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A queda do império? – Parte 1

O boom do vestuário no Bangladesh tornou Mohammad Fazlul Azim um homem rico. Durante três décadas, o seu império cresceu de uma única fábrica para imensas unidades de produção que empregam 26 mil trabalhadores e atingem um volume de negócios anual de cerca de 200 milhões de dólares (154,57 milhões de euros). Azim, que é também membro do Parlamento, beneficiou das políticas do governo para impulsionar a indústria e torná-la uma potência mundial. A sua casa elegante em Daca é um paraíso de luxo com uma piscina no exterior, protegida do caos das ruas da capital. Mas tem uma queixa: os seus custos quase que duplicaram nos últimos anos. É agora tempo para as grandes marcas ocidentais que fornece pagarem mais pelas suas roupas e deixarem de esmagar as margens, declara. «Os compradores não estão a dar nada. Apenas dizem “aumente a sua produtividade”», explica Azim. Nas fábricas neste país do Sul da Ásia com 160 milhões de pessoas, contudo, poucos simpatizam com os magnatas têxteis e os seus problemas. Os retalhistas ocidentais são poderosos, mas também o são os empresários do vestuário. Graças à sua influência política e, agora, a uma nova força policial industrial que esmaga divergências nas suas fábricas, segundo os ativistas, são os próprios empresários que mantêm os salários mais baixos do que em qualquer outra parte do mundo – e muitas vezes escapam às exigências legais de segurança. O colapso de 24 de abril de um edifício de oito andares perto de Daca que albergava várias unidades de produção de vestuário foi um horrível lembrete do falhanço coletivo – das autoridades, empresários e compradores – em assegurar que barato não significa perigoso. A torre Rana Plaza caiu como um castelo de cartas. As equipas de resgaste encontraram 1.127 mortos entre os escombros. Este foi o terceiro acidente mortal em seis meses, o que levanta questões sobre segurança e as condições laborais neste pobre país do Sul da Ásia, que tem no vestuário 80% das suas exportações. Até agora, houve pouca pressão para melhorar as condições de segurança e os salários de 4,5 milhões de trabalhadores do Bangladesh que trabalham nesta indústria. Essa inércia resulta, em parte, de quão profundamente a indústria se tornou numa estrutura de poder. Mais de 30 patrões da indústria de vestuário são membros do parlamento, representando cerca de 10% dos deputados. Outros proprietários, como Mohammed Sohel Rana, o dono do complexo que ruiu, têm fortes ligações políticas: Rana foi um líder local da juventude partidária do partido no poder, o Awami League. Rana foi preso enquanto tentava fugir pela fronteira com a Índia e enfrenta agora acusações de construção ilegal que levou a mortes. Os responsáveis do Bangladesh afirmam que o seu complexo de oito pisos foi construído numa zona de pântano sem as autorizações necessárias. «Pelo menos 50% dos membros do parlamento têm algum tipo de ligação ao mundo dos negócios», afirma Babul Akhter, líder do Bangladesh Centre for Workers Solidarity, uma organização que trabalha com sindicatos. Alega que muitos destes produtores de vestuário com ligações políticas aproveitam a sua influência para desrespeitarem o salário mínimo estipulado por lei. Ativistas como Akhter, que faz campanha por fábricas mais seguras e melhores salários são muitas vezes tratados como inimigos do Estado, num país cuja economia seria devastada se as marcas ocidentais saíssem. Um ativista proeminente, Aminul Islam, pagou o preço no ano passado: com sinais de tortura, o seu corpo foi encontrado a muitos quilómetros do sítio onde foi visto pela última vez. O governo nega as acusações de que teve alguma coisa a ver com o assassinato de Islam, mas a verdade é que no passado ele tinha sido detido e torturado por forças de segurança. A sua morte está ainda a ser investigada e não foram feitas quaisquer detenções no caso. Também Akhter foi preso por incitar a violência de multidões e foi agredido na prisão há três anos após um surto de agitação laboral; hoje afirma ter ainda acusações contra si desde essa altura e é seguido por homens desconhecidos que, suspeita, serem agentes secretos. «Não há razão para o seguir», afirma Mainuddin Khandaker, o segundo burocrata no ranking do Ministério Interno. «Não temos qualquer informação sobre isso», acrescenta. O último reduto do barato À medida que os níveis salariais subiram nos países considerados “fábricas do mundo”, o Bangladesh continua a ser o último reduto do trabalho barato, uma vantagem que ajudou a tornar o país no segundo maior exportador de vestuário do mundo, a seguir à China. Em 2010, o Bangladesh tinha o salário mínimo mais baixo para os trabalhadores das fábricas, segundo os dados do Banco Mundial, atrás do Camboja, o último país a entrar na cadeia de aprovisionamento mundial em 2000. «É o mais baixo de todo em termos de salários», afirma Malte Luebker, o especialista sénior em salários para a Ásia-Pacífico da Organização Internacional do Trabalho (OIT). «Os salários são o ponto-chave», acrescenta. O facto do Bangladesh continuar tão competitivo é, em parte, a história de poderosos retalhistas do Primeiro Mundo a jogar com os donos de fábricas, como Azim, para assegurar os preços mais baixos. É também a história de um governo que asfixia o ativismo laboral tanto para proteger a economia do país como para agradar aos magnatas dos negócios que se tornaram parte das instituições políticas e sociais. É uma situação que serve a todos, incluindo aos consumidores das economias em dificuldades da Europa e da América do Norte, que querem t-shirts e calças a preços baixos de marcas como Wal-Mart, Target, H&M e Loblaw. O que torna tudo isso possível são os trabalhadores do Bangladesh que fazem as roupas, muitos a trabalhar em condições perigosas e alguns a ganhar menos de 2 dólares por dia. Na segunda parte deste artigo, será abordada a importância económica da indústria têxtil e vestuário no Bangladesh.