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A nova revolução industrial – Parte 2

A Indústria 4.0 pode permitir um regresso à produção, ou pelo menos de parte dela, aos mercados ocidentais, à imagem do que tem vindo a ser feito pela Adidas na Alemanha e nos EUA. Mas países como a China estão igualmente a reunir armas para defender a sua posição neste novo paradigma.

As soluções da Indústria 4.0 estão a ser adotadas por produtores em todo o mundo, desde as pequenas start-ups a nomes bem implementados no mercado. A combinação da robótica e de algoritmos com capacidade de aprendizagem pode aumentar a produtividade, reduzir o consumo desnecessário e acelerar drasticamente a produção (ver A nova revolução industrial – Parte 1).

Dados que geram informação

A análise de grandes quantidades de dados está no centro da Indústria 4.0. «Indústria 4.0 não significa necessariamente automação completa», afirma Carl Diver, investigador da Universidade de Manchester ao WGSN. «Pode também significar extrair dados de forma mais eficiente de cada processo e analisá-los de uma forma muito mais rápida, em vez de esperar dias para obter informação importante», acrescenta.

A BMW está a desenvolver esta abordagem na sua unidade em Spartanburg, na Carolina do Sul. Embora a fábrica tenha uma linha de montagem completamente automatizada, é pela utilização de dados que se destaca. O sistema inteligente de gestão de dados de energia baseia-se em parâmetros inteligentes para registar o consumo energético em 80 máquinas e áreas na fábrica e para detetar qualquer utilização excessiva. Depois do seu lançamento em 2012, demorou apenas algumas semanas para o sistema ter permitido uma economia de um quarto dos custos energéticos para algumas zonas e detetado maus funcionamentos que resultavam em desperdício de energia.

O objetivo da construtora alemã de automóveis é lançar o sistema de forma mais abrangente e reduzir o consumo de energia por automóvel produzido em 45% até 2020 – em comparação com os níveis de consumo de 2006.

A BMW está também a redescobrir os Google Glass (óculos com tecnologia integrada) e a testar o seu potencial na Indústria 4.0: um projeto-piloto também em Spartanburg está a permitir que os funcionários usem os Google Glass para tirarem fotografias ou fazerem vídeos de maquinaria ou ferramentas que estejam a funcionar mal. Os técnicos tinham anteriormente de preencher longos relatórios escritos a dar os detalhes dos problemas. Agora conseguem fazer as fotografias com a câmara dos óculos e enviar as imagens relevantes para os especialistas em manutenção.

Os Google Glass podem também funcionar no modo background – continuando a registar e a armazenar imagens na “nuvem” da BMW a cada dois minutos para uma análise posterior. Uma característica que permite chamadas de vídeo com os Gloogle Glass para ajudar os trabalhadores da manutenção a resolver os problemas à medida que eles acontecem no trabalho.

Os HoloLens – óculos de realidade aumentada da Microsoft, apresentados em Portugal pela primeira vez no passado mês de setembro – podem também ser usadas para soluções semelhantes no futuro.

Produção de volta ao Ocidente

Atualmente, um quarto da produção mundial tem origem na China – isso inclui 80% das unidades de ar condicionado, 71% dos telemóveis e 63% dos sapatos. Como a mão de obra é mais barata no Império do Meio do que na maior parte dos países ocidentais, muitas empresas deslocalizaram as operações de produção para território chinês e outras economias em desenvolvimento. A Indústria 4.0, aponta o WGSN, pode mudar esse paradigma: se a produção puder aumentar significativamente sem um aumento relevante dos custos com trabalhadores, não há razão para que os produtos sejam fabricados em locais distantes.

«Demora seis semanas a entregar algo feito na China ao consumidor final no Ocidente», aponta Detlef Zühlke, professor de Automação da Produção na Universidade Técnica de Kaiserslautern. «Por isso, à medida que estas tecnologias e estes novos modelos mudam a produção, diria que vamos ter de nos preparar para que mais produção regresse novamente aos mercados de consumo», explica ao WGSN.

A Adidas tem vindo a perseguir esse objetivo. Graças a uma parceria com a empresa de injeção de moldes e montagem automatizada Oechsler Motion, em dezembro de 2015, a produtora alemã de equipamento de desporto desenvolveu o projeto-piloto da Speedfactory, em Ansbach, na Alemanha. A unidade, que tem apenas alguns colaboradores altamente especializados e um exército de robots, é capaz de produzir ténis a um ritmo mais elevado e de uma forma mais customizada do que as fábricas tradicionais – para além de ficar geograficamente mais perto do que nunca dos consumidores (ver Calçado nas mãos de robots).

Depois de um período de testes bem sucedidos, a unidade de Ansbach vai iniciar a produção regular em 2017, enquanto uma outra unidade, maior, da Speedfactory está a ser criada em Atlanta, nos EUA (ver Adidas leva produção para os EUA). A longo prazo, a Adidas quer que cada unidade produza cerca de meio milhão de ténis por ano. A empresa está também a propor a ideia de produzir as camisolas da Seleção Alemã no seu país e a tentar abrir mais unidades de produção na Europa Ocidental.

A reação da China

Com a Indústria 4.0 a apanhar o Ocidente, a posição dominante da China na produção mundial enfrenta uma potencial ameaça. Isto surge numa altura em que o país está lentamente a perder a sua vantagem competitiva devido ao aumento dos salários, que subiram 12% ao ano desde 2011.

Em 2015, quando as exportações chinesas registaram a primeira queda desde a crise financeira de 2009, o país lançou a sua própria resposta ao conceito de Indústria 4.0, batizada “Made in China 2025”. O programa estatal pretende atualizar a infraestrutura produtiva local, sobretudo no que diz respeito à tecnologia de informação e automação de ferramentas, mas, mais importante, no que diz respeito à robótica.

Desde 2012, a China começou a comprar mais robots industriais do que qualquer outro país no mundo e está a caminho de ultrapassar o Japão como principal utilizador de robots do planeta em 2016, segundo a Federação Internacional de Robótica.

Várias empresas decidiram substituir os trabalhadores humanos, que imputam custos cada vez mais altos, por robots. A Foxconn – uma empresa sediada em Taiwan que opera na China e produz os iPhones da Apple – anunciou, em 2011, planos de ter um milhão de robots até 2014. O objetivo não foi cumprido, mas até agora a empresa já automatizou algumas linhas de produção e começou a vender os seus robots a outras empresas.

A empresa de eletrónica Cambridge Industries Group, sediada em Xangai, pretende atingir a automação total. Inicialmente, dois terços dos seus 3.000 funcionários serão substituídos por robots, antes de eventualmente transitar para a chamada “fábrica às escuras” – uma unidade produtiva gerida completamente por robots (que não necessitam de luzes acesas para trabalhar).

O desafio não é tecnicamente simples e politicamente é ainda mais complicado. Num país onde 100 milhões de pessoas trabalham na produção, o conceito de Indústria 4.0 na China será difícil de vender, considera o WGSN.