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A moda nacional quer-se lenta e ecológica

Seja através do aproveitamento do chamado “dead stock” ou da aposta em peças intemporais, designers como Ricardo Andrez, Carla Pontes e Maria Gambina querem colocar um travão no ritmo acelerado da indústria da moda e no peso da mesma no ambiente.

Carla Pontes

Além das tendências já desvendadas para o outono-inverno 2019/2020, é inequívoco que a sustentabilidade constitui, cada vez mais, uma aposta e um desígnio dos criadores de moda portugueses. Questionar, reutilizar e abrandar são algumas das palavras de ordem para alguns dos designers que desfilam pelas passerelles nacionais.

O desperdício de uns é a moda de outros

Tanto Ricardo Andrez como Inês de Oliveira, da marca Imauve, realizaram um périplo pelas empresas têxteis nacionais, entre a Riopele e a Sanmartin, para aproveitar desperdícios e criar as coleções que apresentaram na mais recente edição da ModaLisboa.

Inês de Oliveira
Ricardo Andrez

«Fomos a fábricas que têm grandes quantidades de stock, que estava parado e que poderia, mais tarde, vir a ser destruído. Conseguimos manter a nossa qualidade e todos os nossos materiais continuam a ser de fontes sustentáveis», revela Inês de Oliveira.

A designer recorda que «a moda é uma das indústrias que mais polui e que mais consome. Muitas vezes, no final, os bens são destruídos ou os tecidos são incinerados. Isso assusta-me muito e é algo que quero combater», afirma ao Portugal Têxtil.

Valentim Quaresma

A luta é comum à de Ricardo Andrez, que fala num problema «gritante» na sociedade. «Na indústria da moda temos um desperdício enorme. Uma das formas que podemos ajudar é pegar no stock desperdiçado, reinterpretá-lo e transformá-lo», explica. O designer garante que, na sua coleção para o outono-inverno 2019/2020, 90% dos materiais eram de excedentes de produção de fábricas. «Passámos meses a vasculhar fábricas. Foi um novo processo para mim», acrescenta.

O processo de reaproveitamento não foi novo para o veterano Valentim Quaresma, cuja coleção contava, como é habitual, com peças de joalharia criadas a partir de materiais já existentes. «Nas joias usei muito upcycling. É uma coisa que trabalho há muito tempo, desde o início da minha carreira. Gosto de olhar para as coisas de maneira diferente, aproveitá-las, dar-lhes uma nova alma. Espero que a sustentabilidade seja uma tendência que fique», confessa.

Sem estações e sem desperdícios

Além de aproveitar os desperdícios das fábricas, Inês de Oliveira pretende ir mais longe e «romper com a ideia» das coleções sazonais. «Quero criar coleções que transpirem intemporalidade. O ritmo da moda está muito acelerado e faz com que, às vezes, as coleções não sejam tão conscientes. Vamos apostar em coleções baseadas num tema e não necessariamente agregadas a uma estação», esclarece a fundadora da marca Imauve.

Carla Pontes

A ideia de intemporalidade também está presente nos coordenados assinados por Carla Pontes, que tem vindo a questionar a pertinência das criações massificadas. Prova disso é a coleção “Remember Where You Come From”, que acaba de apresentar na última edição do Portugal Fashion.

Sem estações e sem pressões de tempo,  designer quer chamar a atenção para o ritmo do universo da moda e também do mundo atual, «no qual há sempre uma constante exigência de rapidez e velocidade, e é tudo para o dia de ontem, em vez de ser com o devido tempo. Essa velocidade cria um desgaste enorme e faz-nos esquecer as reais motivações para fazermos qualquer coisa», admite.

A marca Carla Pontes aposta na intemporalidade e na «descoberta de novas formas, que não têm que estar tão presas a uma estação ou a um momento. É necessário abrandar e procurar o slow fashion e a pertinência da criação», assegura ao Portugal Têxtil.

Também na última edição do Portugal Fashion, o veterano Júlio Torcato iniciou um novo ciclo, apostando na apresentação de apenas 10 coordenados, simultaneamente chamando à atenção para a problemática dos animais em risco de extinção por ação humana.

Júlio Torcato

O designer defende «uma rotura com a ideia de que a moda é uma coisa efémera e fútil. O caminho que vou seguir vai ser sempre com uma mensagem, com uma intervenção. Vou desenvolver coleções cápsula, temáticas e, provavelmente, fazer mais do que duas por ano e não ligar tanto aos ciclos das estações», adianta ao Portugal Têxtil.

Maria Gambina

De igual modo, Maria Gambina está a dar mais um passo rumo à sustentabilidade.

Além da aposta em materiais reciclados, a designer mostra-se determinada a pôr fim aos stocks. «Vamos apostar nas vendas online apenas mediante encomendas, para não estarmos a criar stocks», garante. «As peças têm delicadeza na construção e na forma como são terminadas. Não podem ser massificadas. O próprio consumidor tem que valorizar esse produto e querer muito esse artigo, para não ser mais uma peça no armário. Não queremos competir com a fast fashion. Queremos ser algo diferente», sublinha.

Para onde vai a roupa que já não usámos?

A plataforma de cocriação Awaytomars, que se apresentou na ModaLisboa, alterou, esta estação, o seu processo criativo. Em vez da abertura da habitual chamada para o envio de propostas de design, desta vez, o apelo foi para o envio de roupas que já não fossem utilizadas.

«Foi uma provocação. Desde o início do ano que se fala nesse movimento Marie Kondo, de arrumar o armário e deitar fora as coisas que não queres e não te fazem bem. Contudo, ninguém dá uma solução para o problema», constata Alfredo Orobio, cofundador da marca.

À Awaytomars chegou roupa de países como EUA, Brasil, Londres ou Japão. «Recebemos roupas que estavam impecáveis do ponto de vista de qualidade. Revimos e reavaliamos as peças. Recebemos de pessoas com as quais nunca tínhamos tido contacto e queriam participar do processo de criação e dar uma solução também», conclui.

Alfredo Orobio e Marília Biaz