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«A nossa meta é conseguir reaproveitar entre 60% e 70% da água»

Em entrevista, João Almeida, administrador da JF Almeida, desvenda a estratégia desenvolvida em matéria de sustentabilidade, inovação e internacionalização para a empresa especializada em têxteis-lar fundada pelo seu pai, Joaquim Almeida, e que a segunda geração tem ajudado a transmutar-se de «um bom barco» para «um navio».

João Almeida

A JF Almeida é uma das empresas envolvidas no projeto Giatex, apoiado pelo PRR, que pretende revolucionar a gestão de água na indústria têxtil e vestuário portuguesa. A poupança e recircularização da água, contudo, não é um tema novo nos investimentos do grupo – com valências na fiação, tecelagem, tinturaria, acabamentos e confeção de têxteis-lar e com as empresas Emoh Textiles, para vendas online, e Mi Casa Mi Casa Es Tu Casa, que detém a marca epónima, no portefólio –, que nos últimos anos conseguiu, graças à aquisição de tecnologias mais eficientes e à investigação de processos menos consumidores, reduzir em cerca de 15% a utilização deste recurso.

Os objetivos para esta nova iniciativa são igualmente ambiciosos, revela o administrador João Almeida em entrevista ao Jornal Têxtil, e vêm juntar-se a um conjunto de investimentos na automação e na indústria 4.0, que deverão contribuir para que a JF Almeida, que em 2021 registou um volume de negócios de 55 milhões de euros, cerca de 20% acima dos números de 2019, continue a crescer no futuro próximo.

Dentro do consórcio do Giatex, qual é o papel da JF Almeida?

A JF Almeida vai ter um papel na área produtiva, porque tem a maior tinturaria da Europa neste momento. Somos um piloto para, na parte produtiva, começar a fazer estudos, juntamente com as universidades e o CITEVE, para perceber onde é que podemos poupar. O segundo passo será na parte da recirculação da água e no seu reaproveitamento, ou seja, o tratamento da água residual, de forma biológica, e voltar a introduzi-la no processo. A JF Almeida é a partner ideal para este tipo de projetos, em que as universidades estudam e depois há a terceira fase que é a unidade-piloto. O que é que eles vão fazer com uma unidade-piloto? Vão colocar nas empresas – somos várias – para ver se a ideologia do projeto é aprovada ou não.

O que seduziu a empresa para um projeto desta envergadura?

Já estávamos a tentar trabalhar esta parte da redução e otimização de águas e recirculação com uma entidade. Naturalmente, um projeto do PRR com outras entidades é um projeto onde temos mais força e podemos crescer mais, tentar reaproveitar mais água. O nosso interesse é crescer nesta vertente, para tentarmos ser mais sustentáveis a nível ambiental e a nível financeiro. É essa a nossa ideia.

Tinham já desenvolvido projetos no âmbito da economia e reutilização de água?

Na parte de otimização dos processos, já conseguimos otimizar ao máximo. Investimos em maquinaria, é toda nova. E se há cerca de sete ou oito anos tínhamos uma relação de banho 1:10, hoje já temos máquinas com relação de banho 1:6 e 1:5, no caso da tinturaria de fio. Há cerca de meio ano que esse investimento em maquinaria foi concluído.

Qual foi a ordem do investimento?

Grosso modo, temos 45 máquinas e foi um investimento, mais ou menos, de 150 mil euros por máquina, por isso, entre seis e sete milhões de euros só em maquinaria. Depois começámos a fazer investimentos na parte da chamada indústria 4.0, em que basicamente agora controlamos todas as nossas máquinas, que têm um computador ligado a um sistema operativo, que regula o consumo e tem um alerta se a máquina começar a ultrapassar a água devida de consumo. Quando há um alerta, vamos analisar o processo. Antigamente o que é que acontecia? Tingíamos e nem sabíamos quanto é que gastava. Hoje temos uma engenheira ambiental que nos controla toda a energia elétrica, térmica e, neste momento, também a água. A nível de processos, fizemos uma segregação das águas, em que separamos os esgotos entre água suja, água limpa e água menos limpa, e já conseguimos recuperar ou fazer a recirculação de 15% a 20% da nossa água. Estamos a falar daquelas águas mais limpinhas, como a última água de lavagem e a segunda água da meia branqueação, que são águas límpidas e que iam para o lixo. Agora temos um tanque especial, onde as depositamos e voltamos a trabalhar com essa água. Além disso, temos outro tipo de processo, o ECOdyeing, que é um tingimento onde não usamos quase água nenhuma. Trata-se de um processo interno em que gastávamos quatro a cinco águas para tingir e, neste momento, só gastamos uma água. E estamos com um processo supernovo, que é a parte de ensaboamento a baixa temperatura com redução de água. Antes ensaboávamos a 80 ou 90 °C, neste momento estamos com um processo de 60 °C; gastávamos entre sete a oito águas e estamos a conseguir tirar partidas com quatro a cinco águas. Portanto, estamos a falar de uma redução de temperatura de 80 ou 90 ºC para 60 ºC, o que é muito bom, e estamos a falar de uma redução de água entre 30% a 35%.

