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A nova normalidade chinesa

No comunicado que marca a abertura oficial do novo ano parlamentar chinês, Li Keqiang anunciou um crescimento esperado de 7% para o corrente ano, uma previsão inferior aos 7,5% antecipados para 2014. «A pressão sobre a economia chinesa continua a aumentar», afirmou o Primeiro-Ministro chinês perante os três mil delegados que se reuniram na ala oeste da Praça de Tiananmen para escutar o tradicional discurso de inauguração do novo ano. «Problemas profundamente arraigados no desenvolvimento económico do país são cada vez mais evidentes. As dificuldades que enfrentaremos este ano poderão ser maiores que as do ano passado». Este evento anual tem lugar no Grande Salão do Povo e reúne representantes do partido comunista chinês, procedentes de diversas partes do território nacional, que rumam a Pequim para participar no Congresso Nacional do Povo. Este momento resume-se a uma apresentação da proposta legislativa do governo e das prioridades nacionais estipuladas para o ano. Entre os assuntos preferenciais para 2015, figuram a continuidade do combate à corrupção e a diminuição da poluição, que Li define como «uma praga na qualidade de vida das pessoas». Num momento em que se assiste a um cessar do vertiginoso crescimento que ditou as movimentações da economia chinesa, o Primeiro-Ministro chinês reafirmou a necessidade de encontrar uma base de continuidade e crescimento sustentável. Nas medidas a tomar em 2015 inclui-se a reforma das empresas estatais, que são ainda um impedimento à progressão da economia chinesa, assim como a adoção de medidas que permitam a liberalização do sistema bancário e dos mercados financeiros nacionais. «A fim de neutralizar os problemas e riscos, evitar cair na “armadilha do rendimento médio” e alcançar a modernização, a China deve apoiar-se no desenvolvimento e o desenvolvimento exige uma taxa de crescimento adequada», referiu Li. «Ao mesmo tempo, o desenvolvimento económico chinês alcançou uma “nova normalidade”», acrescentou. Impulso fiscal Na curta-duração, o governo chinês debate-se com uma economia sobrecarregada pela estagnação do mercado imobiliário, elevados níveis de endividamento e excesso de capacidade instalada. Na continuidade, procuram estipular medidas que assegurem um aumento do consumo, reduzindo a excessiva dependência face a mercados de exportação e investimentos desnecessários. O banco nacional chinês cortou as taxas de juro pela segunda vez em três meses e, no sentido de conferir um impulso fiscal suplementar de apoio monetário ao banco central, o governo planeia aumentar a despesa do estado em 10,6% face a 2014, num total de 2,74 triliões de dólares. Essa medida implicará um aumento do défice correspondente a 2,3% do produto interno bruto chinês, o valor mais elevado alguma vez aplicado, depois dos 2,1% estipulados para 2009, em resposta à crise financeira vigente. Um investimento suplementar será efetuado em projetos de modernização das ferrovias nacionais, redes de abastecimento de água e modernização do sector agrícola, apesar da advertência do diretor da agência governamental de planeamento económico, Xu Shaoshi, que preveniu que «estes planos de investimento não devem ser encarados como um estímulo massivo». A economia chinesa cresceu 7,4% no ano passado, uma marca substancialmente positiva face aos parâmetros mundiais mas, ainda assim, a mais lenta dos últimos 24 anos. A pressão deflacionária, depois da quebra sentida nos preços de bens de consumo, levou Li Keqiang a diminuir a taxa de inflação prevista para 2015, que se situará nos 3% face aos 3,5% definidos no ano anterior. Reformas e estabilidade social A agenda de reformas estratégicas do país contempla, também, a supressão da capacidade excessiva das indústrias nacionais, cuja atividade representa uma ameaça à sustentabilidade ambiental, e a necessidade de fazer subir essas unidades de produção na cadeia global de valor. «A manufatura é uma área tradicionalmente forte da indústria chinesa», reiterou Li. «Vamos implementar a estratégia “made in China 2025”, investir na inovação como um vetor de desenvolvimento, aplicar tecnologia inteligente, reforçar as bases, procurar um desenvolvimento sustentável e redobrar os esforços considerados para o reposicionamento da China de produtora de quantidade para produtora de qualidade», apontou. O Primeiro-Ministro chinês prometeu um maior espaço na economia para as entidades privadas, com a redução para metade dos sectores nos quais o investimento estrangeiro se encontrava até então proibido. James Zimmerman, diretor da Câmara de Comércio Americana na China, adiantou que «estamos ansiosos para conhecer os pormenores deste catálogo, definir medidas e partilhar as nossas esperanças face a um ambiente negocial estável, justo, transparente e previsível na China», apesar das concretizações governamentais terem ficado aquém do expectável pelo sector. Com a manutenção da estabilidade social a destacar-se entre as prioridades do governo, Li Keqiang revelou que a China prevê a criação de mais 10 milhões de postos de trabalho, contribuindo para que a taxa de desemprego não ultrapasse os 4,5% em 2015, melhorando, desta forma, a meta atingida no ano passado.