos muito competitivos. É obvio que há outros sectores importantes onde vamos perder postos de trabalho e empresas, como consequência da abolição das quotas, mas de momento não sabemos que impacto terá no tecido industrial.

NT – A China e a Índia são os grandes vencedores…

WL – Todos estão de acordo com essa avaliação. Cremos, efectivamente, que a China, que tem uma grande capacidade de produção e preços absurdos, que não representam de forma alguma a realidade comercial ou industrial, mesmo que seja de um país com mão-de-obra barata, é o grande vencedor. Seguido de perto pela Índia, sobretudo na fiação e na tecelagem de algodão, e de alguns produtos acabados.

NT – O Banco Mundial vaticina que em 2010 a China alcançara 50% das exportações mundiais de confecção, mas um estudo da OMC relativiza este crescimento e o risco inerente.

WL – Mesmo que se trate de estudos sérios, o problema é que se baseiam em modelos que pressupõem uma situação mais ou menos estável no plano económico e político, nos países a que se refere. Creio que não se possa demonstrar até que ponto é que o mercado europeu e americano estão saturados de importações de baixo preço. Também não sabemos qual vai ser a evolução da procura interna na China para os segmentos da confecção, e até que ponto o seu governo manterá a estabilidade politica que tem actualmente.

NT – As cláusulas de salvaguarda podem contribuir para preservar o emprego na indústria europeia?

WL – Primeiro é preciso compreender como é que funcionam. Quando existe um aumento rápido dos volumes de importação ou uma redução radical dos preços, que até pode acontecer simultaneamente, existe a possibilidade de recorrer a uma cláusula de salvaguarda. Ela utiliza como período de referência as importações dos últimos doze meses e tem a duração de um ano, e serve para ver se durante esse período há um aumento de 7,5% das importações em relação ao período de referência. Mas tudo depende do momento em que se utiliza a cláusula de salvaguarda e da gravidade da situação, já que não tem um efeito de longa duração, mas serve para resolver um problema a curto prazo. Assim, pode salvar postos de trabalho a curto prazo, mas provavelmente não o poderá fazer a longo prazo.

NT – Certamente que os fabricantes que subcontratam uma parte da sua produção não gostariam de ver aplicadas essas cláusulas.

WL – Alguns dos nossos fabricantes fizeram joint-ventures na China, mas não são os principais responsáveis pela importação de produtos a baixo preço. A principal culpada é a distribuição, porque exerce uma pressão enorme sobre os preços, quer dos produtos da China quer de outros países, para conseguirem ter margens a vender produtos muito baratos, mesmo que seja na Europa. E está aqui uma grande diferença entre os industriais que fazem um trabalho que implica investimento e capacidade logística, e os distribuidores que só procuram importar e vender.

NT – As acções anti-dumping são eficazes?

WL – Podem ser, o único problema é quer requerem tempo, já que desde o momento em que se entrega um dossier na Comissão podem passar 12 a 15 meses ate que se proceda a uma acção definitiva, e durante esse período o mercado pode ser muito prejudicado.

NT – As quotas desaparecem, mas ficam as tarifas e os sistemas preferenciais. Poderá haver melhores resultados nas futuras negociações das tarifas para uma maior abertura dos mercados?

WL – Esperamos que sim, pois as tarifas europeias são as mais baixas do mundo. O Japão tem tarifas equivalentes, mas as dos americanos são mais elevadas, assim como as de outros países, incluindo de alguns países em vias de desenvolvimento e que são grandes exportadores de têxtil como a Índia, que é um mercado praticamente fechado às nossas exportações. Estamos à espera de bons resultados das negociações tarifárias no seguimento das negociações de Doha; em Dezembro, em Hong-kong vão poder concretizar-se algumas orientações. Entretanto, vamos continuar a sensibilizar os Governos e a Comissão para a redução destas barreiras.

NT – A Europa propõe reduzirem-se as tarifas para os países em vias de desenvolvimento, à excepção da China, cujas importações pagarão mais 3% a partir de 2006.

WL – Como dispomos de um sistema de preferências generalizadas, todas as concessões que fizemos à China e Índia devem ser feitas com os restantes países. O que propusemos foi que os países que têm tarifas mais elevadas do que as europeias, as reduzam para os nosso níveis, de forma a que em todos os mercados as tarifas do fio, dos tecidos e dos produtos acabados, sejam praticamente as mesmas, ou comparáveis. E em alguns casos já começámos a ter êxito porque a China, depois da sua entrada na OMC, já fez alguma concessões importantes neste âmbito e respeitou os seus compromissos, pelo que actualmente temos na Europa tarifas de 12% para os produtos acabados, enquanto que na China são de 17,5%. Seria desejável uma redução maior, mas é melhor esta situação do que a que temos com a Índia, que tem tarifas superiores a 20% e medidas não tarifárias que resultam num total de 70 ou 80%. Mas não podemos pedir aos países mais pobres que façam esforços nestas matérias ou nos mesmos montantes ou durante o mesmo período de tempo, seria mais aconselhável que escalonassem as suas reduções durante um período de dez anos. Quanto ao sistema de preferências, não temos nenhuma objecção que os países em vias de desenvolvimento ou os mais pobres beneficiem dele, mas há alguns países muito desenvolvidos na confecção e no têxtil, como a China, a Índia ou o Paquistão, que não têm direito a beneficiar porque já são suficientemente competitivos, e já não precisam.

NT – A mudança de equipa do Grupo de Alto Nível (GAN) em Bruxelas, pode contribuir para aumentar a importância da política industrial?

