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A revolução do outdoor – Parte 1

O crescimento do segmento outdoor, acompanhado da emergência de um novo público seletivo, tem contribuído para a criação de novos negócios, destinados a satisfazer esta nova geração de aficionados pela natureza.

Denominado “o gigante económico negligenciado”, a popularidade das atividades outdoor está em crescendo e rapidamente a tornar-se um importante motor de crescimento económico. Mais de 140 milhões de americanos gastam coletivamente 646 mil milhões por ano em atividades recreativas ao ar livre e, de acordo com um estudo recente, os consumidores americanos estão a «despender mais em equipamento de ciclismo e viagens (81 mil milhões de dólares) do que em bilhetes de avião e taxas (51 mil milhões)».

O Reino Unido tem, também, testemunhado um crescimento substancial nesta área – os adultos britânicos realizaram quase 3 mil milhões de visitas a espaços naturais em 2013 e 2014 (o maior valor em cinco anos), somando 17 mil milhões de dólares à economia britânica. A China regista um crescimento similar. O seu mercado de outdoor está avaliado em 3 mil milhões de dólares, face aos 161 milhões assinalados há uma década.

Este aumento global da procura pode ser justificado de duas formas: os consumidores privilegiam, cada vez mais, as experiências em detrimentos de produtos físicos e, à medida que a atividade online continua a aumentar, o mesmo acontece com a necessidade de relaxamento ao ar-livre.

Para muitos consumidores, a desintoxicação digital não é apenas um conceito popular mas uma necessidade semanal. Estudos recentes demonstram os resultados positivos da ecoterapia (terapia feita através da interação com a natureza) e consideram que as atividades ao ar livre permitem baixar os níveis de stress e melhorar o humor, assim como aumentar a autoestima.

Cura na natureza
Criado em 1996, o conceito de ecoterapia tem sido considerado pelos profissionais da área da saúde como mais um dos chavões que marcaram o movimento New Age, até ao lançamento de um estudo realizado pela Universidade do Essex em 2007, que veio revelar os benefícios de um passeio no campo junto de 71% dos pacientes que sofrem de depressão, contribuindo para o alívio dos sintomas.

Um estudo de 2014, publicado na revista Environmental Science & Technology, demonstrou a existência de uma relação entre a saúde mental dos residentes de áreas urbanas e o acesso a espaços verdes. Outro estudo estabeleceu uma relação direta entre a exposição ao ar livre e o reforço do sistema imunitário.

Nos EUA, o Centro de Controlo de Doenças e a Associação Nacional de Recreação e Parques criou o programa “Park Prescription”. Robert Zarr, diretor do programa no Distrito de Columbia, prescreveu mais de 600 receitas, recomendando tempo ao ar livre, como forma de diminuir o «impacto de doenças crónicas como a obesidade, asma e doenças do foro mental».

«Está na altura de superar as meras recomendações de dieta e exercício. Está na altura de trabalharmos com as nossas comunidades e com os recursos naturais da nossa nação, como forma de incentivar os americanos a moverem-se mais no exterior», desafiou Zarr.

Campos para adultos
Os campos de verão, tradicionalmente destinados ao público juvenil, incluem agora modelos para adultos. De acordo com a plataforma grownupcamps.com, os campos para adultos têm crescido uma média de 10% ao ano na última década, com mais de um milhão de americanos adultos a frequentar estes espaços em 2014.

Nos últimos meses, têm surgido diversos campos de verão destinados exclusivamente a adultos, conjugando atividades de outdoor, como passeios de caiaque e natação, com jogos infantis, como o tradicional jogo das escondidinhas e da macaca, assim como atividades de resort.

Localizado no estado do Connecticut, o Clube Getaway é um campo destinado àqueles que «procuram reviver as suas memórias de infância». Os hóspedes são dirigidos a cabines exclusivas, dotadas de sistema de ar condicionado e serviço de limpeza, e são encorajados a participarem em atividades diárias, como aulas de trapézio, dança de varão, slide e escalada. As atividades noturnas incluem jogos de bebidas e jantares gourmet.

O Campo Bonfire, no estado de Nova Iorque, especializou-se em atividades de grupo, como o jogo-do-mata, da captura da bandeira e fogueiras noturnas.

A nova economia direta
Ainda que a economia partilhada tenha prosperado em ambientes urbanos por alguns anos, as economias ponto-a-ponto estão ainda a despontar na indústria de recreação ao ar livre. O novo mercado campista-para-campista permite reduzir os custos da viagem e equipamentos, proporcionando uma maior disponibilidade de investimento na exploração e atividades outdoor.

«Não está relacionado com a posse do produto mas sim com a variedade de experiências. Os consumidores não querem comprar equipamentos para uma experiência», afirmou Lorna Caputo, gestora na Associação da Indústria de Outdoor.

Empresas como a Gear Commons e outdoors.io partilham ou arrendem material recreativo de outdoor mediante a localização do utilizador. O consumidor insere o seu destino e pesquisa o equipamento necessário à atividade a praticar, como campismo, surf ou escalada.

A plataforma Hip Camp surge como o equivalente ao Air BnB da indústria de outdoor, plataforma de arrendamento temporário de alojamentos, que inclui 16.000 parques de campismo, localizados nos EUA, identificados por detalhes da paisagem, comodidades e atividades próximas. A plataforma Gamping é a versão luxuosa do Hip Camp, disponibilizando espaços de campismo de luxo em 28 países.

Na segunda parte do artigo serão abordadas outras facetas da transformação da indústria de outdoor, entre elas a emergência do campismo radical, a popularização de equipamentos de campismo de reduzida dimensão, que acompanham uma preocupação crescente com a sustentabilidade da atividade, a criação de retiros modernos e o equilíbrio entre o quotidiano profissional e a prática de atividades de outdoor.