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A moda não é sustentável

Um novo relatório analisou 47 grandes empresas de moda no que diz respeito às emissões de carbono e chegou à conclusão de que «não existe moda sustentável», uma vez que elas não vão conseguir reduzir para metade as respetivas emissões até 2030.

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Prada, Everlane, Uniqlo, American Eagle Outfitters são algumas das marcas de moda que vestem grande parte do mundo, mas parecem estar a fazer pouco para combater as mudanças climáticas, segundo um novo relatório. O estudo realizado sob a chancela da organização de defesa do meio ambiente Stand.earth revela que 47 das principais empresas de moda não vão conseguir cumprir a meta de reduzir para metade as emissões de gases com efeito de estufa nas cadeias de aprovisionamento até 2030, o objetivo necessário para combater o aquecimento global e evitar os efeitos devastadores que podem ocorrer num planeta mais quente. Até mesmo marcas que se apresenta como amigas do ambiente, nomeadamente Patagonia, Allbirds e Eileen Fisher, não cumprirão a meta, o que leva o estudo a concluir que não existe moda sustentável.

«Ao longo dos últimos anos, temos ouvido muitos anúncios de relações públicas sobre empresas de moda a tomarem medidas para melhorar a sustentabilidade. Mas, na verdade, estamos a ouvir muito pouco sobre o que o sector da moda está a fazer para eliminar os combustíveis fósseis da cadeia de aprovisionamento. Os combustíveis fósseis são o principal contribuinte para as emissões ambientais, e este sector é um dos maiores tributários para as emissões ambientais em todo o mundo», afirma Muhannad Malas, ativista sénior do clima da Stand.earth e autor do relatório, citado pela Fast Company.

Em agosto, as Nações Unidas divulgaram uma análise que sintetiza 14 mil pesquisas e demonstra que os seres humanos causaram tantos danos ao planeta que as temperaturas deverão aumentar 1,5 ºC nas próximas duas décadas, a não ser que seja possível reduzir drasticamente as emissões de gases com efeito de estufa. Se isto não se verificar, o planeta vai ficar mais quente e ameaçar várias espécies animais e vegetais.

É aqui que entra a indústria da moda, uma vez que os especialistas acreditam que o sector é responsável por entre 5% e 8% de todas emissões de gases com efeito de estufa a nível global, resultante de instalações produtivas movidas a carvão e da dependência de fibras derivadas de combustíveis fósseis, como o poliéster e a poliamida.

Perante o cenário devastador, Muhannad Malas destaca que algumas marcas, como a Allbirds e a Lululemon, prometeram neutralizar a pegada de carbono nas lojas e nos escritórios e recorrer a fibras de base vegetal em vez de sintéticas. No entanto, o problema persiste porque o grande obstáculo é que 80% das emissões de uma empresa de moda são provenientes das fábricas e 10% da expedição. «O que realmente queríamos chamar a atenção é que as empresas se concentraram na ponta do iceberg quando se trata das suas políticas climáticas. As marcas de moda estão focadas apenas nas ações que querem que vejamos e raramente falam sobre a produção e o transporte, que representam a maior parte das emissões», explica Muhannad Malas.

Notas negativas

No relatório, a Stand.earth deu notas às empresas participantes com A, B, C, D, F, sendo A a melhor nota e F a pior, de acordo com o sistema americano. Deste modo, a marca que conquistou a nota mais alta foi uma pequena empresa suíça, a Mammut, mas mesmo assim com um B-, seguida pela Nike, que obteve um C+. A partir daí, o panorama ficou pior, com a Gap, Inditex, Ralph Lauren, REI e Lululemon notadas com D. Ainda assim, a grande maioria obteve F, nomeadamente Everlane, Uniqlo, Prada e grupo Kering (proprietário de marcas como Gucci e Alexander McQueen).

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Segundo o autor do relatório, a pesquisa não comparou as empresas entre si mas sim o posicionamento no qual devem estar de forma a evitar uma emergência climática. «O objetivo era avaliar o progresso do sector de moda no cumprimento das metas climáticas para estar em linha com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC. Em última análise, a classificação mostra que as marcas estão realmente muito atrás de onde deveriam para reduzir as emissões em 55% até 2030», revela Malas.

Apesar de não estarem a trabalhar rápido o suficiente, as empresas que conquistaram a melhor classificação no relatório, como é o caso da Nike, Levis, Puma e VF Corp, estão a reunir esforços ativamente para afastar as respetivas cadeias de aprovisionamento dos combustíveis fosseis. A energia renovável nas produções foi um dos fatores a favor da classificação positiva, como acontece com a Nike e a Levis.

Muhannad Malas alerta ainda para o facto de que a dimensão da empresa não tem de ser equivalente aos progressos, tendo em conta que a Mammut, empresa classificada com a melhor nota, está focada em mudar para energia renovável a respetiva cadeia de aprovisionamento até 2030. Este pressuposto abrange várias vertentes desde os fornecedores ao próprio transporte. «Eles estão a optar por investir recursos financeiros e tecnológicos para ajudar os seus parceiros da cadeia de aprovisionamento a abandonar os combustíveis fósseis. Isso é algo que qualquer marca pode fazer, trata-se apenas de fazer disso uma prioridade», assegura.

Consumo em massa e soluções

A indústria de moda é uma das mais poluentes também devido à produção de grandes volumes a preços baixos, a chamada fast fashion, tal como o consumidor exige. Prova disso é que o sector produz cerca de 80 mil milhões de peças de vestuário por ano para apenas oito mil milhões de pessoas no planeta.

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Na perspetiva de Muhannad Malas, se as marcas levassem as mudanças climáticas com o peso que esta temática tem, optariam por utilizar materiais com menor pegada de carbono do que os sintéticos e, por isso, também mais caros, o que iria aumentar os preços e, consequentemente, reduzir o consumo e o desperdício.

Marcas como H&M, Everlane e Patagonia anunciaram que iam passar a apostar em poliéster reciclado por ser mais ecológico, mas este material é também problemático. «As marcas estão a promover o uso de garrafas plásticas descartáveis, que são a matéria-prima desses tecidos», salienta Malas.

«O primeiro passo que as empresas devem dar é comprometerem-se a eliminar os combustíveis fósseis até 2030. Isso vai transmitir o sinal certo para o mercado, para estimular o tipo de inovação necessária em toda a cadeia de aprovisionamento, incluindo o desenvolvimento de novos materiais. Mas também oferece uma maneira para os consumidores e investidores responsabilizarem as empresas pela meta que estabeleceram», resume.