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A ITV do futuro – Parte 2

A deslocalização da produção para países do Norte de África para colmatar a falta de mão de obra em Portugal, a importância da automatização e de formação dos recursos humanos e os novos caminhos da distribuição marcaram a discussão sobre o futuro da ITV no pós-Covid.

César Araújo (Calvelex), Luís Guimarães (Polopiqué), José Costa (Becri), Daniela Xavier (Fermir), Mico Mineiro (Twintex) e Luís Hall Figueiredo (CENIT)

Na conferência digital “A indústria da moda em 2021/2022: o que esperar!”, além da sustentabilidade e do debate sobre o fim, ou não, da fast fashion, José Costa, administrador da Becri, César Araújo, administrador da Calvelex, Daniela Xavier, diretora-geral da Fermir, Luís Guimarães, presidente da Polopiqué, e Mico Mineiro, administrador da Twintex, mantiveram a discussão acesa sobre temáticas como a deslocalização da produção, a automatização e a distribuição.

Deslocalização da produção

Para prosperar, é fundamental ter dimensão e um tecido empresarial capaz de responder às encomendas, uma ideia pela qual Luís Guimarães se tem batido na última década. «Já nos últimos 10 anos comecei a ver a necessidade de ter uma verticalização porque ninguém quer stocks. Portanto, temos que ser muito versáteis, muito rápidos e para isso a verticalização é realmente o caminho ideal. Se calhar há 10 anos em Portugal isso era uma coisa pouco bem vista porque recordo-me de quando comecei a montar a primeira fiação, há nove anos, estavam as outras fiações a fechar, e as pessoas diziam que era maluco. Mas, de facto, se há nove anos não tivesse feito isso, hoje estaria com problemas gravíssimos», asseverou o presidente da Polopiqué.

Mas a verticalização do grupo não é suficiente para colmatar todos os problemas. «A indústria têxtil em Portugal vive muito de pequenas e médias empresas, mas temos que fazer um pouco como já se faz noutros países: temos que nos aliar, temos que nos juntar e tornar essa realidade possível. Só assim vejo uma saída» para aproveitar as oportunidades que estão a surgir, indicou Luís Guimarães. «Com todo o know-how que Portugal tem – e esta questão do vírus trouxe a Portugal uma vantagem –, temos que saber aproveitar isso mas temos esse problema, a dimensão das empresas. Para as empresas crescerem e poderem dar uma resposta cabal a toda esta demanda que começa a aparecer têm que criar alianças e tornar-se o mais verticais possível», realçou.

Outra solução, que parece inevitável para alguns, é o recurso a mão de obra em países no Norte de África, uma solução já adotada por empresas como a Polopiqué e a Fermir.

Luís Guimarães (Polopiqué)

Depois de algumas experiências menos positivas em Marrocos e na Tunísia, a Polopiqué regressou a Marrocos em 2017. «Fomos obrigados a ir para Marrocos, não só pela falta de mão de obra em Portugal, porque eu defendo a mão de obra portuguesa e luto para que algumas das confeções sobrevivam – e nesta fase é muito difícil. Neste momento, a nossa produção é 75% em Marrocos, 25% em Portugal. Eu gostaria de ver isso ao contrário, mas temos muitos fatores que nos impedem disso e que nunca são abordados pelas instâncias que devem», considera Luís Guimarães.

Também na Fermir «não queríamos pôr Marrocos em primeiro lugar e hoje em dia a pandemia está a acelerar a subcontratação em Marrocos», assumiu Daniela Xavier. O problema é a falta de mão de obra em Portugal. «Não há costureiras, não existem confeções, não é só uma questão de competitividade, porque a escala também permite ter competitividade. Nós já não temos essa escala, portanto, as poucas confeções que existem podem dar-se ao luxo de pedir mais por minuto porque sabem que, na necessidade, vão dar essa respostas às empresas», esclareceu a diretora-geral da Fermir.

No caso da Calvelex, nenhuma parte da produção é atualmente efetuada no Norte de África, mas não é algo que esteja liminarmente posto de lado. «Nesta fase não, mas no futuro, para não perder encomendas e clientes, talvez tenha que repensar o modelo de subcontratação. Começarei sempre por Portugal. O problema é que a população está a diminuir. Se não houver uma política de natalidade e se não tivermos pessoas para integrar as nossas empresas, ou perdemos encomendas ou arranjamos alternativas. Prefiro um português a subcontratar em Marrocos ou na Tunísia do que o nosso cliente esquecer Portugal e ir a outro país pedir a essa empresa para subcontratar», explicou ao Jornal Têxtil. Por isso, «não me choca nada que as empresas portuguesas utilizem Marrocos como plataforma para criar músculo às suas empresas. Isso não vai pôr em causa as outras pequenas empresas e digo mais: nós até temos sorte de ter Marrocos e a Tunísia como vizinhos», acredita.

