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A nova vaga da moda sustentável

Da transformação de antigas redes de pesca à redução dos desperdícios pela intervenção da tecnologia, passando pelo denim para a vida, há uma jovem geração de designers a desenhar e costurar vestuário com linhas eco-éticas.

Um novo fôlego no design de moda está a incluir a sustentabilidade e a responsabilidade social em todos os processos, numa geração cada vez mais atenta ao mundo que a rodeia, mas cada vez mais alheia à máquina de marketing. Do fornecedor à entrega, passando pelo próprio produto, a ética integra agora todos os passos dados pelos designers interessados, sobretudo, na qualidade – e não na quantidade – dos seus projetos.

A partir desta quinta-feira, 7 de janeiro, as montras da Selfridges, em Oxford Street, Londres, serão dedicadas ao evento anual “Bright New Things”. Este ano, o foco incide nos talentos emergentes do design de moda que têm vindo a desenvolver produtos de forma inovadora e transparente.

Os grandes armazéns britânicos consultaram o Centro de Moda Sustentável para o auxiliar na seleção e apoio a nove designers/marcas, que tomarão conta dos “rostos” da Selfridges. Um dos selecionados receberá um prémio monetário no valor de 30.000 libras (aproximadamente 40.700 euros) para alavancar o seu negócio.

O jornal The Guardian selecionou cinco dos nove eleitos e resume as suas propostas frescas e brilhantes, que considera serem o futuro da moda sustentável.

Katie Jones – crochet com reciclados

Katie Jones gosta de crochet. Tanto que é capaz de passar 80 horas a trabalhar num casaco, a que junta denim ou couro para um distinto trabalho de patchwork. Em conjunto com a mãe, Annie, e o seu braço-direito, Sara Liz Marty, tudo o que Jones produz no seu atelier em Stratford, Londres, é um trabalho de dedicação. «Cada uma de nós tem a sua área de especialização», explicou Katie Jones ao The Guardian. «As minhas peças favoritas são aquelas com denim ou couro, que são trabalhadas com o crochet», acrescentou a designer.

Jones, que concluiu os estudos na Central Saint Martins em 2013, não gosta de desperdícios. Aproveita restos de tecidos e roupas em segunda mão, que depois trabalha manualmente nos seus próprios designs.

A sua coleção para a primavera-verão 2016 é inspirada pelo kitsch Tex-Mex, em cor e textura, com jeans com estrelas e corações multicoloridos, cardigans com arco-íris, vestidos de verão feitos a partir de denim reciclado e trabalhado segundo a assinatura em crochet da designer.

Margot Bowman e Diana Auria – swimwear sustentável

Diana Auria nunca aprendeu a nadar, mas nem por isso deixou de criar uma interessante marca de swimwear. A sua parceira de negócios, Margot Bowman, uma entusiasta nadadora, compensa bem a limitação de Auria dentro de água.

Se Diana Auria percebe quais os ingredientes necessários para um fato de banho lisonjeador, Bowman sabe como fazê-lo divertido e glamouroso. Todavia, o que é realmente importante no trabalho da dupla é o material utilizado para desenvolver as peças. A Econyl, uma poliamida obtida a partir de redes de pesca recicladas e outros desperdícios encontrados no oceano, tinha acabado de chegar ao mercado quando Bowman e Auria estavam a lançar a sua primeira coleção, há dois anos, e as duas foram as primeiras a usá-la. «É poliamida 100% reciclada», explicou Bowman.

Auria e Bowman lançaram a marca depois de a primeira ter concluído os estudos no London College of Fashion, em 2012, onde se especializou em design de lingerie e swimwear.  Na altura, Bowman, companheira de apartamento de Auria, estava a trabalhar como designer gráfica para a The Esthetica Review, que promovia o trabalho de designers de moda sustentável que desfilavam na London Fashion Week. A dupla decidiu unir esforços e talentos e trabalhar numa marca em conjunto.

