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A ITV do futuro – Parte 1

Da sustentabilidade à distribuição, passando pela fast fashion, a automatização e até a deslocalização da produção para países do Norte de África, há temas que vão tecer o futuro da indústria têxtil e vestuário portuguesa e sobre os quais os empresários nacionais têm visões nem sempre semelhantes.

César Araújo (Calvelex), Luís Guimarães (Polopiqué), José Costa (Becri), Daniela Xavier (Fermir), Mico Mineiro (Twintex) e Luís Hall Figueiredo (CENIT)

Na conferência digital “A indústria da moda em 2021/2022: o que esperar!”, o painel que juntou José Costa, administrador da Becri, César Araújo, administrador da Calvelex, Daniela Xavier, diretora-geral da Fermir, Luís Guimarães, presidente da Polopiqué, e Mico Mineiro, administrador da Twintex, debateu diferentes temas e fez a análise ao presente e a antevisão do futuro pós-Covid.

Sustentabilidade

Se há tema que recolheu opinião unânime é o da sustentabilidade e da necessidade de implementar práticas que permitam que a indústria da moda se torne mais ecológica. «A sustentabilidade é algo que veio para ficar», garantiu César Araújo, até porque, como referiram os intervenientes no painel, é uma exigência do mercado.

Daniela Xavier (Fermir)

Na Fermir, «a empresa foi investindo em investigação e desenvolvimento e em projetos de reciclagem no sentido de dar resposta à necessidade do mercado de se aproximar de produtos mais sustentáveis, mais reciclados e mais amigos do ambiente», explicou a diretora-geral da empresa. Daniela Xavier referiu, contudo, que esta evolução não está isenta de desafios. «A dificuldade de gerir os desperdícios têxteis é uma realidade com que lidamos todos os dias. Empresas como a Fermir têm uma orientação por parte dos clientes, no fundo, de qual é o caminho que devemos tomar no sentido de ter um produto mais amigo do ambiente, termos menos desperdícios, de controlarmos mais a cadeia de produção, mas a verdade é que quanto mais subcontratamos mais difícil o processo se torna», sublinhou.

Para César Araújo, «Portugal está a dar os primeiros passos e muito bem» na reciclagem e na sustentabilidade. «O nosso maior problema são os países terceiros que se relacionam com a Europa que não cumprem o Acordo de Paris», salientou o administrador da Calvelex e presidente da ANIVEC, dando conta que sem critérios iguais, «as nossas empresas vão ter concorrência desleal. Nós cumprimos com os parâmetros obrigatórios e depois não conseguimos ter preços competitivos, não por falta de eficiência, mas porque a Europa permite uma concorrência desleal desses países». Ainda assim, «para Portugal e para a nossa indústria é uma grande oportunidade», acredita.

«A sustentabilidade é feita e criada sempre a ritmos muito díspares. Porque as grandes marcas são obrigadas a fazer coisas e a arranjar soluções muito rápidas, não pensam no resto», salientou Luís Guimarães. «Fala-se agora muito na sustentabilidade porque passou a ser proibido queimar roupa. A roupa que sobra das coleções amontoa-se em armazéns. Até há bem pouco tempo queimavam, mas agora a Europa proibiu, há que reciclar», esclareceu.

E há outras questões além da reciclagem, nomeadamente ao nível das matérias-primas. «É muito bonito usar as palavras sustentabilidade e algodão assim e assado, mas são coisas que a maior parte das pessoas que estão nas compras das empresas não têm a mínima ideia do que estão a falar. E posso dizer isso porque conheço alguns casos bem prementes», contou o presidente da Polopiqué. «As pessoas dizem: “a partir do próximo inverno só quero algodão orgânico ou algodão BCI”, como se o algodão fosse plantado hoje e colhido amanhã. O abastecimento de algodão, e agora até de outras matérias-primas, é feito com muita antecedência. Temos que ter pelo menos um ano de algodão em stock como garantia – é um custo muito grande para as empresas, mas temos que ter», explicou. E nem sempre as coisas com o cultivo de algodão orgânico correm como o esperado, como sentiu na pele a Polopiqué no ano passado. «Gastava todo o algodão orgânico que era produzido no Uganda, cerca de 2.000 a 2.500 toneladas, mas é um algodão que depende das intempéries e no ano passado a nossa colheita foi 70% menos», revelou Luís Guimarães. «Portanto, hoje em dia estaria à vontade para ter matéria-prima em 2022, mas em 2021 ando aflito. Tenho ainda alguns meses, mas ando a bater a todas as campainhas para tentar arranjar algodão orgânico e não há. Saiu agora o primeiro algodão do Burkina Faso, 200 toneladas, que ainda está em fase experimental de orgânico, mas eu fico com elas, vou ver o que dá», adiantou. No entanto, realçou, «só se produz 1% de algodão orgânico no mundo inteiro, portanto, é impossível as marcas continuarem a insistir com coisas a curto prazo impossíveis de alcançar. A sustentabilidade sim, a economia circular sim, com certeza, mas são coisas que demoram o seu tempo», sustentou Luís Guimarães.