Que quantidade de água conseguem já economizar?

Com a poupança conseguida com estes novos processos podemos estar a falar de mais de 20%. Em média, gastamos 160 metros cúbicos de água por hora, portanto estamos a falar de cerca de 30 metros cúbicos por hora que deixamos de usar.

E financeiramente, quanto representa?

Devemos estar a falar de 15 mil a 20 mil euros mensais, só em água. Depois há também economia a nível da energia, com as máquinas, principalmente ao nível do vapor, e o gás natural, ao preço que está, estamos a falar de poupanças enormes. É sustentabilidade ambiental e financeira.

Qual é a meta fixada?

Com este projeto do PRR, a nossa meta é conseguir reaproveitar entre 60% e 70% da água utilizada – estamos nos 15% – e, naturalmente, reduzir ao máximo o número de águas do processo produtivo. Até porque isso faz-nos poupar milhares e milhares de euros.

Além do ECOdyeing, há outras novidades em matéria de tingimento?

Também estamos a trabalhar com um tipo de corantes da HeiQ, em que usamos pouco sal. Ao reduzir a quantidade de sal, gastamos menos água. Estamos todos os dias a tentar inovar nesse sentido.

A energia tem sido outra das apostas da JF Almeida. Que investimentos têm priorizado?

Fizemos um investimento de quase de 2,5 milhões de euros em painéis fotovoltaicos. Ao preço que a energia está, são investimentos pagos em metade do tempo: o investimento num painel fotovoltaico tinha retorno em oito a nove anos e agora, com o preço da energia, é para pagar em três, quatro anos no máximo. Já temos quase 800 megawatts instalados e vamos passar para cerca de 2.000 megawatts. Os que estão instalados, estão já há cerca de quatro anos. Neste momento, estamos a montar mais, temos novos armazéns e todos os nossos telhados a serem preenchidos com painéis fotovoltaicos. No final de abril, 70% de todas as fábricas ficarão cobertas por fotovoltaicos e temos um terreno onde também vamos colocar muitos painéis fotovoltaicos. Mas como temos uma indústria de alto consumo, o fotovoltaico nunca vai ultrapassar os 15% a 20% do nosso consumo interno.

Com a capacidade fotovoltaica instalada, quanto já conseguem poupar?

A fatura energética de todas as unidades deve andar à volta dos 250 mil euros mensais, portanto ao fim do ano estamos a falar de 3 milhões de euros. Se conseguirmos poupar 20%, são 600 mil euros ao ano. Com isso, ao fim de quatro anos, temos os painéis fotovoltaicos pagos.

Há outros investimentos em curso na área de sustentabilidade?

O da água é o investimento mais interessante e mais promissor que temos. Mas temos outros: estamos a tentar acabar com o combustível fóssil, que é o gás, e compramos uma caldeira de biomassa, de um milhão de euros, que chegará em março. É tudo investimento para sermos cada vez mais verdes, sustentáveis a nível ambiental e também financeiramente, porque ao preço a que a energia fóssil está, temos que começar a ser mais sustentáveis de forma a tentar minimizar os nossos custos.

 

Ao nível das matérias-primas, têm procurado igualmente alternativas sustentáveis?

Temos tido muito sucesso com o nosso fio 360, que é reciclado. Todo o desperdício que temos neste momento é reaproveitado para esse fio, que é quase 100% algodão, mas temos que fazer uma mistura com poliéster para conseguir “segurar” a fibra. Noutros casos, temos 50% de artigo reciclado e 50% de algodão orgânico. Neste momento, temos um cliente da Dinamarca que nos quer entregar todo o artigo de pós-consumo que não consegue vender para reciclarmos e voltarmos a entregar-lhe artigo. Poderíamos estar a falar de outro tipo de fibras mais sustentáveis, mas acho que a matéria-prima mais sustentável é mesmo a reciclada: poupamos água, poupamos matéria-prima, poupamos viagens, poupamos gasóleo, poupamos lixo. É essa a nossa ideologia e é por aí que temos que ir.

Quanto representa atualmente o fio 360?

No volume de faturação, para já, só representa 7%, porque só estamos nisto há três anos, mas é para crescer. Gostaria que, no mínimo, 30% do valor da faturação fosse reciclado.

E a utilização de algodão orgânico?

O algodão orgânico começa a ser um número difícil de dar porque há muita falta de orgânico. Tínhamos muitas encomendas em orgânico que tivemos que passar para algodão normal, naturalmente com conhecimento dos clientes.

Que importância tem a inovação na estratégia da empresa?

Temos um departamento de I&D, com três pessoas. Todos estes processos mais sustentáveis vieram desse departamento. Também daí vieram projetos novos como o iHeatex, o robe aquecido. Depois temos outros projetos de I&D, como o Tex4SafeCare, em que o acabamento antibacteriano foi desenvolvido por nós e a tela pela Têxteis Penedo – a tela antibacteriana tem fios condutores que mudam de cor na presença do vírus. Estamos à espera que abram candidaturas para desenvolver outros produtos inteligentes, mas também continuar, a partir do iHeatex, com outro produto que temos em mente.