Ir para o Norte de África também não está nos planos da Becri. «Não faz parte da nossa estratégia, a não ser que sejamos obrigados, isto é, vamos continuar a primar pela mão de obra portuguesa e estamos a cultivar a formação de costureiras portuguesas no nosso universo», adiantou ao Jornal Têxtil. «Fui três vezes a Marrocos e duas vezes à Tunísia e, sinceramente, para o produto que fazemos, não se adapta», justificou. «Nunca digo desta água não beberei, mas só se realmente as nossas costureiras não tiverem uma formação contínua e chegarmos a um ponto de não termos costureiras para produzir as encomendas, aí sim, poderemos ser obrigados. De outra forma continuamos a privilegiar e queremos fomentar cada vez mais o trabalho da indústria têxtil em Portugal», sublinhou.

Também é essa a posição da Twintex. Mico Mineiro acredita que Portugal terá de ter «objetivos diferentes de Marrocos e da Turquia» nas oportunidades que irão surgir com a retoma pós-pandemia e, para procurar solucionar a questão da mão de obra, uma das vias passa por «seduzir as novas gerações que estão a chegar ao mercado para trabalhar connosco. Temos uma preocupação muito especial, no caso da Twintex, em vender, proporcionar, partilhar uma imagem da fábrica de modernidade, de inovação, de um sítio jovem para trabalhar e é isso que temos que fazer na nossa indústria para que as pessoas se sintam tentadas a vir».

Automatização

É aí que entra a automatização. «É óbvio que há um desafio enorme, uma dificuldade muito grande em seduzirmos pessoas para estarem numa máquina de costura hoje em dia, mas a confeção já não é só máquinas de costura. Temos um departamento de automatismos que é brilhante, em que um operador, uma pessoa mais jovem se pode sentir mais seduzida para passar oito horas de trabalho, da mesma forma que o faz na indústria automóvel. As nossas salas de corte são hoje de uma sofisticação suprema, acho que é o ponto onde a confeção mais se cruza com a indústria têxtil a nível do investimento, porque assistimos a um momento de capital intensivo da confeção e no momento de mão de obra intensiva. Tudo isso consegue cativar pessoas mais jovens», revelou Mico Mineiro.

Mico Mineiro (Twintex)

«O mundo mudou para melhor. Com o objetivo, hoje em dia, de melhorar a qualidade de vida das populações, há investimentos que vão ser feitos em inteligência artificial, energia, robótica, 3D, reindustrialização», enumerou César Araújo.

Essa é uma aposta que a Polopiqué perseguiu há cinco anos. «Quando me vi na obrigação de montar uma fábrica de camisas e comecei a ver o que existia à minha volta, disse para mim próprio: “não posso acreditar que, em pleno século XXI, a indústria esteja tão atrasada como está e com tão poucos automatismos”. A solução foi pagar portagens, ir para o aeroporto e começar a visitar países industriais e onde as máquinas são feitas, que foi outra coisa que infelizmente desapareceu de Portugal. E encontrei um sem número de automatismos. Hoje em dia, 40% de uma camisa é feita com automatismos na nossa empresa. Os 60% que faltam, eu diria até que já é muito menos do que isso, brevemente será atingível e isso também é uma maneira de aliciarmos os jovens a virem trabalhar, precisamente porque já não estão com aquela ideia que vêm trabalhar para uma máquina de costura, mas que vêm trabalhar para uma máquina que até tem computador», contou Luís Guimarães.

No entanto, os automatismos não são a solução para tudo. «Há uma coisa que não temos no nosso país, e não temos porque os políticos não querem, que é uma boa educação. E sem uma boa educação não há milagres. Podemos ter as melhores máquinas do mundo, os melhores automatismos, mas se não tivermos uma boa educação e uma boa formação, não há nada que consiga colmatar esses problemas. Portanto, a automatização é um caminho, sem dúvida, que está à nossa frente e não a médio e longo prazo, mas a curto prazo, mas é importante que seja acompanhado por uma boa educação e formação. Se não tivermos isso, não interessa termos as melhores máquinas do mundo», garantiu o presidente da Polopiqué.

E há ainda outros desafios para tornar viável o investimento em automatismos, nomeadamente ao nível da concorrência com mercados onde o preço do trabalho é muito baixo. «Quando se fala na reindustrialização da Europa, é só atirar areia para os olhos, não existe nenhuma reindustrialização da Europa se a Europa não tiver uma política comercial», assegurou o administrador da Calvelex. A automatização não é um investimento competitivo face a mão de obra muito barata na Ásia, sobretudo por parte dos países que estão incluídos no chamado SPG, os regimes preferenciais através dos quais podem exportar para a Europa sem taxas aduaneiras. «O princípio do SPG era ajudar as economias a desenvolverem-se, mas passou a ter economias só focadas na têxtil e no vestuário, por isso, 85% dos produtos consumidos na Europa têm proveniência asiática», explicou César Araújo, que considera que está na altura da União Europeia rever este programa. «Daqui a pouco temos fábricas, temos pessoas, temos robotização, temos 3D, temos inteligência artificial, mas não temos encomendas», advertiu o também presidente da ANIVEC.

