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A montanha e o puzzle

Fizeram a travessia do espaço Bloom para a passerelle principal, num atestado de maturidade que receberam do Portugal Fashion. Carla Pontes e Mafalda Fonseca apresentaram o seu outono-inverno 2016/2017 entre jovens mulheres de saltos altos e rapazes que se recusam a crescer.

No calendário da 38ª edição do Portugal Fashion (ver Crónica de um inverno anunciado), as duas jovens designers despediram-se do espaço Bloom para talentos emergentes e abraçaram o desafio de encaminhar os respetivos clãs de modelos para a passerelle principal do evento, num desfile coletivo. «A realidade é que sendo tudo novo, alguma coisa já se conhece», destaca Carla Pontes ao Portugal Têxtil sobre aceder a um novo nível de responsabilidade entre as paredes austeras de um edifício que lhe é familiar – a Alfândega do Porto. «Fui apanhada de surpresa, não estava a contar! Foi um desafio», contrapõe Mafalda Fonseca, que não deixa de salientar a confiança que a organização lhe destacou com esta oportunidade.

Antes de passarem pela mostra nacional, as jovens designers voltaram recentemente a marcar presença em showrooms internacionais, em Londres e Paris, e ambas se mostram otimistas com os voos internacionais das suas marcas. «Londres foi mais no sentido de projeção de marca, afirmar-me enquanto marca fora de Portugal. Até porque em Londres as pessoas gostam mais de ver coisas diferentes. Paris é mais o lado comercial, onde realmente se efetivam as vendas. E penso que um não acontece sem o outro e foi isso que nós também confirmámos», refere Mafalda Fonseca.

Já Carla Pontes destaca que, depois do Velho Continente, há mais territórios à espera de uma bandeira da marca. «Estamos a fazer showrooms pela Europa, a apostar no mercado europeu e depois queremos dar o salto para outros mercados», acrescenta.

Ao terceiro dia de desfiles da 38ª edição do Portugal Fashion, Carla Pontes mostrou uma coleção feminina, marcada já por uma marca – e designer – amadurecida. «O facto de as colocar de saltos altos, que é algo que não costumo fazer, dá-lhes esse ar mais adulto», contudo, interrompe, «continua a haver peças muito descontraídas. Os calções, o facto de termos ganchos muito descidos com cinturas muito subidas dá-lhes um ar muito masculino, também, e os saltos altos têm um bocadinho esse ar mais clássico», explica a designer sobre a coleção “Mountain”, repleta de casacos de trespasse e sweaters oversized conjugadas com esguias saias, calças, calções ou vestidos.

Na cor, venceu o verde, preso numa noção de tempo. «Na realidade esta coleção conta-nos uma história da passagem do tempo, olhando para uma montanha – no final do verão ficam as folhas queimadas, começamos a ver os tons amarelados, os verdes secos, depois, nos tempos mais húmidos, vemos os verdes escuros muito, há uma passagem para os tons mais acinzentados, os brancos, mais de inverno e, por fim, começam a florescer novamente os verdes, num tom mais forte e complementado com o azul», explica a designer, sobre a paleta, o tempo e o espaço transportados para os coordenados.

As misturas de lã, o algodão e o cupro foram os materiais de eleição de Carla Pontes, que procurou que estes emprestassem textura a «roupas muito lisas, apesar de serem quebradas com pregas».

Numa variação possível – analisada à luz do design de moda e não da psicologia – da síndrome de Peter Pan, a coleção de Mafalda Fonseca ficou, propositadamente, presa «num determinado ponto da história» dos seus rapazes. «Naquela fase de dualidades, muito fantástica e menos fantástica», que se refletiu na narrativa de cores e na arquitetura de texturas de “T_FW 16/17”.

Ainda que os rapazes teimem em não crescer, a designer continua a dar provas da sua constante superação, com a introdução de texturas cada vez mais intrincadas. «Houve muitas texturas. É algo que eu já tenho vindo a trabalhar, se calhar não de uma forma tão explícita. Desta vez foi mesmo tudo ou nada e, aí está, mostrar esse lado da “não maturidade”, do querer arriscar», explica.

Algumas das peças, que brindam à união do tailoring com o streetwear, ganharam vida com o movimento dos modelos em passerelle, com a introdução do pelo, em pormenores que emprestavam três dimensões aos coordenados.

A mescla de cinzentos e duas sombras de verde serviu de fio condutor à coleção onde se destacaram as peles porque, segundo a designer, «fazem já parte da imagem da marca e percebo que funcionam muito bem a nível de vendas», juntaram-se depois à dança as lãs, «porque fazem parte do tailoring» e materiais mais técnicos, com misturas, «que vão buscar o lado streetwear».

O ponto de partida de Mafalda Fonseca foi a ideia de um puzzle e a junção de peças da designer resultou numa coleção verdadeiramente gráfica. «Gosto muito de trabalhar a parte gráfica, mesmo fora da minha marca, toda esta conjugação de coisas, de misturar texturas, cores, mesmo colagens, fotografias, toda essa história me dá muito prazer. Parte sempre de misturar, de pegar em coisas, às vezes objetos e, depois, passá-los para vestuário», resume.