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A queda do luxo

O segmento de artigos de luxo tem sido severamente afetado pela desaceleração da economia chinesa. No entanto, a resiliência do consumidor nacional face à inconstância interna conduziu-o aos mercados externos, reafirmando o seu interesse pelo luxo internacional.

O crescimento das vendas no mercado mundial de bens de luxo pessoais desacelerou este ano entre 1% a 2%, face a 3% em 2014, afetado pela diminuição da procura na China Continental e em Hong Kong, revela um estudo recentemente elaborado pela consultora Bain & Co.

O sector foi igualmente afetado pela estagnação das trocas comerciais, em termos reais, nos EUA, com a valorização do dólar a aumentar as receitas em moeda local, mas a afastar os turistas, que preferem fazer compras na Europa e Japão, onde encontram ofertas mais vantajosas.

No cômputo geral, o mercado, que engloba joias, relógios, moda e acessórios, mas exclui automóveis de luxo, iates e peças de arte, deverá somar 253 mil milhões de euros até ao fim do ano. Este resultado representa um aumento de 13% em taxas de câmbio atuais, face a 2014, anunciou a Bain, no âmbito de um estudo realizado em parceria com o grupo de comércio de luxo italiano Altagamma.

Nos anos de 2011, 2012 e 2013, o crescimento do sector foi de 13%, 5% e 6%, respetivamente, a taxas de câmbio constantes.

A desaceleração deve-se, também, à diminuição da procura russa, particularmente sentida nos seus principais destinos de compras, como Dubai e Milão. Há um ano, ocupavam a segunda posição entre os maiores compradores mundiais de bens de luxo, apenas superados pelos cidadãos chineses, mas o seu poder de compra diminuiu 50% com a desvalorização do rublo.

Aos atuais desafios enfrentados pela indústria soma-se a queda do consumo local entre os consumidores europeus e americanos, afirma Claudia D’Arpizio, partner da Bain em Milão e principal autora do estudo. Simultaneamente, muitas das principais marcas alienaram os consumidores locais, aumentando os preços de determinados itens, como as bolsas best-sellers.

Os aumentos, que D’Arpizio estima terem sido de entre 30% a 50% nos últimos três anos para determinados itens, foram parcialmente despoletados pelo desejo de harmonizar os preços praticados noutras regiões, como a Ásia, onde eram mais elevados, devido às taxas alfandegárias e outros fatores.

«Creio que algumas marcas de luxo se focaram demasiado na China e ignoraram a base local de clientes europeus, pelo que, em consequência, alguns se sentem traídos por essas marcas», sustenta Claudia D’Arpizio. «Aqueles que podem pagar esses bens na Europa começaram a questionar-se sobre o motivo pelo qual deveriam pagar tanto dinheiro por esses produtos», aponta.

D’Arpizio refere que os consumidores locais europeus e americanos optam, cada vez mais, por fazer compras em outlets de desconto, onde encontram preços mais reduzidos.

A Bain estima que o mercado de outlet represente 10% do total das vendas de luxo, com a sua receita a duplicar no decorrer dos últimos três anos, fixando-se em 26 mil milhões de euros.

De acordo com a consultora, os consumidores chineses representam 31% da totalidade das vendas de luxo, seguidos dos americanos, com 24%, e europeus com 18%. Paralelamente, estima que 80% das compras de bens de luxo efetuadas por consumidores chineses ocorram no estrangeiro.