Distribuição

O painel dedicou-se também a debater as tendências da distribuição de moda, uma área onde Portugal tem pouca experiência, devido à falta de marcas próprias, mas que é fundamental para a indústria.

O canal online cresceu e isso foi sentido pelas empresas representadas. «Não temos marca própria, portanto não temos o acesso à venda online, mas posso dizer que as encomendas que temos atualmente vêm do online e que, de facto, o online teve um crescimento», confirmou a diretora-geral da Fermir.

César Araújo (Calvelex)

A tendência não é de agora, reconheceu César Araújo. «O online é um processo que já estava a decorrer há muitos anos e a pandemia veio acelerar esse processo», admitiu, mas não vai substituir as lojas físicas.

«O nosso produto é um produto de emoções, não é um só um produto de necessidade. As pessoas vão à loja, sentem, pegam, vão a passar na rua, olham para uma montra, acabam por voltar atrás e comprar a peça. Toda essa ferramenta de venda está posta de parte durante este período e isso apresenta um desafio enorme para a nossa indústria», considera Mico Mineiro.

Com a esperada restituição da confiança do consumidor e o fim dos confinamentos, o negócio vai voltar à rua, acredita o administrador da Twintex, até porque «o online, para as marcas, não é o negócio que julgamos que é, isto é, não se paga a renda da loja, é verdade, mas também não há a emoção do comprar. E há a devolução – estamos a debatermo-nos com problemas enormes de “reverse logistics”, que é uma coisa que até há dois ou três anos atrás não acontecia», realçou.

Embora não tenha dúvidas que «o online vai sair fortalecido desta situação», Mico Mineiro também não tem dúvidas «que vamos assistir a uma desaceleração do online no próximo ano e meio, porque assim que as pessoas forem para a rua sentir as emoções, os cheiros, as cores, a vivência que todos procuramos e necessitamos e já tivemos e, por isso, sabemos que é melhor, o online vai desacelerar, mantendo sempre uma velocidade cruzeiro constante».

As lojas físicas têm, consequentemente, um papel importante nas vendas, embora haja algumas mudanças previsíveis no seu formato, que não é unânime entre os empresários portugueses. Mico Mineiro acredita que, com os preços «completamente proibitivos» dos espaços nas principais artérias comerciais, como a 5.ª Avenida em Nova Iorque, haverá uma «redução das lojas», com espaços mais pequenos. «O número de metros quadrados por loja tem que ser ajustado à necessidade e à realidade, aquelas flagship shops que havia, se calhar em vez de terem três andares vão ter um e metade dos metros quadrados, metade dos funcionários para que o negócio seja rentável e seja bom para todos», indicou.

Já Luís Guimarães apontou em sentido contrário. «Acredito que vai haver lojas maiores e mais centrais. Tal como aconteceu com os bancos há uns anos atrás, abriam lojas como cogumelos, dobrava-se uma esquina e tinha a mesma marca, tinham medo que as pessoas fugissem. Agora estão a perceber que isso tem custos enormíssimos. Em qualquer marca, o peso das lojas representa 50% dos custos, portanto é, de facto, muito grande», destacou.

No final do debate, e em declarações ao Jornal Têxtil, Mico Mineiro sublinhou que, provavelmente, ambas as perspetivas se irão confirmar. «Devemos assistir a um mix das duas soluções, uma vez que elas estão interligadas. Se calhar, o que poderá acontecer é que as marcas com mais capacidades financeiras terão menos lojas, mas grandes, e as outras terão menos lojas, que serão pequenas», resumiu.

Quanto às vendas físicas e online, deverão manter-se lado a lado. Como contou Luís Hall Figueiredo, que moderou o painel, a sua experiência com a Laranjinha – a marca que detém – mostra que «para já vai haver um mix entre a loja física e o online. O conceito omnicanal vai ser cada vez mais importante, as próprias lojas vão ser um ponto de venda online para a centralização de stocks, de maneira a que não estejam dispersos por cada loja». Prova disso é que, «quando as lojas estiveram fechadas, houve um boom no online, quando se abriram as lojas de rua agora em Portugal, e estou a falar só em Portugal, notou-se um abrandamento logo no online, portanto, estão completamente interligados, não penso que um vá substituir o outro», concluiu.