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A portugalidade de Miss Dior

O primeiro perfume criado por Christian Dior em 1947, Miss Dior é pela primeira vez objeto de uma exposição. As 15 artistas convidadas são mulheres porque a fragância foi uma homenagem de Christian Dior à sua irmã Catherine, que durante a II Guerra Mundial se uniu à Resistência e foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück, na Alemanha, de onde saiu em 1945. Mais do que a crónica de um perfume, a exposição traça o retrato de Christian Dior desvendando nomeadamente as influências artísticas do designer que começou a sua carreira numa galeria de arte em Paris. O génio criativo de Dior não só revolucionou a alta-costura com o seu primeiro desfile próprio, batizado “New Look” e que rompeu em 1947 com a estética austera do pós-guerra graças a cinturas marcadas e saias volumosas em forma de corola de flor, mas também com a sua visão empresarial. O lançamento em paralelo da sua fragância própria, Miss Dior, aglutinou pela primeira vez «o perfume e a moda como um conjunto», explicou Hervé Mikaeloff, comissário da exposição inaugurada no passado dia 13, à agência EFE. O mítico perfume serviu de inspiração para as 15 obras de arte agora reunidas no Grand Palais, em Paris, que podem ser visitadas gratuitamente até 25 de novembro e que provavelmente depois calcorrearão o mundo, dos EUA à China. E todas as artistas convidadas, de diferentes nacionalidades, entre as quais a portuguesa Joana Vasconcelos, tiveram «carta-branca» no processo de criação, afirmou Mikaeloff. O laço que decora o frasco de perfume e as rosas que caraterizam o seu aroma e que constituíram igualmente uma homenagem do designer à sua casa na Normandia são alguns dos detalhes reproduzidos pelas obras expostas. Por exemplo, a artista plástica portuguesa recriou um grande laço com centenas de frascos do perfume “J’Adore” iluminados com leds, uma peça que batizou “J’Adore Miss Dior”. As rosas, por sua vez, serviram de inspiração para o trabalho da japonesa Tomoko Shioyasu, que reproduziu o movimento desta flor soldando enormes lâminas de papel, e a norte-americana Alyson Shotz esculpiu uma rosa que muda de cor em função da luz e da posição do observador. Já a brasileira Maria Nepomuceno concebeu frascos de perfume com argila, a partir dos quais saem raízes e tentáculos, evocando a natureza. Durante todo o percurso, as criações contemporâneas, realizadas especialmente para a exposição, são abraçadas por vestidos inspirados também pelo perfume desenhados pelo próprio Christian Dior e pelo atual diretor criativo da casa francesa, Raf Simons – a criação de Joana Vasconcelos é “acompanhada” pelo célebre vestido Concerto criado em 1957, que arvora com um sumptuoso laço vermelho no peito. E para espelhar o vínculo de Dior com o mundo da arte, um espaço da exposição recorda o seu passado de galerista com algumas das obras que expôs nessa época, de Bernard Buffet a Marc Chagall. Durante os anos 20 e 30, Dior esteve intimamente ligado ao vanguardismo e, de facto, em 1932 organizou conjuntamente com o seu sócio Pierre Colle, a exposição “La Nouvelle Génération”, que reunia criações de Miró, Giacometti, Bérard e Salvador Dalí. Apesar de o designer ter batizado alguns dos seus vestidos com nomes de pintores como Matisse ou Picasso, esta sua faceta artística é praticamente desconhecida. A galeria de arte não tinha o seu nome porque que os seus pais, conhecidos industriais, ao financiaram o projeto impuseram a condição de que o seu apelido não aparecesse. A crise económica de 1929 obrigou Dior a separar-se das suas obras e a dedicar-se à moda para ganhar a vida, primeiro trabalhando para Lucien Lelong e depois à frente da própria insígnia. Durante os 10 anos que dedicou à sua casa, Christian Dior deixou não só a sua marca na moda, mas também influenciou com a sua visão do negócio, que começou com um pequeno perfume e terminou com um grande império.