Quais vão ser as linhas de inovação traçadas para o futuro?

Produtos inteligentes e produtos técnicos. Neste momento também estamos a desenvolver umas toalhas técnicas, ultraleves, com uma taxa de absorção elevada, para a área do montanhismo e desporto.

Quanto investe a JF Almeida anualmente em novos desenvolvimentos?

Nos últimos quatro anos, deveremos estar a falar de 150 mil a 200 mil euros por ano.

Além da sustentabilidade, em que outras áreas está a empresa investir?

Temos de investir principalmente a nível de automação. Neste momento estamos a construir uma confeção nova onde investimos a nível de maquinaria, ou seja, de automação, pois este tipo de confeção exigia muita mão-de-obra e há falta de mão-de-obra. Com a automação que estamos a fazer – naturalmente que isto ainda está muito verde – poderemos poupar entre 10% a 15% no número de pessoas especializadas. Numa confeção normal estamos a falar de 30 pessoas e, com essa automação, vamos reduzir 20% no efetivo, ou seja, menos seis costureiras.

Em termos de processos, podemos dizer que o grupo está já com tecnologia completamente atualizada?

O nosso ADN é de puro investimento. Há sempre maquinaria nova que poderemos comprar, mas neste momento a tinturaria está completamente automatizada – a máquina mais antiga tem três anos. Todos os nossos teares mais antigos foram já substituídos. Na fiação tínhamos um open-end antigo que está a ser substituído. Portanto, baixo consumo, alta produtividade. Nesse sentido, temos feito uns investimentos muito bons e agora vamos fazer mais investimentos, mas ainda não posso falar muito. Posso dizer que vamos ter uma tecelagem de roupa de cama, para dar apoio à Mi Casa Es Tu Casa e apresentar novos produtos no mercado.

Quais são os investimentos prioritários para 2022?

A tecelagem nova e a confeção automática, além da nova confeção de robes, que abre ainda em janeiro. Temos também uma cozinha nova de líquidos químicos, com dosagem automática. Estamos a falar de cinco milhões de euros, mas é para crescer.

Quantas pessoas trabalham atualmente na JF Almeida?

Ao dia de hoje somos 670. No próximo ano vamos chegar quase às 750 pessoas, se tudo correr bem.

 

Quais são hoje os principais mercados da empresa?

Nos têxteis-lar, o mercado europeu: França, Espanha e Itália. Estamos a crescer muito nos EUA e no Canadá, já temos um mercado interessante na Austrália, a África do Sul já foi melhor um bocadinho e estamos muito bem no Magreb. A quota de exportação neste momento deve estar nos 80%, mas os outros 20% indiretamente são também para exportação.

E no caso dos fios?

A exportação está a crescer e em cinco anos já está nos 25%, mas a quota baixou porque o mercado onde vendíamos muito – o México – parou por completo, senão seria uns 35%. Mas estamos em vários países, nomeadamente na Europa.

Depois do pico da pandemia, o mercado tem vindo a recuperar?

O mercado começou a fugir do Oriente, basicamente da China, e isso foi interessante para nós. Esta revolta com a China fez com que muitos compradores deixassem de lá ir e começassem a virar para aqui. A política do preço deixou de ser o que mais pesava e basicamente o que eles queriam era serviço e não falhar na cadeia produtiva e é por isso que, principalmente no têxtil-lar, nunca houve tanto trabalho como neste momento. É verdade que se começou a consumir mais têxtil-lar, mas não foi só por causa disso – as grandes superfícies, os grandes clientes, começaram a focar-se outra vez mais na Europa para fazer as produções

Esses grandes clientes são europeus?

São mais americanos e as grandes superfícies europeias, que compravam numa Turquia ou numa China, começaram a comprar mais cá, porque neste momento também há falta de fluxo de cadeia, logo eles têm que comprar onde é mais rápido e mais fácil.

Qual foi o volume de negócios em 2021 da JF Almeida?

Vamos fechar com 55 milhões de euros, quase 20% mais do que em 2019.

Que expectativas tem para o corrente ano?

Se o abastecimento não nos faltar, é para crescer. Naturalmente com os custos energéticos não conseguimos prever. Com estes aumentos todos, o consumidor final não vai ter tanto poder de compra e obrigatoriamente a procura vai baixar. Se isto estabilizar, vai ser outro ano bom, com um crescimento até 5%.

E para o futuro, quais são as ambições?

Basicamente, continuar a crescer a nível de volume de negócios e investir e modernizar todos os anos, porque há sempre inovação a nível de automação. Chegámos a um ponto em que temos de pôr os pés bem assentes na terra porque temos um barco muito grande. Há 20 anos já era um bom barco, mas não era um navio como agora.