Martina Spetlova – couro transparente

A marca artesanal de Martina Spetlova trabalha, sobretudo, com couro, que a designer recolhe junto de fornecedores que conhece. «O couro trabalhado à mão é uma assinatura da empresa. Mudamos a textura do couro através de diferentes processos, como a tecelagem e o patchwork. É verdadeiramente tridimensional», explicou ao The Guardian

Ainda que o couro não seja o mais sustentável dos materiais, Spetlova, que no último ano tem vindo a trabalhar com o Centre for Sustainable Fashion para desenvolver o seu negócio da forma mais transparente possível, salienta que apenas usa subprodutos dos industriais da carne, por vezes trabalhando diretamente com os matadouros.

A designer começou também a trabalhar com a Ecco, a fábrica de curtumes reconhecida como a mais sustentável à escala global. «O couro é um material complicado, mas muito precioso», referiu Spetlova, acrescentando que «é por isso que é importante saber de onde vem». Por consequência, o novo website de Martina Spetlova inclui informação sobre os seus fornecedores e respetivos processos de produção.

A par desta caminhada em prol da transparência do seu trabalho, Martina Spetlova, que estudou química na República Checa antes de se mudar para Londres para estudar moda na Central Saint Martins, está a trabalhar para reduzir a zero o desperdício na sua produção. O corte do couro é feito com a máxima precisão, recorrendo a novas tecnologias, e qualquer excedente é usado para acessórios ou é doado a escolas e estudantes de moda.

Faustine Steinmetz – vestuário com tempo

Depois de percorrer um conjunto significativo de tutoriais do YouTube, Faustine Steinmetz desafiou-se a conceber uma versão muito própria de um fato de treino da Adidas. Depois dele, um par de jeans, a que se seguiria uma coleção em nome próprio, em 2013. A designer assume gostar de fazer peças únicas a partir de peças comuns.

«Quando as pessoas pensam em sustentabilidade, referem o trabalho feito à mão e a redução do recurso à eletricidade. Para mim é mais sobre promover a ideia de fazer roupas que levam muito tempo a serem concluídas e que duram muito tempo. O aumento exponencial do consumo é a pior coisa a acontecer no planeta atualmente», argumentou Steinmetz. «Nada é 100% sustentável, mas devemos fazer o melhor que conseguirmos nesse sentido».

Para a sua montra na Selfridges, Steinmetz focou-se no denim, estabelecendo parceria com uma fábrica espanhola, a Royo, nomeada como empresa eco-sustentável em 2012, pela Oeko-Tex Association.

Faustine Steinmetz também está a trabalhar em alternativas para o uso de couro, mas, em última análise, a designer defende a premissa de comprar menos e de forma mais ponderada – “compra minimal”, assim resume Steinmetz a sua definição de moda sustentável.

David Hieatt – denim para a vida

Em 2009, quando David e Clare Hieatt deixaram para trás a marca Howies, fundada pelos dois em Wales, em 1995, era tempo de tentar algo novo. David encontrou a sua missão – recriar a indústria de jeans que outrora garantia emprego a 400 pessoas em Cardigan.

«A nossa cidade costumava produzir jeans», recordou David Hieatt, «Fabricou 35 mil pares de jeans por semana durante 40 anos, era a maior fábrica de jeans britânica. Em 2001 a fábrica fechou e 400 trabalhadores deixaram de ter o que fazer. E é por isso que estamos a lutar, para devolver o emprego a essas pessoas», afirmou.

A fábrica Hiut faz atualmente 100 pares de jeans por semana e emprega 15 pessoas. Cada par demora 80 minutos a fazer e envolve 75 processos. «Oferecemos reparações gratuitas aos nossos jeans para toda a vida. As pessoas percebem que a melhor coisa que podemos fazer pelo meio ambiente é oferecer algo que dure», explicou Hieatt sobre a pegada ecológica da Hiut.

Para a montra na Selfridges, a Hiut irá promover o seu No Wash Club, que encoraja os clientes a não lavarem os jeans pelo menos durante seis meses. «Se forem lavados antes de terem tido tempo de se adaptarem às formas do corpo, os jeans tendem a ficar deformados», explicou Hieatt, acrescentando que «quanto menos forem lavados, menor é a quantidade de água gasta».