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A moda nas alterações climáticas

Roupas descartáveis, muitas vezes feitas à base de petróleo em fábricas alimentadas a carvão e expedidas para os quatro cantos do mundo significam que, atualmente, a indústria de vestuário contribui com 10% das emissões globais de carbono.

Este mês, enquanto os líderes mundiais se reúnem em Marrocos para discutir a implementação do Acordo de Paris (ver As conclusões da cimeira do clima), que entrou em vigor recentemente, à medida que a maioria das grandes economias globais começou a comprometer-se com a redução de emissões de carbono, o debate em torno de um dos maiores contribuintes para as alterações climáticas – a moda rápida – ainda é residual, analisa a Fast Company.

A moda tem sido excluída dos debates sobre o clima, ainda que se tenham vindo a debater questões como a eficiência energética ou as energias renováveis. Mas ainda há pouca discussão sobre aquilo que as pessoas vestem, consideram os analistas.

À luz dos resultados eleitorais dos EUA e das perspetivas de rejeição do Acordo de Paris por parte do presidente eleito Donald Trump (ver A Europa depois da vitória de Trump), importa, agora mais do que nunca, que as conversações passem pela moda porque, na opinião dos especialistas, esta pode ser uma das poucas frentes climáticas que se pode combater numa administração Trump.

Embora existam inúmeras organizações e agências públicas e privadas a conduzir os esforços sobre as energias renováveis e a eficiência energética, entre outros, não existe uma grande organização que entenda o que está em jogo com a conexão entre vestuário e clima.

Mais de 150 mil milhões de novos artigos de vestuário são produzidos todos os anos e os consumidores olham hoje para as roupas como algo descartável – é a denominada moda rápida, que termina o seu ciclo em aterros sanitários (ver À procura de fechar o ciclo).

O que tornou esta mudança possível foi a crescente exploração da força de trabalho. Isto é, trabalho mais barato produz roupa mais barata e, por isso, facilmente descartável. Algo que levou a que os EUA tenham perdido 800 mil empregos de vestuário só nas últimas décadas.

Estes postos de trabalho foram assumidos por trabalhadores fabris em países como o Bangladesh e o Vietname, onde o direito do trabalho é incipiente. Como exemplo, apesar do vestuário ser o maior empregador de mulheres a nível mundial, só cerca de 2% destas mulheres recebem um salário digno.

As empresas de vestuário do mundo desenvolvido, da União Europeia aos EUA, terceirizaram o trabalho (e respetiva pegada de carbono) para regiões com incipientes regulamentações laborais e ambientais e que continuam a usar o carvão.

Gerar esses 150 mil milhões de peças requer eletricidade, e uma vez que a maioria das roupas é produzida principalmente em países em desenvolvimento onde a eletricidade é obtida através do carvão, Paris culpabilizou aquelas regiões pela pegada do carbono. Contudo, os consumidores são os responsáveis pela constante renovação deste ciclo e a indústria de vestuário é a responsável por 10% de todas as emissões de carbono globais.

Além disso, a indústria do vestuário é ainda responsabilizada pela escassez dos recursos naturais, considerando, por exemplo, a utilização de água no tingimento têxtil e, depois, nas lavagens.

Entretanto, o poliéster veio substituir o algodão como fibra nº.1 no vestuário e, quando essas roupas são lavadas, as fibras sintéticas vão acabar nos rios, lagos e oceanos. Um casaco sintético padrão, por exemplo, liberta 1,7 gramas de fibras que são depois encontradas no estômago dos peixes.

Uma vez que as negociações do Acordo de Paris não vão contemplar grande parte destas questões, resume a Fast Company, será necessário um esforço sustentado para fazer deste debate uma das principais tendências da indústria.