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A queda do império? – Parte 2

A procura dos preços baixos por parte dos retalhistas ocidentais tornou a indústria têxtil e vestuário, e os seus empresários, em figuras de proa no Bangladesh, não apenas em termos económicos mas também políticos, já que muitos têm assento no parlamento do país (ver A queda do império? – Parte 1). A indústria de vestuário é, efetivamente, emblemática no crescimento do Bangladesh enquanto economia emergente nos últimos anos. Anteriormente um território do leste do Paquistão, o Bangladesh ganhou a independência depois de uma guerra sangrenta em 1971, que deixou a sua economia fragmentada. O país tornou-se sinónimo de uma pobreza desesperada nos anos seguintes, dependente de ajuda externa, com instabilidade política, corrupção e sobrepopulação. Hoje, graças em grande parte ao crescimento explosivo da sua indústria de vestuário, o Bangladesh está incluído nas chamadas “Próximas 11” economias, um termo que a Goldman Sachs usa para descrever países como a Indonésia, o Irão, o México e a Coreia do Sul, que têm o potencial para se tornar algumas das maiores economias emergentes do mundo neste século. Até 2004, o Acordo Multifibras impôs quotas sobre as exportações de têxteis e vestuário de países em desenvolvimento para as nações ricas. Deu a Daca e aos seus rivais quotas de mercado fixas; quando expirou no final de 2004, o Bangladesh preparou-se para uma concorrência ruinosa, sobretudo da China. Mas em vez disso, as suas exportações de vestuário deram um pulo, triplicando após o acordo expirar, para 19 mil milhões de dólares (14,68 mil milhões de euros) no ano fiscal de 2011/2012. Isso diminuiu a diferença das exportações para a China. A escassez de mão de obra, a inflação dos salários e a mudança para produtos com maior valor acrescentado tornaram a China menos atrativa como fonte de aprovisionamento para vestuário. O desmantelamento das quotas levou a uma «cultura de dinheiro rápido» que se espalhou entre uma nova classe de magnatas do vestuário que subiram no mundo da política e dos media, afirma um representante de um grande retalhista americano em Daca. As cadeias ocidentais podem vender vestuário feito no Bangladesh a um preço até 10 vezes mais elevado do que os da porta de fábrica. Começaram a pilhar o país na sua busca incessante por custos o mais baixos possíveis. Direta ou indiretamente, fizeram por vezes negócio com Sohel Rana e os magnatas do vestuário. Salários começam a subir As grandes cadeias de retalho, que oferecem encomendas de grandes volumes, estão estragadas pela oferta. O Bangladesh tem mais de 3.500 confeções de vestuário. Os pactos comerciais que oferecem acesso preferencial aos bens produzidos no Bangladesh também ajudam: a Europa recebe 60% das exportações do país, os EUA 23%. Em oposição a essas vantagens estão as ruas congestionadas, a falta de portos de águas profundas e constantes faltas de energia. A iminente agitação política leva regularmente a greves generalizadas que paralisam a economia e acrescentam pressão aos empresários. Semanas antes do colapso do Rana Plaza, a Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário do Bangladesh (APEVB) afirmou que as greves e agitação social podem ter custado ao país 3 mil milhões de dólares em potenciais novos negócios. Os trabalhadores do vestuário tiveram uma pequena vitória em 2010 depois de meses de protestos violentos por causa dos salários e condições. O governo subiu o salário mínimo mensal em 80% para 3.000 takas (cerca de 38 dólares ou 30 euros). Contudo, apenas uma pequena parte dos trabalhadores recebe o salário mínimo: vários donos de fábricas afirmam que o salário médio nas suas fábricas ronda as 5.000 takas. Esse valor é ainda muito mais baixo do que na China, onde o salário mínimo para os trabalhadores varia entre 154 e os 230 dólares por mês, e no Camboja, cujo salário médio base é de 80 dólares, segundo a OIT. Atraídos pelos custos mais baixos, até os negócios chineses de vestuário estão a transferir-se para o Bangladesh. A Cherry Body Fashions, uma fábrica de lingerie e swimwear numa zona de processamento de exportações nos arredores de Daca, é uma prova clara da deslocalização. O diretor-geral Wallace Chu afirma que há 10 anos atrás, a proprietária da empresa, de Hong Kong, tinha 3.500 funcionários na China. Agora emprega apenas 200 – e 2.500 no Bangladesh. «O meu patrão vai transferir cada vez mais negócio para aqui para sobreviver», indica Chu. As marcas ocidentais pressionam regularmente o governo do Bangladesh e a associação de produtores de vestuário para assegurar que as fábricas são seguras e os trabalhadores recebem salários decentes. Mas, afirma Mikail Shipar, um burocrata de topo no Ministério do Trabalho e Emprego: «eles afirmam que nós devemos aumentar o salário mínimo, mas não parecem muito ansiosos por aumentar os preços das suas compras». Vários donos de empresas, diretores e representantes de retalhistas em Daca, todos sob a forma de anonimato, confirmam que as marcas estão a pagar cada vez menos. Um revelou que um comprador lhe pagou 5 dólares por peça por fazer uma camisa específica em 2011 e depois ofereceu pelo mesmo trabalho 4,50 dólares um ano depois. Outro estimava que os preços caíram 40% nos últimos dois anos. «Eles pagam-nos como se fossem pedintes e pedem qualidade como se fossem um rei», resume Abdul Mannan, que ajudou a abrir a indústria quando era Ministro dos Têxteis no início dos anos 90 e agora detém mais de 12 fábricas no país e no estrangeiro. Por vezes, os compradores recusam negociar porque sabem que a concorrência entre os donos das fábricas por encomendas de grandes volumes é intensa. «É tanto a culpa das marcas como dos donos das empresas, que cobram menos que os concorrentes», considera um representante de uma grande marca americana no Bangladesh. «Se as pessoas estão a baixar os preços sempre, claro que nos aproveitamos disso – por isso os preços vão sempre para baixo». Para além dos preços baixos, a repressão dos sindicatos e a impunidade dos empresários está a gerar revolta e a pôr em causa a continuação do status quo, como se observa na terceira e última parte desta análise ao Bangladesh.