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«A Lenzing pensa muito à frente»

Pedro Gonçalves, diretor da Lenzing para os mercados ibérico e sul-americano e único português entre os 7.000 trabalhadores da maior produtora mundial de fibras celulósicas artificiais, revela a sua estratégia para o mercado nacional.

Como chega um português à Áustria?

Queria fazer Erasmus durante o curso [Engenharia Têxtil na Universidade do Minho], mas não foi possível. Sempre tive o sonho de trabalhar fora de Portugal por uns tempos. Entretanto, surgiu uma oportunidade na Lenzing e parti à aventura. Uma aventura que dura há nove anos, com múltiplos episódios e, digo eu, uma taxa de desenvolvimento muito interessante.

O plano inicial era fazer um doutoramento, mas praticamente sabendo que não ia ser escolhido porque queriam um engenheiro químico. Eles acabaram por me selecionar e, ao mesmo tempo, propuseram-se fazer um curso interessante – queriam começar a formar jovens acabados de sair da universidade para substituir as pessoas mais pessoas. Na semana antes de começar a trabalhar na Lenzing, cancelam esse programa, mas não me cancelam a mim. De repente, sou colocado na área business development apparel, onde encaixei como uma luva.

A língua foi um fator diferenciador – ninguém pensa que o português pode ser tão importante e para mim foi. E tenho sempre desenvolvido a minha carreira dentro da Lenzing, primeiro em desenvolvimento de mercado, depois em desenvolvimento de produto e. desde há três anos, estou também na equipa das vendas.

Que mercados estão sob a sua alçada?

Inicialmente era a América do Sul e agora também Portugal e Espanha.

A Lenzing vende fibras, mas acaba a trabalhar com fios, malhas, tecidos, vestuário e… fibras, nada?

A Lenzing pensa muito à frente, ajudando os clientes a assegurar os programas para que a nossa produção seja continua, para estarmos cada vez mais presentes e garantirmos as encomendas dos clientes.

O que mudou desde que assumiu a dupla função de desenvolvimento de produto e de vendas?

No fundo, acaba por ser uma continuação do trabalho que vinha a ser feito porque, no passado, fazia o trabalho todo e passava a parte boa para alguém concretizar o negócio e agora consigo fechar tudo. Por exemplo estamos atualmente a trabalhar com alguns projetos interessantes, tanto em Portugal como no Brasil, nos quais consigo pegar desde a fibra até ao retalho. Portanto, consigo dizer que, para aquela t-shirt, toda a cadeia têxtil foi esta e foi montada pela Lenzing, com o apoio obviamente dos parceiros locais, todos em cooperação. Em conclusão, acaba por ser um trabalho que dá mais rendimento porque tenho a supervisão de tudo, há uma envolvência muito maior.

É difícil explicar o que é trabalhar para os clientes dos meus clientes, pouca gente compreende. Qual é a diferença? Quando conseguimos implementar um programa nosso, seja na Inditex ou em qualquer grande marca, asseguramos automaticamente a nossa venda. Não sei se a fibra vai ser vendida em Portugal, na Turquia ou na China, mas sei que vou vender a fibra. Onde vai ser depois é outra situação, mas pelo menos consigo assegurar a manutenção da produção e isso é um aspeto que, inicialmente, é muito difícil de compreender pela cadeia, mas quando entendem o que estamos a fazer é muito fácil trabalhar.

É isso que retira do ADN da Lenzing, sempre à frente do seu tempo?

Completamente. Isso começa na própria produção, e eu gosto sempre de começar por esta parte. Apesar de hoje a sustentabilidade ser a palavra do dia, a Lenzing já começou com todas essas estratégias no final dos anos 70 e isto deve-se a um fator muito simples: a nossa fábrica-mãe, onde nascemos, está no meio de uma zona muito turística da Áustria, com o maior lago natural da Aústria. Deste modo, não podíamos ter nenhum impacto ambiental porque as pessoas locais e os próprios austríacos não nos iriam perdoar por essas ações. Já no final dos anos 70 começamos com preocupações com os cheiros da polpa – nós entramos e saímos da Lenzing e não cheira a nada, cheira a natureza –, com a água – passa um rio na nossa fábrica e não há qualquer contaminação.

No último verão, devido às anormais temperaturas altas na Áustria, tivemos que reduzir a produção porque, legalmente, só podemos devolver água ao rio, devidamente tratada, dois graus acima ou abaixo da que retiramos. Muitas vezes, para arrefecer esta água, temos que fazer um ciclo de arrefecimento maior e, por consequência, baixar a produção, senão estamos a perturbar o ecossistema de rio, e isto é algo que ninguém pensa numa fábrica e a Lenzing tem esse cuidado. Antes de todos, a Lenzing preocupou-se com o meio ambiente, mas também com as pessoas que ali viviam, com os seus funcionários, com os seus colaboradores diretos ou indiretos, porque grande parte da população da região está dependente da fábrica, de ter também uma boa qualidade de vida.

Quais são hoje as áreas de negócio do grupo?

A Lenzing tem três grandes áreas de negócio: fibras têxteis, fibras para não-tecidos e, desde outubro, filamentos de Tencel liocel].

Como está a evoluir a Tencel?

Está a crescer muito. Obviamente também a par do aumento de produção porque mesmo quando olhamos para o nosso portefólio de produção de fibras, está mais ou menos num milhão de toneladas em fibras por ano. Isto representa cerca de 700 toneladas de Viscose, 200 e qualquer coisa de Tencel e cento e poucas de Modal. Portanto, a Tencel, inclusive sendo uma fibra muito mais recente que a Modal, já duplicou a produção de Modal.

