Início Notícias Tecnologia

A revolução da impressão

Em solo americano, a maioria dos aparelhos auditivos está já a ser feita sob medida em impressoras 3D. A US Food and Drug Administration (FDA) aprovou também recentemente os primeiros comprimidos impressos a 3D. Os fabricantes de automóveis começaram a usar a mesma tecnologia na produção de peças e, no ano passado, assistiu-se à primeira demonstração de uma impressora digital que produz placas de circuito multicamada padronizadas.

Indústria farmacêutica, medicina, sector automóvel e eletrodomésticos são apenas algumas das áreas que enfrentam uma profunda mudança, analisa a Harvard Business Review (HBR).

Nos próximos anos, espera-se que a impressão 3D redefina a fabricação e distribuição em termos globais. A tecnologia pode transformar as cadeias de aprovisionamento, os modelos de negócio, o relacionamento com os clientes e até mesmo o próprio empreendedorismo.

Pode fazer aos bens físicos o que a computação na nuvem está agora a fazer com os serviços digitais, o que o PC, a Internet e a mobilidade inteligente fizeram com a computação pessoal e o que a terceirização fez ao desenvolvimento de software e processamento de negócios: levar a distribuição em massa e a inovação para o próximo nível, enquanto se realinha a própria geografia do trabalho e do comércio.

Essencialmente, o processo de produção “aditivo” da impressão digital promete ser menos dispendioso do que as técnicas mais convencionais de fabricação “subtrativas” – algo como imprimir camada por camada, em vez trabalhar um bloco de material num produto final.

Inovação, personalização, velocidade e localização estão também entre as oportunidades que a impressão 3D tem para oferecer. A tecnologia deverá levar a reduções no custo do trabalho, investimento de capital, transporte e stock. Por exemplo, os produtos impressos de acordo com a procura reduziriam significativamente os stocks mantidos pelos fabricantes, grossistas e retalhistas dos EUA, de acordo com um dos principais analistas da indústria de tecnologia.

Não obstante, os líderes de desenvolvimento estratégico corporativo precisam de analisar todas estas considerações e de estar preparados para que esta tecnologia ecoe através de várias áreas – não só no desenvolvimento de produtos e no fabrico, mas também nas finanças, a nível fiscal e jurídico, nos recursos humanos e nas tecnologias de informação.

Em algumas indústrias, a impressão 3D deverá atingir o mainstream num período de três a dez anos. Como tal, as equipas de executivos precisam de avaliar o impacto da tecnologia antes de a adotarem. Estas devem enquadrar a sua análise em termos de oportunidades e ameaças e, claro, fazer muitas perguntas.

Como exemplo das complicações futuras, a HBR propõe uma análise a nível fiscal.

Cada um dos potenciais benefícios de negócios da impressão 3D carrega implicações fiscais que podem alterar a equação para qualquer eficiência operacional antecipada ou retorno sobre o investimento.

O risco fiscal enfrentado pelas empresas já está no seu nível mais alto à escala mundial, com os modelos de negócios digitais globais a colocarem desafios sem precedentes às autoridades fiscais.

Na verdade, as autoridades que têm vindo a trabalhar nas orientações multilaterais para a tributação da economia digital adiaram até 2020 algumas questões fundamentais, como a caracterização das receitas das empresas num mundo digital. Ao fazê-lo, identificaram a impressão 3D entre as questões mais difíceis.

O que acontece, por exemplo, se o valor da propriedade intelectual subjacente a um produto ultrapassar o seu valor de produção?

Como e onde a propriedade intelectual da tecnologia 3D é detida e autorizada será uma questão fundamental para as relações comerciais e a caracterização do rendimento obtido a partir delas.

Isto não só irá desafiar os cálculos atuais dos departamentos fiscais, mas vai também colocar uma pressão crescente sobre os departamentos jurídicos que lidam com as questões da propriedade intelectual e a gestão de risco. A pirataria de propriedade intelectual será outra complicação.

E se as impressoras 3D morarem em casa dos consumidores, como alguns investigadores sugerem, com as compras online impressas livremente? Como poderá o ROI (Retorno sobre Investimento) ser calculado por antecipação, entre os muitos impostos diretos e indiretos que entram em jogo, com taxas na Europa que podem variar entre os 3% e os 27%?

Considere-se o exemplo relativamente simples dos direitos aduaneiros: a impressão 3D vai mudar os fluxos transfronteiriços de bens tangíveis. Ainda que as matérias-primas ou componentes utilizados em impressoras 3D possam atravessar as fronteiras fisicamente, o principal valor de um produto é definido por esquemas intangíveis transmitidos digitalmente.

Confrontados com a perda de receitas aduaneiras consideráveis, os governos podem procurar impor novos impostos sobre essas plantas e outros tipos de propriedade intelectual.

E, apesar de os diretores financeiros saberem que têm que ajustar custos, riscos e ativos cada vez que mudam suas cadeias de aprovisionamento, podem não perceber o quanto a impressão 3D pode testar os modelos existentes para tais preços de transferência.

A impressão 3D ainda não transformou a economia – é ainda muito cedo para responder às inúmeras perguntas que esta nova tecnologia disruptiva poderá acarretar. Todavia, sugere a HBR, não é demasiado cedo para começar a definir as perguntas e o planeamento para cenários possíveis.

Análise de oportunidades

Qual seria o custo/benefício para a empresa se estreitasse a sua cadeia de aprovisionamento e transferisse a produção para mercados mais próximos?

Como pode a impressão digital melhorar a inovação, desenvolvimento de produtos e a velocidade da empresa?

Como pode a impressão digital e a sua promessa de customização em massa mudar o relacionamento da empresa com os clientes?

Há novas linhas de negócios que a empresa apenas pode executar na íntegra num mundo 3D?

Análise de ameaças

Como podem os rivais explorar a impressão 3D em termos de benefícios de velocidade, custo e personalização para competir contra a empresa?

Como vai a empresa proteger a propriedade intelectual de pirataria ou de outra perda de valor?

Pode a marca perder qualidade ou sofrer outros danos com os designs da empresa distribuídos e modificados num modelo de economia compartilhada?

Pode a proposta de negócio 3D ser prejudicada por custos fiscais?