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A nova revolução industrial – Parte 1

Uma quarta revolução industrial está em curso. A Indústria 4.0 acrescenta a Internet e a análise de dados em tempo real à equação da produção, transformando as fábricas em entidades verdadeiramente inteligentes. Uma mudança que pode trazer a produção de novo para o Ocidente.

Os produtores estão a reinventar o chão de fábrica, usando uma combinação de automação e digitalização. Sensores que recolhem dados e dispositivos conectados registam a performance da empresa para otimizar a produção. Algoritmos com capacidade de aprendizagem preveem quando e onde é necessária manutenção e os robots automaticamente cooperam entre si, levando-nos mais perto da automatização completa.

Até 2020, as empresas europeias vão investir 140 mil milhões de euros todos os anos na Indústria 4.0, de acordo com a PwC. Em termos mundiais, esse investimento vai atingir 500 mil milhões de dólares, de acordo com a empresa de pesquisa de tecnologia Wikibon.

Liderar a revolução

O conceito de Indústria 4.0 foi inicialmente forjado na Alemanha em 2011/2012, quando um grupo de especialistas apresentou ao governo uma série de recomendações sobre o futuro da produção. A equipa foi presidida por Siegfried Dais, sócio da empresa multinacional de engenharia e eletrónica Bosch – uma empresa que está a liderar a revolução da Indústria 4.0 tanto na Alemanha como em termos mundiais, sublinha o WGSN. Não apenas a Bosch é a principal produtora de tecnologias de produção conectadas, mas está também a implementar as soluções da Indústria 4.0 nas suas próprias instalações.

Uma das atrações da Bosch está na sua unidade de Blaichach, no sul da Alemanha, que produz sistemas de controlo de travões. Mais de 5.000 máquinas na fábrica estão interligadas, o que lhes permite coordenar o trabalho e ao mesmo adaptar-se às mudanças no processo de produção. A logística foi também alterada significativamente em Blaichach: os materiais são etiquetados e seguidos através de identificação por radiofrequência (Rfid), tornando possível automatizar completamente o fluxo de produtos na fábrica.

A análise constante, em tempo real, dos dados é usada para detetar tendências e erros recorrentes antes destes se tornarem problemáticos.

Medidas semelhantes foram aplicadas noutras fábricas do grupo Bosch, tal como a unidade Rexroth Bosch Homburg – uma fábrica de válvulas hidráulicas onde as soluções da Indústria 4.0 resultaram num aumento de 10% da produção e numa redução do stock de cerca de 30%.

A empresa alemã tem sido muito firme a defender que a automação não é necessariamente uma ameaça ao emprego de humanos – insistindo que a real mudança vai dizer respeito às competências dos trabalhadores. Vários especialistas concordam com esta posição, incluindo Carl Diver, investigador da Universidade de Manchester. «Se a produtividade subir, os empregos vão também aumentar. Ainda vai haver pessoas a trabalhar no chão de fábrica, embora as tarefas vão mudar um pouco e possam ser exigidas outras competências, com mais tarefas relacionadas com tecnologias de informação», aponta, citado pelo WGSN.

Máquinas que fazem máquinas

Outras empresas são mais radicais nas suas previsões em relação à Indústria 4.0. A produtora americana de automóveis Tesla Motors – cujos veículos elétricos estão na vanguarda da revolução da Internet das Coisas – está a apostar forte na automação, de acordo com a ambição do CEO Elon Musk de ter «a máquina que faz a máquina».

A Gigafactory, a unidade de produção de baterias da Tesla no Nevada, faz uma utilização extensiva de robots, alguns dos quais receberam nomes de personagens de banda desenhada. Entre eles há braços robóticos inteligentes usados para levantar e montar componentes e karts interiores autónomos que transportam materiais na fábrica e se recarregam quando ficam sem bateria.

«A própria fábrica é um produto, é uma máquina que constrói máquinas, e exige mais resolução de problemas do que o produto que faz», afirmou Musk ao USA Today após a abertura da Gigafactory em julho de 2016.

Embora a unidade deva criar pelo menos 10 mil empregos, a Tesla não esconde que pretende obter a automação total, tanto na Gigafactory como além dela. Em novembro de 2016, a Tesla anunciou a aquisição da Grohmann Engineering, uma empresa alemã especializada em sistemas de produção automatizada. De acordo com a empresa, isso irá permitir automatizar mais a sua fábrica de vestuário em Fremont, na Califórnia – acelerando a produção para atingir o objetivo de produzir 500 mil automóveis por ano até 2018.

A Tesla está agora a planear a contratação de cerca de 1.000 pessoas para o laboratório da Grohmann Engineering, começando na Alemanha para criar uma rede mundial de Advanced Automation Centres. O resultado destes esforços, e da inevitável ascensão da automação, de acordo com Musk, será a perda significativa de postos de trabalho – para a qual ele propõe como solução garantir a todos os cidadãos um Rendimento Básico Universal.

Mudança de titulares

A produtora britânica de engenharia e automóveis Rolls-Royce recentemente fez uma parceria com a Microsoft para incorporar o software da Internet das Coisas Cortana nos seus motores de aviões, para criar “aviões inteligentes” conectados. Isto surge numa altura em que a empresa está a começar a adotar a Indústria 4.0 nas suas próprias operações de produção.

Tradicionalmente, a Rolls-Royce era um negócio intensivo em termos de mão de obra. Agora, a queda dos lucros – de 1,6 mil milhões de libras (cerca de 1,9 mil milhões de euros) em 2014 para 1,3 mil milhões de libras em 2015 – forçou-a a modernizar-se.

As novas instalações aeroespaciais da Rolls-Royce em Sunderland, em Inglaterra, mostram como a empresa está a tentar entrar a bordo da revolução da Indústria 4.0. Na fábrica de ventoinhas e turbinas, os robots aceleraram dramaticamente o processo. Para algumas peças, os tempos de produção foram reduzidos de 118 para 30 horas. Criar as máquinas que fazem o disco central do motor demorava 24 horas manualmente. Graças à automação, agora está tudo pronto em 25 minutos.

Algo semelhante está a acontecer na unidade de lâminas da Rolls-Royce em Rotherham – que deverá atingir a capacidade total em 2017. A unidade deverá produzir 100 mil lâminas anualmente, empregando apenas 150 pessoas. Na unidade, um único robot pode numa hora fazer o que demoraria oito horas para três pessoas.

Juntamente com a análise de dados em tempo real, esta automatização pode significar o regresso da produção aos países ocidentais, embora a China esteja também a posicionar-se para este novo paradigma, como revela a segunda parte deste artigo.