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A metamorfose segundo Costa

O percurso de Hugo Costa dentro do calendário do Portugal Fashion já conheceu vários estádios. Começou no espaço Bloom dedicado ao talento emergente, transitou para a passerelle principal em desfiles coletivos e, na última edição, a atuação aconteceu a solo. “Metamorphosis”, o nome dado à mais recente coleção, simultaneamente revê o caminho trilhado e deixa perceber que as mudanças não se ficam por aqui.

A referência literária poderia ter sido Franz Kafka, mas a citação que marcou a página de apresentação de “Metamorphosis” pertencia a Friedrich Nietzsche. Não obstante, a história que se leu em passerelle foi aquela escrita por Hugo Costa.

Num alinhamento de coordenados dedicados à mutação e à maturidade, o designer voltou a mostrar-se distante de qualquer conotação de género, em peças que podiam perfeitamente transitar entre manequins femininos e masculinos. Há mulheres com vestidos, «mas também há homens com vestidos. Continuamos completamente sem um género definido. Não eram vestidos, eram sweaters longas», advoga o designer ao Portugal Têxtil.

A estética minimalista continua a ser o ponto de partida e o ambiente urbano a estação de chegada de looks que, para o outono-inverno 2016/2017, trouxeram sobreposições em tons neutros e verde-escuro, visitados por padrões e encabeçados por golas altas. «Esta coleção caiu muito mais nos tecidos clássicos, apesar de termos pensado ainda muito na customização de matéria-prima, e tentamos trazer também alguns apontamentos tecnológicos, com casacos muito estruturados com materiais completamente tecnológicos. A ideia foi questionar alguns elementos que habitualmente usamos», sublinha Hugo Costa, destacando que, em “Metamorphosis”, cada peça foi pensada na sua individualidade.

«É essa a ideia, pensamos muito mais na peça individualmente, muito menos no todo, e pensamos que a coleção foi combinada e tratada desta maneira, mas íamos ter um resultado diferente se fossemos tratá-la de forma diferente e funcionaria na mesma, se calhar, os elementos evidenciados seriam outros», analisa o designer. «Portanto, o pensamento foi mais na peça, no pormenor, no detalhe e muito menos na silhueta, na construção geral», resume sobre a coleção conduzida para a passerelle do CEIIA – Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel.

Sobre a experiência de atuar a solo na 38ª edição do Portugal Fashion, Hugo Costa mostra um sentimento de dever cumprido: «acho que correu bem, que atingimos os resultados a que nos propusemos, agora é continuar a trabalhar. Isto é quase como um jogador de futebol “amanhã há treino”», rematou o designer cuja marca, esta temporada, acumulou mais milhas do que o habitual, entre showrooms em Paris, Milão e Londres (ver Homens aqueceram em Londres). «Correu bem, foi a primeira experiência de fazer estes três pontos, houve bastantes contactos, agora é continuar. Temos de ser persistentes, voltar a estar», considera.

O designer, que canaliza também para o calçado o seu rasgo criativo, tem jogado para ganhar com a qualidade dos materiais nacionais, destacando, neste desfile, o apoio da Riopele e sublinhando ao Portugal Têxtil a importância da ligação do design de moda com a indústria. «Cada vez é mais necessário, quer para a indústria, quer para nós. Trabalhamos melhor e temos produtos mais diferenciados a nível de design», enfatiza.