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A luta continua no Bangladesh

Quatro anos após o colapso de Rana Plaza, que ceifou a vida a 1.100 pessoas, as condições de trabalho melhoraram mas os salários dignos ainda são uma realidade distante para os trabalhadores do Bangladesh.

O casal Ashik e Rahinur, acompanhado por uma equipa de reportagem do Deutsche Welle, trabalhava em fábricas em Ashulia, subúrbios de Daca, no Bangladesh. Ashik dobrava as blusas e as calças que a mulher Rahinur costurava. Roupas que mais tarde seriam vendidas para cadeias europeias de vestuário, como a H&M e a Zara. Se o casal trabalhasse horas extraordinárias, estando cerca de 14 horas diárias na fábrica, ganhava cerca de 180 euros entre os dois. O salário mínimo nacional no Bangladesh rondava então os 35 euros por mês. «Era um trabalho muito difícil», recorda Ashik. «Quando chegávamos a casa, estávamos muito, muito cansados». O dinheiro era apenas o suficiente para cobrir despesas da alimentação e da renda.

Em dezembro de 2016, Ashik e Rahinur saíram às ruas para protestar por melhores salários. A greve fechou 55 fábricas durante uma semana. Pouco tempo depois, bateram à porta de Ashik e Rahinur. Ashik, membro do sindicato, esteve preso dois meses. Outros 1.500 trabalhadores perderam os seus empregos como resultado da greve e mais 35 sindicalistas foram presos. Agora, os seus nomes estão numa espécie de lista negra e não conseguem encontrar trabalho.

Estima-se que mais de 3,5 milhões de pessoas trabalhem na indústria têxtil do Bangladesh. Menos de 5% estão em sindicatos organizados e foram incapazes de conseguir aumentos salariais com o protesto em dezembro passado. Os proprietários das fábricas argumentam que se os trabalhadores receberem mais dinheiro, os clientes estrangeiros simplesmente transferem a produção para países onde a mão de obra é mais barata, como a Etiópia.

Depois da greve, o presidente da Associação de Exportadores e Fabricantes de Vestuário do Bangladesh (BGMEA), Siddiqur Rahman, afirmou que o governo já havia aumentado os salários em 2013, rondando atualmente nos cerca de 61 euros mensais. Outro aumento não será possível pelo menos nos próximos cinco anos, assegurou Rahman.

O boom da indústria têxtil

O governo de Daca apoia a regulação do salário mínimo. A sua prioridade número um é o desenvolvimento económico do país e a indústria têxtil é o sector empresarial mais importante. O boom que o sector tem vindo a experimentar ajudou o Bangladesh, que ainda é um dos países mais pobres do mundo, a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU. O Bangladesh é, de resto, uma história de sucesso entre os países menos desenvolvidos do mundo e pretende continuar essa trajetória cumprindo os objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030.

Franziska Korn, da Friedrich Ebert Foundation (FES), no Bangladesh, defende que as marcas de moda internacionais devem usar o seu poder para evitar que o país alcance o sucesso à custa dos trabalhadores. «Devem fazer lobby para um salário digno e para a liberdade associativa», defende Korn.

Condições de trabalho

As condições de trabalho para trabalhadores têxteis no Bangladesh melhoraram muito desde o colapso de Rana Plaza – um complexo de oito andares que fornecia vestuário para grandes retalhistas e marcas – em 2013, até porque os sindicatos internacionais e produtores uniram-se para assinar um acordo sobre a segurança das fábricas e dos seus trabalhadores. Desde a assinatura do acordo, foram identificadas e corrigidas cerca de 1.600 deficiências de segurança e controlo de incêndios. Segundo os envolvidos, 77% de todas as deficiências de segurança foram resolvidas e 400 fábricas foram certificadas como locais de trabalho seguros. As restantes fábricas do país deverão ser certificadas até 2018. «O acordo foi um marco importante para o Bangladesh», acredita Franziska Korn. «Criou um nível até agora desconhecido de transparência considerando as condições em fábricas do Bangladesh», conclui.