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A nova era das prendas

Ainda que a temporada de escolha dos presentes deste Natal esteja já a esgotar-se, importa rever as alterações das tendências respeitantes às listas de pedidos desta quadra.

Os consumidores começam a mover-se em direção a prendas com significado – há até quem procure oferecer “tempo” (gasto com qualidade), em detrimento de objetos com valor monetário.

De acordo com uma sondagem recente da Department Store for the Mind, uma loja britânica com particular foco em prendas de pendor emocional, apenas 21% dos inquiridos se lembram daquilo que os seus familiares e amigos próximos lhe ofereceram no Natal passado. Ainda assim, espera-se que a media das pessoas gaste entre 600 a 1.000 libras (entre 821 e 1370 euros) em presentes no Natal de 2015, estima o WGSN.

«Em muitos casos, o destinatário tende a especificar aquilo que quer, pelo que o exercício é, em grande parte, sobre o cumprimento de uma ordem e não sobre o fator -surpresa que proporciona satisfação emocional real», afirma Sophie Howarth, fundadora da loja, ao WGSN.

Para os consumidores, o ato de presentear alguém transformou-se numa reação mecânica – resumindo-se a uma lista enviada por email que é clicada, copiada, colada e, depois, comprada. Ainda assim, há uma vontade crescente em oferecer presentes que criem laços pessoais, de fazer e guardar memórias e de partilhar sentimentos e emoções.

De acordo com o professor de psicologia Thomas Gilovich e o doutorando Amit Kumar, ambos da Cornell University, Nova Iorque, uma experiência proporciona mais satisfação do que um objeto físico. No artigo desenvolvido para o Journal of Consumer Psychology, Gilovich e Kumar argumentam que as experiências «proporcionam uma gratificação mais duradoura» porque «a espera de uma experiência proporciona mais felicidade e emoção do que a espera por um bem material».

A vaga da oferta de experiências tem, também, muito que ver com a atual popularidade das redes sociais, uma vez que as experiências acabam por definir os perfis e feeds do Instagram, Snapchat e Facebook.

A queda do materialismo

Segundo o portal de tendências, os millennials (ou geração Y) são a “geração da experiência”, com 78% a optar por gastar dinheiro em experiências em relação a produtos e 72% a procurar “afastar-se do materialismo”.

Não obstante, de acordo com os resultados do estudo American Lifestyle, promovido pela analista de mercado Mintel, todas as pessoas, em todas as gerações, são mais felizes quando o seu dinheiro é gasto a viver e não a possuir. As categorias “não-essenciais”, que incluem atividades como férias ou jantar fora, deverão aumentar ao longo dos próximos cinco anos, tendo crescido 22% entre 2009 e 2014.

Esta rejeição do materialismo não é uma tendência exclusiva dos EUA. Em setembro último, a consultora McKinsey & Company apontou que, nos seis meses seguintes, os consumidores chineses estariam mais propensos a gastar dinheiro em comida, viagens de lazer e entretenimento.

Depois de anos focados na riqueza material e no desenvolvimento económico, os cidadãos chineses temem que o país se aproxime de um vácuo moral, e uma mudança no sentido do desenvolvimento pessoal, de ajuda ao próximo e da vida familiar está a merecer a atenção destes consumidores.

Prendas emocionais

Muitos consumidores começam, também, a procurar presentes emocionais, opções memoráveis que possam ajudá-los a conectar-se com a família e amigos.

Para o Gift Guide 2015, a Quartz pediu a vários atores que recordassem o melhor presente que já tinham recebido. Entre os 40 inquiridos, que incluíram a empresária Melinda Gates, a jornalista Katie Couric e James Dyson, fundador da empresa Dyson, 12 citaram experiências como o seu presente favorito e muitos outros listaram bens emocionais, como obras de arte, notas escritas à mão, lembranças personalizados ou livros raros.

Experiências que contam

À medida que a experiência vai prevalecendo sobre o materialismo, crescem também as opções de experiências de luxo. Lançado pelo empresário e colecionador de arte Trevor Traina, o website If Only vende experiências de uma vida, que incluem jogar ténis com Steffi Graf e Andre Agassi, cozinhar na cozinha de Alice Waters ou fazer um passeio de balão de ar quente sobre o Evereste. Para os amantes de moda, há uma tour pelo estúdio de Diane von Furstenberg por 5 mil dólares, que inclui um chá com a designer. «As vidas das pessoas estão a apontar para as experiências, não para as coisas», resume Traina.

Na Índia, o portal de comércio eletrónico Delight Gifts firmou parceria com mais de 65 marcas para criar mais de 500 experiências de luxo.

Um casamento diferente

Quando se trata de casamento, os millennials lideram na oferta de presentes-experiência.

«Menos é mais. Esta geração de casais que vive em espaços pequenos não precisa de presentes», advoga John Dorsey, investigador do Center for Generational Kinetics. «Preferem visitar um retiro de ioga ou bilhetes para um concerto», acrescenta. Uma vez que, atualmente, os casais vivem juntos há vários anos antes do casamento e não precisam de preencher a casa com eletrodomésticos, por exemplo.

Os websites Vebo e Zola dedicam-se a oferecer presentes que os novos casais podem experimentar juntos, como aulas de fitness ou escalada.

“De mim, para mim”

À medida que cada vez mais consumidores procuram pelo seu bem-estar durante a correria natalícia, o “auto-gifting” cresce de forma proporcional. Neste segmento, o NPD Group considera que o americano médio vai despender cerca de 132 dólares (aproximadamente 121 euros) para se autopresentear este Natal.

A prenda do tempo

Como o dia-a-dia se tem transformado num fluxo de informação constantemente atualizado, comentado, gostado e partilhado na rede, a dádiva do tempo torna-se a mais preciosa de todas. Sem surpresa, os gastos em serviços, como experiências de spa, deverão alcançar 1,5 milhões de dólares nos EUA em 2015.