O próprio consumidor está em evolução em relação a esta matéria. «O consumidor continua a não estar devidamente informado, os jovens talvez, mas não todos», reconheceu. «Os jovens só se começarão a interessar quando começarem a surgir movimentos a sério e, de facto, concretos», admitiu.

Fast fashion

Poderá esta tendência para a sustentabilidade significar o fim da fast fashion? José Costa, administrador da Becri, acredita que pelo menos haverá uma redução. «Não vamos deixar de ter fast fashion, vai diminuir», afirmou. «Acho que vamos voltar um bocadinho ao passado, em que as peças vão ter que ser mais duradouras, vão ter que ser mais transversais no tempo. Hoje em dia, e nos últimos anos, verificou-se isso, tem sido um desperdício em termos ecológicos, a forma como a moda evoluiu e a forma como o consumidor comprava uma peça hoje e amanhã ia à loja e voltava a comprar outra peça… Acho que o paradigma vai mudar e que realmente vamos ter uma mudança de posição do consumidor. A pandemia está a criar uma nova vaga de pensamento, que se juntou à parte da sustentabilidade e que nos leva realmente a crer que o consumidor vai ficar mais focado na moda duradoura. Vamos ter menos oferta mas a oferta que vamos ter vai ser mais transversal e mais duradoura», elucidou.

José Costa (Becri)

Isso já se sente, de alguma forma, com a procura por parte dos clientes da indústria portuguesa a concentrar-se em encomendas mais pequenas e mais personalizadas. «Inicialmente vai ser um nicho de mercado, mas acredito que no futuro isso vai acontecer. Quando as pessoas tiverem a oportunidade de fazer uma peça customizada, não vão querer perder essa oportunidade», antecipou o administrador da Becri. E, embora haja lugar para tudo, «em Portugal estamos no bom caminho para chegar a essa customização. Claro que continuamos a dizer que há lugar para a fast fashion», garantiu, mas «temos que pensar na customização, não vamos estar a vender minutos. A fast fashion obriga muito a isso, a um esforço muito grande em termos de minutos. Vender minutos é quase vender suor. Acho que vamos cada vez mais passar a vender serviços, mais valor acrescentado», considera.

Para Luís Guimarães, o ciclo da fast fashion não está a chegar ao fim. «Penso precisamente o contrário», confessou ao Jornal Têxtil. «A faixa social que vai ter poder de compra para o luxo em termos europeus vai diminuir, portanto o aumento da fast fashion vai acontecer e já está a acontecer», justificou. Esta é apenas uma das razões para a vitalidade da fast fashion, com o presidente da Polopiqué a afiançar que «esta pandemia veio, e vai, modificar o pensamento das pessoas. O socializar já não será o socializar formal, será sempre muito mais informal, aproveitando muito mais o ar livre», pelo que as propostas da fast fashion se encaixarão melhor nesta nova vida.

Também César Araújo acredita que «as empresas de fast fashion vão ter sempre o seu papel e vão reagir rapidamente às necessidades do mercado porque são obrigadas a reagir». Isso não quer dizer que não haja mudanças. «Elas vão-se readaptar, talvez fazer produtos com maior durabilidade e produtos de maior qualidade», revelou ao Jornal Têxtil, acrescentando que isso «vai beneficiar também a nossa indústria».

Para já, embora haja a expectativa de um aumento no sourcing em Portugal, «a questão é a dificuldade que o mercado europeu vai ter em concorrer com os mercados asiáticos, porque, numa crise pandémica, a questão económica é premente», explicou, ao Jornal Têxtil, Daniela Xavier. «Nós já estamos a sentir na pele a questão do preço, da competitividade e, neste momento, os nossos clientes vão à Turquia e só depois é que vêm a Portugal, com quantidades cada vez mais reduzidas», avançou. Como tal, «as empresas que lidam com o mercado de luxo, que não é o nosso caso, terão mais benefícios da questão da proximidade e de sermos um mercado abastecedor do que propriamente as empresas de fast fashion, porque a economia vai vacilar», destacou a diretora-geral da Fermir.

A aposta na qualidade é, por isso, um dos caminhos apontados para que a indústria portuguesa prospere. «Vejo Portugal, sem dúvida, num segmento médio-alto ou alto, vejo Portugal no desenvolvimento de produto, isto é, tenho ótimas perspetivas para Portugal e acho que é isso que acontecer, o país vai de facto ter a capacidade de se reinventar mais uma vez», afirmou Mico Mineiro, administrador da Twintex, ao Jornal Têxtil.

Na segunda parte deste artigo conheça as opiniões sobre a deslocalização da produção, a relevância dos automatismos e suas implicações e a distribuição da moda no futuro.