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A Lokura de Katty Xiomara

A mais recente coleção da designer pretende dar corpo a um conceito de cura, depois de um período difícil provocado pela pandemia que trouxe consigo desafios ao nível da saúde mental. Propostas que vão ao encontro da filosofia de Katty Xiomara, onde pontuam a sustentabilidade, mas também uma possível incursão nos NFTs.

Katty Xiomara

Sem estação, peças com pequenas produções e desperdício reduzido ou nulo são alguns dos pressupostos que Katty Xiomara tem vindo a adotar na conceção das suas coleções e a mais recente, batizada Lokura, não é exceção. «Cada vez mais temos vindo a não definir as estações, não faz muito sentido, acabamos sempre por ter peças mais pesadas e peças mais leves e, nesta coleção, ainda faz mais sentido», explica ao Portugal Têxtil.

Lokura é uma reflexão sobre a saúde mental, que durante a pandemia foi fortemente afetada. «Em espanhol, as palavras “lo cura”, além do que significam quando juntamos, acabam por significar algo que restaura e cura. Portanto, foi um trocadilho por aí, tendo como base, de facto, as doenças mentais e o estigma colocado perante as mesmas, que muitas vezes, mesmo nos dias de hoje, são difíceis de perceber pela sociedade. E obviamente tem tudo a ver também com este período intenso pelo qual todos passámos, o facto de o rácio de doenças mentais ter ficado mais elevado. No fundo, a coleção toca este aspeto de percebermos realmente qual é o estado da loucura, um bocadinho baseado no livro O Alienista, de Machado de Assis», explica a designer.

Os têxteis usados dão forma a este conceito, incluindo rendas transparentes, padrões com palavras que evocam a loucura e a substituição dos botões por atilhos, que remetem «não tanto para as camisas de força, mas mais pela força que tem em si, o abraçar e aconchegar», aponta Katty Xiomara.

Na apresentação da coleção em passerelle, no Portugal Fashion, o próprio jogo de luzes foi construído na mesma direção, «no sentido de que o que vemos nem sempre é aquilo que parece», acrescenta.

Parte da coleção – algumas peças foram apenas idealizadas para desfile – será mostrada aos compradores, embora a nova filosofia da marca permita um período mais alargado para as encomendas. «Como estamos sem estação, tentamos que os períodos de venda se prolonguem mais. Não temos esta semestralidade, um período mais curto e imediato. Produzimos por pré-encomenda, as entregas são feitas em 22 dias», revela Katty Xiomara.

A designer vai ainda acrescentando peças novas. «Não acrescentamos muitas, mas tentamos acrescentar pelo menos dois intervalos a meio da própria estação. Normalmente são peças mais únicas, baseadas em matérias-primas que temos em menos quantidade e que podem ser feitas em tiragens mais pequenas», indica.

 

A caminho do metaverso

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
A marca, de resto, tem vindo a evoluir no sentido da sustentabilidade. «A Katty Xiomara tem vindo a mudar há algum tempo, não foi apenas por causa da pandemia», sublinha a designer. «Começámos a sentir que precisávamos de fazer algo diferente daquilo que fazíamos numa vertente mais sustentável, evitando ter tantas amostras. Quando fazíamos uma coleção, tínhamos que triplicar para distribuir por três agentes diferentes. Na verdade, eram quatro, porque uma tinha de ficar connosco. Na prática, acaba por gerar imenso desperdício», aponta. «Por isso temos tentado, cada vez mais, fazer este tipo de coleções muito pequenas, que têm menos peças, menos desperdício, mas com um impacto similar relativamente a contar a história e à passagem estética da coleção e da própria marca ao público», acrescenta Katty Xiomara.

Lokura tem apenas 16 coordenados, em comparação com coleções passadas, que tinham 50 coordenados, como a do outono-inverno de 2019, e está disponível para pré-encomenda.

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Além desta aposta na sustentabilidade e na introdução de novidades no meio das estações, a designer quer ainda enveredar mais profundamente pelo universo digital. No futuro está a possibilidade de criar NFTs e peças para o metaverso. «Acho interessante, não para uma coleção inteira, porque também gera alguma pegada, mas dois ou três NFTs de forma a poder dinamizar essa vertente não física. O metaverso poderá funcionar para nós nesse sentido, porque muitas vezes não precisamos propriamente da peça, queremos apenas uma fotografia com a peça», conclui Katty Xiomara.