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A revolução do consumo – Parte 1

A usar um cardigan de brocado floral e com um smartphone Huawei, Guo Qian, 22 anos, fala das suas mais recentes compras no Taobao, a maior plataforma de comércio eletrónico da China. Enquanto administrativa, Guo tem um salário de apenas 3.000 yuans (cerca de 370 euros) por mês e gasta a maior parte dele. Não só gasta quase todo o seu dinheiro, como também gasta quase toda a pensão mensal de 1.000 yuans do pai em bijutaria e vestuário no Taobao. «Às vezes sinto-me culpada por usar o dinheiro dele, por isso compro-lhe algumas roupas», conta. Guo, nascida em Zhengzhou, já tem o seu próprio apartamento – os pais ajudaram a financiar a compra no ano passado – e está na subida para se juntar à crescente classe média do país. Com Pequim a tentar conseguir uma enorme mudança macroeconómica – para um maior consumo e menor investimento, o crucial «reequilíbrio» em que a nova liderança da China está empenhada e o resto do mundo espera que aconteça – são jovens consumidores como Guo Qian que podem ser a chave para essa transição. Educada numa era de prosperidade sem precedentes, Guo, tal como muitos outros membros daquela que é conhecida como geração pós-anos 80 (nascidos depois de 1980) tem uma resposta muito diferente da dos seus pais no que diz respeito à questão económica central: gastar o dinheiro que tem ou poupá-lo? «Não poupo de todo», revela. «Porque deveria fazê-lo?», questiona. A sua atitude de “gastar se tiver”, argumentam alguns economistas, pode ajudar a desbloquear o aumento no consumo que a China necessita urgentemente para reequilibrar a sua economia na próxima década, pondo fim a uma era de crescimento impulsionado pelo investimento. «Este grupo dos 18 aos 35 anos, por várias razões, são muito mais otimistas e mais abertos ao risco, porque ainda não experienciaram maus tempos», sustenta Benjamin Cavender, analista principal associado na china Market Research. «Tendem a ter um rendimento disponível relativamente elevado em relação ao seu rendimento total e tendem a não poupar muito», acrescenta. Esta mudança geracional no pensamento, em conjugação com o número de pessoas mais prósperas nas antigas províncias pobres do país – como Henan, localidade onde nasceu Guo – está a mudar a paisagem económica da China. Hoje, as cidades costeiras no leste da China representam cerca de 35% do consumo anual de 18 biliões de yuans no retalho. Isto reflete a extensão em que as cidades como Xangai e Guangdong prosperaram em comparação com o resto do país desde a abertura económica ddo império do Meio há 30 anos. O aumento do rendimento no interior da China – com as empresas a mudarem a capacidade de produção para longe do leste, em busca de mão de obra mais barata e novos mercados – está a mudar o equilíbrio económico do país. «Ainda vai haver crescimento na costa. Mas é a na primeira linha das províncias do interior – Jiangxi, Henan, Anhui – que se vai ver o crescimento mais significativo no consumo», acredita Jeff Walters, diretor-geral em Pequim no Boston Consulting Group (BCG). «Se olharmos para os próximos anos, teremos muitos consumidores cujos rendimentos estão a aumentar e estão prestes a cruzar a entrada nos níveis de rendimento onde as famílias se vão sentir mais confortáveis a gastar mais», explica. A zona de conforto emergente tem implicações macroeconómicas consideráveis. Hoje, a taxa de poupança das famílias chinesas é de cerca de 28%, uma das mais elevadas do mundo. A maior parte dos economistas culpam uma rede de segurança social ainda em construção pelo facto das taxas de poupança estarem elevadas e o consumo baixo. Mas a continuação do crescimento forte dos salários está a levar as famílias chinesas a perderem o controlo do consumo. Nas áreas urbanas, o rendimento total médio per capita aumentou quase 30% desde o final de 2010, enquanto o rendimento disponível per capita também subiu cerca de 30%. Helen Mees, professor de economia na Universidade de Nova Iorque, prevê que a taxa de poupança das famílias caia para 24% em 2020. Na segunda parte deste artigo irá ser analisada a forma como o crescimento do país no interior está igualmente a contribuir para esta “febre” consumista.