WL – Não, a politica industrial não mudará muito. Existem algumas directrizes que falam de politica industrial, que para mim têm mais a ver com um mercado que decide quem faz o quê, e no interior desse mercado há algumas regras que evitam situações anormais e que, por outro lado, forma o que se chama de modelo social europeu. É verdade que o GAN que se criou para o têxtil no ano passado, e o do automóvel que se acaba de criar, podem ser considerados como um principio de politica industrial sectorial, mas de facto não é assim, trata-se apenas de algumas especificidades sectoriais, não existe uma politica industrial sectorial.

NT – Os industriais queixaram-se sempre da falta de uma verdadeira politica industrial europeia, da qual se estão a pagar as consequências.

WL – Comecei a sentir uma sensibilidade por parte das autoridades quanto ao risco de perder uma indústria, devido a salários e cargas sociais elevadas, que são coisas boas, mas fazem com que a competitividade dos países que não têm as mesmas vantagens seja mais difícil.

NT – A ampliação da UE pode reforçar as negociações do sector têxtil?

WL – É o que veremos nos próximos meses. É verdade que a ITV é muito importante em muitos dos novos países membros, como no caso da Lituânia, onde representa 27% da indústria transformadora, pelo que as autoridades a devem tentar manter. E quando se encontrarem em Bruxelas, certamente que examinarão os problemas com mais atenção que outros países do norte da Europa onde a ITV já perdeu importância.

NT – É precisamente esta confrontação de interesses que acaba por muitas vezes travar qualquer iniciativa a favor do sector em Bruxelas.

WL – Tudo depende da política de um Governo, dos países em questão e da importância que se concede a uma medida. Pode demonstrar-se que uma medida é negativa para um país em alguns sectores de exportação, comparando com outros sectores dos países com os quais se está a negociar? É a pergunta clássica: quero vender dez Airbuses ou manter o emprego na ITV? É interessante fazer um pequeno cálculo; creio que a nossa facturação anual representa a venda de 10.800 Airbuses de tipo 320.

NT – Será a deslocalização uma solução para manter a competitividade da ITV europeia?

WL – Sim, nalguns casos, já que se vêm bons exemplos na zona paneuromediterrânea , que tentamos que se consolide o mais rápido possível. Temos exemplos de fio e tecidos europeus que vão para Tunes ou Marrocos e que voltam como produtos acabados com um custo de mão-de-obra menor, o que permite que a qualidade e o design fiquem na Europa, e uma parta da produção se realize por subcontratação ou em parceria nos países limítrofes. Por conseguinte, pode não ajudar em todos os casos da ITV europeia, mas ajuda numa grande parte.

NT – Em que ponto é que está a criatividade nessa zona?

WL – Está muito avançada no plano da vontade politica. Esperamos que se possam aplicar transversalmente por todos os países sócios para que um fio possa transitar livremente para ser um tecido noutro país e ser produto acabado noutro. O único obstáculo que fica por tratar é o desmantelamento tarifário para que as nossas exportações possam chegar a este países sócios com tarifa zero.

NT – Se não se acelera este processo, podem perder-se as vantagens da criação desta zona?

WL – Para já não nos ajuda na exportação de um produto acabado, porque não pode voltar para trás, e se entra em Marrocos, por exemplo, tem um direito alfandegário de 30%, que é demasiado, por isso o desmantelamento até 2010 deveria fazer-se rapidamente.

Mas temos que admitir que os industriais de Marrocos ou de Tunes querem, por outro lado, ter acesso a tecidos procedentes de outras regiões que não são europeias, e isso é inaceitável, porque o resultado seria o desaparecimento da parte interessada, em proveito precisamente da China. É isso que estamos a tentar impedir através de algumas regras, cujo cumprimento a Comissão deve vigiar.

NT – E a qualidade será um elemento suficientemente diferenciador, tendo em conta que o consumidor quer um artigo barato?

WL – Não sei se o consumidor quer um artigo barato. A verdade é que é muito sensível ao preço, mas uma boa parte dos consumidores também é sensível à qualidade e ao design do produto, e este é que explica o êxito de empresas como a Inditex. Na maior parte dos casos, vamos caminhar mais para a ideia de desenvolver produtos em função do desejo do consumidor, de forma a que possa escolher o tecido, o corte, a cor, como se fosse um artigo feito à medida, rapidamente, e isto vai ser uma vantagem para nós.

NT – E como está a questão da famosa etiqueta europeia?

WL – A Euratex é favorável a uma etiqueta obrigatória de origem para os produtos importados, mas não para os fabricados na Europa. A Comissão fará brevemente uma proposta neste sentido, e que será submetida ao Conselho. Falta saber qual será a sua reacção. É uma questão importante pois existe um interesse real do consumidor em saber a origem do produto que compra.

NT – Há opiniões de sentido contrário.

WL – Não se pode dizer o que acontecerá numa hipótese que hoje não se concretiza, só quando os artigos trouxerem essa etiqueta é que poderemos avaliar o comportamento do consumidor.

NT – Os industriais europeus estão realmente muito preocupados com a situação actual e futura.

WL – Há um certo estancamento da procura na Europa, e temos um euro forte em relação ao dólar, o que trava as nossas exportações, ao que se acrescenta a abolição das quotas. A inquietude vem precisamente de não se saber qual será a evolução das importações e da procura, e que impacto isso terá. Este ano vai ser um ano difícil, que enfrentaremos com coragem e com a esperança de que chegaremos a uma situação um pouco mais estável, economicamente melhor, e com um euro mais baixo.