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A segunda vida de Galliano

Peça a peça, Galliano está a desconstruir e a construir uma nova história para a Margiela», explicou a casa de moda francesa num comunicado sobre esta primeira coleção. O designer, de 54 anos, considerado um dos talentos de moda mais geniais da sua geração, foi despedido da Dior em 2011, depois de ter sido publicado um vídeo em que fazia insultos enquanto estava bêbedo num bar em Paris. Desde então manteve-se na sombra e alguns dizem que nunca vai ser perdoado, mas a Maison Margiela deu-lhe uma segunda hipótese ao nomeá-lo diretor criativo em outubro. A coleção que apresentou misturou o seu estilo teatral e exuberante com o visual mais minimalista da marca. Os primeiros modelos mostraram uma série de casacos transformados em roupa interior, em preto e vermelho, com as mangas do avesso, penduradas como laços. Vestidos maxi em veludo, um bodysuit com estampado leopardo sob um vestido rasgado pelo tornozelo, um trenchcoat vermelho em lã e chiffon e fatos de calça e casaco em seda preta fizeram parte das propostas do criador, que passou os mesmos 24 modelos do avesso, um «testemunho honesto do processo, das tentativas e erros», segundo o comunicado da marca. O regresso de Galliano, uma espécie de segundo ato de uma carreira considerada brilhante, foi aplaudido por alguns dos maiores nomes da moda, incluindo a supermodelo Kate Moss, Anna Wintour, diretora da revista Vogue americana, e o designer de calçado Manolo Blahnik. «Achei que o desfile foi sensacional», afirmou a editora de moda britânica Hilary Alexander no final. «É isto que temos perdido. Foi John Galliano no seu pico absoluto de perfeição, combinando as capacidades de um atelier fabuloso com a sua própria visão romântica e fantástica», acrescentou. Para o diretor-executivo da Burberry, Christopher Bailey, o desfile foi «mágico», enquanto Blahnik, em declarações aos jornalistas, classificou o desfile de «fabuloso! Estou satisfeito por ele estar a trabalhar novamente». Para Alexandra Shulman, editora-chefe da Vogue britânica, a coleção foi um «modelo. Não se pode propriamente olhar para o desfile pelas roupas, foi mais mostrar o espírito do que ele queria fazer». O anúncio de que o primeiro desfile de Galliano iria ter lugar em Londres, a cidade onde ele se formou e criou nome, foi visto em alguns círculos como uma desconsideração de Paris, o berço e casa da alta-costura. Subsequentemente, a coleção saiu do calendário de alta-costura de Paris no final de janeiro, embora tenha sido mostrada por marcação. «Foi muito bem feita e recordou-nos do talento que ele é», afirmou Natalie Massenet, presidente do conselho de administração do British Fashion Council e fundador da retalhista de moda online da Net-a-Porter. A Maison Margiela indicou que a escolha de Londres para o desfile refletiu tanto as ligações pessoais de Galliano como a história e herança na alfaiataria da cidade. Galliano nasceu em Gibraltar, um território britânico, mas cresceu em Londres e estudou na capital antes de se mudar para Paris, primeiro para a Givenchy, depois na Dior. Foi visto como uma força por detrás do enorme sucesso da Dior durante quase 15 anos na casa de moda italiana. Mas a sua carreira implodiu depois do escândalo em Paris. Foi considerado culpado em setembro de 2011 de fazer insultos antissemitas em público – um crime sob a lei francesa – embora tenha sido poupado à cadeia, tendo apenas sido multado. Pediu desculpas, atribuiu os seus insultos ao álcool e drogas e esteve em reabilitação. Desde então, o designer tem estado praticamente afastado do mundo da moda, para além de uma residência no atelier de Oscar de la Renta em Nova Iorque em 2013. A excomunhão de Galliano terminou no ano passado após uma decisão de Renzo Rosso, presidente do grupo OTB, que detém a Maison Margiela, de o contratar. Rosso disse que sentiu «uma emoção incrível» e prometeu que o próximo desfile terá lugar em Paris. «Podia chorar, os vestidos são lindos, o que ele fez é incrível», afirmou. «O John vem de Londres. Ele começou aqui e disse-me “quero começar outra vez em Londres”. Esta foi apenas uma forma de dizer ok, estamos de volta», acrescentou. Galliano não foi uma escolha óbvia para a casa fundada pelo conhecido designer belga Martin Margiela. «Na Margiela, sempre ouve uma admiração pelo lado mundano das roupas, os pequenos detalhes que são normalmente ignorados, os vincos, os forros… enquanto Galliano pode exaltar o esplendor da peça de vestuário», explicou a historiadora de moda Lydia Kamitsis à AFP. Mas, segundo apontou, há temas comuns: «têm a mesma perspetiva em termos de técnica, o apreço pelo trabalho feito à mão, atenção ao detalhe e a análise da história». Quanto a este regresso ao “mundo dos vivos” de Galliano, Kamitsis lembrou que «o mundo da moda tem uma memória muito curta – adora o que antes odiava, odeia o que já adorou, mata tanto como faz nascer. É um mundo muito cínico e volátil».