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A moda neutra

A nova gama de vestuário de Ellen DeGeneres não é apenas mais uma linha de moda concebida por uma celebridade. Ela disponibiliza vestuário de género neutro para meninas, eliminando o fator tradicional de feminilidade inerente aos conjuntos do género feminino.

A colaboração de DeGeneres com a GapKids – GapKids x ED – foi lançada no início do verão e procura dar às meninas a opção de serem quem verdadeiramente desejam ser, ao invés do estereótipo ditado pelas lojas de vestuário. Isto é particularmente importante para DeGeneres. «Quando estava a crescer, não tinha muitas opções, como a maioria das crianças não têm», afirmou. «Começa quando somos jovens. Começa quando somos capazes de nos expressarmos». A linha de vestuário de DeGeneres não inclui vestidos, mas disponibiliza casacos personalizados, polos e linhas simples.

O vestuário de género neutro está a tornar-se um nicho importante na indústria de vestuário numa dupla perspetiva: os retalhistas reconhecem que as mulheres e os homens não devem ser confinados a papéis de género tradicionais e, paralelamente, isso demonstra que os retalhistas estão a responder a uma sociedade que aceita, cada vez mais, a fluidez de género.

O Acne Studios – o retalhista que lançou um fato de manga curta para homens – assumiu a androginia como marca registada. Num anúncio recente, a empresa recorreu a um menino de 12 anos de idade como modelo. Nem todos responderam positivamente a esta campanha.

«A Acne confirma: a mulher da moda ideal é um menino de 12 anos de idade», escreveu Leann Duggan, contornando a temática da fluidez de género inerente à campanha, assumindo, ao invés, que esta afirmava que as mulheres se devem assemelhar a adolescentes. «Por vezes, sabemos que algo terrível é verdade. E, no entanto, ainda nos reservamos o direito de ficar irritados quando é realmente confirmado diante dos nossos olhos», escreveu Duggan, comprovando que nem todos estão preparados para aceitar a fluidez de género na paisagem da moda.

Porém, o vestuário neutro não é um fenómeno inovador. Na verdade, como Marc Bain da Quartzo salientou, está presente há vários séculos – mesmo os antigos romanos usavam túnicas de género neutro.

Jo Paoletti, professora de estudos americanos na Universidade do Maryland, explica que a recente tendência de vestuário neutro resulta de um «processo inacabado da década de 1970». «Existiam diversas questões sobre o feminismo, o movimento dos direitos civis, o movimento dos direitos dos homossexuais, sobre os papéis de género e até que ponto os indivíduos devem seguir os papéis de género», aponta. «E, parte disso, residirá na forma como o encaramos», considera.

Paralelamente, a fluidez de género tem sido algo amplamente debatido no seio da cultura pop, especialmente desde a revelação da estrela do desporto, e patriarca Kardashian, Caitlyn Jenner.

Em acréscimo, o vestuário unissexo tem agora um significado superior. Percorrer a coleção de vestuário neutro da marca Babies ‘R’ Us, destinada a bebés, evoca não só a noção de uma família que aguarda um recém-nascido tendo por base um orçamento definido, mas também uma família que não deseja impor um género ao seu filho. Afinal, o género não é obrigatoriamente imposto no momento do nascimento.

À medida que a sociedade se adapta à noção de que o género é muito mais fluido e que pode ser expresso através do vestuário, a indústria da moda procura responder oportunamente. Diversos designers e marcas menores lançam-se no sector unissexo, a par da alta costura. A Gucci exibiu conjuntos de moda femininos destinados ao género oposto, este verão, na Semana da Moda de Milão.

Este Verão, Ruth La Ferla, do jornal The New York Times, denominou-o de «O Grande Borrão do Género». «Essa tendência foi especialmente evidente nas coleções masculinas, que silenciosamente se aventuraram em território feminino, afigurando-se oportuno para as jovens mulheres urbanas progressistas, que se destacam, há muito tempo, entre os consumidores mais ávidos de moda masculina de luxo, com uma proveniência street-wear funky», escreveu La Ferla.

«A perceção da orientação sexual está a ser desafiada pela geração do milénio», afirma Lucie Greene, diretora mundial da JWT Intelligence. «Entre a faixa etária dos 12 aos 19 anos, que define a Geração Z, a linha entre o masculino e o feminino torna-se cada vez mais ténue e testemunhamos o reflexo desta tendência nas coleções desta semana [Semana da Moda de Milão]».

Outros atores do retalho antecipam que este sector continue a evoluir – não é uma tendência; trata-se, simplesmente, da moda a evoluir com a sociedade. «A definição de género mudou muito e, por consequência, também mudaram as expectativas», refere Emma McIlroy, cofundadora da loja de género neutro WildFang em Portland, estado americano do Oregon. No futuro, antecipa que o vestuário identificado por um sistema binário de género seja inexistente. «Não será mercantilizado em segmentos masculino e feminino», conclui.