A Viscose surge em 1938, aquando da fundação da empresa, a Modal é lançada 27 anos depois e a Tencel aparece mais recentemente, nos anos 90. Que mudanças trouxe esta nova fibra?

O processo de produção é radicalmente diferente da Viscose, acaba por ser um ciclo muito mais fechado, um processo muito mais limpo, o que traz grandes benefícios. A grande diferença entre a Tencel e a Viscose reside, essencialmente, no processo de produção e isso traduz todas as vantagens que a fibra aporta para o uso final, para o consumidor.

Qual é o principal mercado da Tencel, em termos de geografia e de produto?

Eu diria que a Tencel está, neste momento, democratizada, está por todo o mundo, tanto a nível de vendas como a nível de uso, apesar de grande parte das nossas vendas serem feitas na Asia.

Nos meus mercados, o principal é Portugal. Portugal tem um produto único a nível mundial de uso de Tencel em malhas, é o único país que o faz em termos de acabamento. Deste modo, Portugal tornou-se no melhor fornecedor do mundo em malha com Tencel acabada.

Como se chegou em Portugal a algo que é único no mundo?

Tem a ver com a história da própria fibra a nível mundial. A Tencel, naturalmente, tem tendência a fibrilar, uma característica que tanto pode ser boa, como má quando não pretendida e isto traduz-se, muitas vezes, num envelhecimento indesejável da peça. Portugal foi o único país em malhas, porque em tecido é relativamente fácil de controlar, daí o principal uso da fibra ser o denim, em primeiro lugar, em segundo a roupa de cama e o terceiro é malhas.

A família de marcas da Lenzing acolheu este ano três novos membros: Refibra, EcoVero e Tencel Luxe. Quais são as mais-valias de cada uma?

A Ecovero é uma fibra de viscose com todos os selos ecológicos que podem ser alcançados numa fibra de viscose e é passível de ser rastreada em qualquer ponto da cadeia, seja em fibra, fio, malha, tecido ou peça final, porque a própria fibra tem um marcador.

A Refibra representa uma rutura com o que existe em fibra celulósica, porque no mundo das fibras sintéticas já existia, que é o reciclar. Trata-se de uma fibra com o processo de produção da liocel em que incorporámos polpa não virgem, com origem em desperdícios pós-industriais, em mistura com polpa virgem num rácio de 80/20.

A mais recente marca é a Tencel Luxe, um filamento de liocel, que até agora não existia, e foi lançada no passado mês de outubro.

Os nossos clientes de referência estão já a fazer grandes desenvolvimentos, incluindo em Portugal.

Como avalia o mercado português na atualidade?

Apesar de, enquanto mercado direto, Portugal não ser um mercado tão significativo como outrora foi para a Lenzing, a nível indireto de processamento na cadeia têxtil de fibras da Lenzing, cota-se de uma forma completamente diferente. A nível europeu, eu diria que é um dos principais mercados a nível de malhas e de tecidos, senão o principal mercado, e mesmo à escala mundial, a nível de volumes não combatemos diretamente com a China ou com uma Ásia, mas a nível de valor estaremos muito próximos porque trabalhamos cada vez mais produtos de valor agregado completamente diferente e estamos presentes em produtos que no passado não estávamos, mais técnicos, mais moda. Muitas vezes digo que, em Portugal, as nossas fibras tanto são usadas em produtos relativamente básicos como em produtos de alta costura. Portanto, é esta a diversidade de Portugal com as fibras da Lenzing.

Que tipo de aplicações têm privilegiado os produtores têxteis nacionais?

Ultimamente, Portugal tem diversificado bastante a aplicação das fibras da Lenzing. Hoje em dia, para além da moda, estamos em roupa de trabalho, em têxtil-lar –  bastante fortes em toalhas, roupa de cama, decoração e também a nível de tecidos para sofás, tapetes,…

Em particular para o caso da Tencel, quais são as grandes áreas de aplicação desta fibra?

Tudo o que privilegia o contacto direto com a pele é uma aplicação quase natural da Tencel, em que temos alguns desenvolvimentos interessantes como no seamless, cada vez mais com o aparecimento de novos projetos e programas para mercados que nós, às vezes, até nem consideraríamos tão diretos como, o mercado dos Estados Unidos. Portugal está a exportar para os Estados Unidos seamless com fibras da Lenzing.

Na área de desporto, toda a gente tem ideia quando vamos comprar uma peça de desporto, seja para ir para o ginásio ou para fazer uma caminhada, que tradicionalmente, até por uma razão de custo, temos sempre tendência a comprar poliéster ou poliamida, mas estes produtos têm, muitas vezes, um conforto que não é o mais agradável.

Hoje já não queremos que seja somente prático, tem que ser confortável e é aqui que a Lenzing tem ganho muitos pontos em mercados em que simplesmente não existíamos, como na roupa de trabalho e no vestuário de desporto.

Que metas tem fixadas para o mercado nacional no curto/médio prazo?

Acima de tudo, desenvolver a introdução das fibras EcoVero e Refibra. Este é um dos nossos grandes objetivos enquanto Lenzing, fazê-las crescer em importância no programa mundial e em Portugal, como um player fundamental nesse panorama a nível têxtil.