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A nova África

Geograficamente vasto, politica e culturalmente diversificado e densamente povoado, o continente africano balança-se em extremos. O seu potencial económico, somado à população mais jovem do planeta, alimenta agora uma revolução cultural e social, impulsionada pelo desejo de contar a verdadeira história africana.

A crescente população jovem de África tem vindo a promover uma imagem fresca e moderna do continente e sobre aquilo que significa ser jovem e africano, segundo o portal de tendências WGSN.

Swag: a geração confiante

Há hoje uma confiança tangível entre os millennials, jovens que estão a reafirmar e a redefinir a identidade nacional. Esta atitude é comummente resumida pelo termo sul-africano “umswenko” – muitas vezes traduzido pelos media como “swagger”.

Nas ruas, os jovens ouvem hip-hop local e difundem as dicas de estilo dos ícones da subcultura. Conhecedora de marcas e orgulhosa da sua cultura e herança, esta é uma geração que caminha com a confiança promovida pela prosperidade económica crescente de África.

A ascensão de Nollywood

Nos últimos anos, a Nigéria assumiu-se como a potência económica de África, ultrapassando a África do Sul em termos de PIB, estando ainda a emergir como força cultural e de entretenimento.

Nollywood, o nome dado à crescente indústria cinematográfica da Nigéria, está no centro desta revolução cultural, sendo atualmente o segundo maior empregador do país (depois da agricultura) e contribuindo com cerca de 600 milhões de dólares (aproximadamente 576 milhões de euros) para a economia nigeriana.

Esta indústria, que produz em média 2.500 filmes por ano, está a alimentar uma geração de jovens cineastas, atores e escritores, apoiada por produtores africanos ou empresas de produção independentes. Chika Anadu foi uma das cineastas que conquistou a atenção da crítica internacional com a sua primeira longa-metragem, “B for Boy”.

A verdadeira África

Em 2015, descontentes com os estereótipos que orbitam o continente, os africanos começaram a usar a hashtag #TheAfricaTheMediaNeverShowsYou (“A África que os media nunca mostram”) nas redes sociais, partilhando imagens inspiradoras da paisagem, das pessoas e das indústrias criativas que quase nunca são comunicadas pelos media.

A iniciativa Tastemakers Africa, por exemplo, apresenta a “verdadeira” África aos turistas, conectando-os com os produtores e influenciadores do país, levando-os a festas cool e às inaugurações de arte e performances que estão a escrever uma nova narrativa daquilo que significa ser africano.

Os comentadores de estilo Velma Rossa e Oliver Asike do blogue “2 Many Siblings” estão na vanguarda da catalogação desta transição. O blogue, centrado na moda e nas colaborações de marcas, mostra um lado criativo de África, que celebra a inovação e a colaboração.

Deste modo, os millennials africanos estão, cada vez mais, a voltar as atenções para a sua herança em vez de aspirarem a ideologias internacionais.

Nascidos livres

A demografia dos “Born Frees” – millennials nascidos depois do apartheid – começa agora a entrar na casa dos 20.

Apesar de terem nascido numa paisagem mais otimista de unidade e igualdade, uma nova onda de consciência está emergir como reação ao que muitos entendem (e experienciam) como o fracasso em concretizar a visão de Nelson Mandela de uma “Nação Arco-Íris”. Atualmente, a igualdade e a educação são as questões que mais mobilizam os jovens de África do Sul para o ativismo.

Romance moderno

O aumento da tolerância, uma maior interação e uma educação mais aberta têm resultado numa mudança positiva nas atitudes e, como prova, os casamentos inter-raciais estão em ascensão.

Nos últimos anos, um estudo revelou que o rácio de alguém que se casa fora da sua raça aumentou de 303:1, em 1996, para 95:1, até 2011.

A homossexualidade

Um estudo de 2013 do Pew Research refere que a esmagadora maioria dos africanos é contra casamentos do mesmo sexo e, nos países subsaarianos, nove em cada dez pessoas são contra a homossexualidade em geral.

A África do Sul é considerada mais liberal e foi o único país a legalizar o casamento gay. No entanto, a homossexualidade ainda é punível com pena de morte em algumas regiões.

Para a comunidade LGBT africana, a aceitação ainda está muito longe de ser uma realidade. Contudo, à medida que os millennials mais tolerantes lutam contra os códigos profundamente enraizados de género e sexualidade, as vozes criativas estão a começar a chegar ao mainstream.

O artista e blogger de moda Vusi Makatsi, por exemplo, usa a rede social Tumblr para lidar com os códigos de género, com o seu estilo pessoal andrógino e com uma colagem de obras de arte que intersetam iconografia gay com motivos africanos.

Boom artístico

As instituições de arte africanas têm tido uma relação controversa com os próprios artistas. Em duas edições consecutivas da Bienal de Veneza, o Quénia convidou sobretudo artistas estrangeiros para representar o país.

Ainda assim, o Quénia tem vindo a experimentar um boom de colecionadores, em linha com o crescimento económico do país e, em todo o continente africano, o potencial económico para cultivar uma cena artística vibrante está a ser reconhecido.

As feiras de arte africanas e as bienais passaram a integrar o calendário de arte internacional e, só na África do Sul, quatro grandes museus e galerias preparam-se para receber coleções de arte visual contemporânea, incluindo um novo projeto do ex-presidente da Puma, Jochen Zeitz, para construir um complexo de nove andares na Cidade do Cabo.