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A segunda vida do vestuário

Com a questão da sustentabilidade a ganhar uma importância crescente junto dos consumidores na hora da compra, retalhistas de moda como Zara, Mango ou H&M estão a investir cada vez mais na economia circular do vestuário.

Inditex [©Inditex]

São já muitas as insígnias que brandem a bandeira da economia circular, com projetos de recolha de vestuário em fim de vida nas suas lojas. A espanhola Mango, através de uma parceria com a Moda re-, recolheu 42 toneladas de peças no ano passado para reutilização, reciclagem e valorização energética, dispondo de 610 pontos de recolha em 11 países, numa iniciativa que será alargada este ano a mais 200 lojas em países como a Áustria, Itália, Polónia, Turquia, Suíça e Rússia.

A Inditex tem contentores para recolha de roupa usada nas lojas das suas oito insígnias e está a trabalhar com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e universidades espanholas para criar novos têxteis a partir da reciclagem de vestuário.

H&M [©H&M]
A H&M, por seu lado, recolheu no ano passado, segundo o seu relatório de sustentabilidade de 2020, 18.800 toneladas de têxteis, o equivalente a mais de 94 milhões de t-shirts, e aprofundou a parceria que tem, através da sua fundação, com o Instituto de Investigação de Têxtil e Vestuário de Hong Kong, que já permitiu desenvolver a máquina de reciclagem Looop, que instalou em outubro de 2020 na loja de Estocolmo e que permite transformar peças de vestuário em fim de vida em novas fibras.

Em busca da circularidade

A Timberland é a mais recente a acelerar a circularidade. A marca americana apresentou um programa de recolha de vestuário, calçado e acessórios que começou em agosto nos EUA. Os itens recolhidos serão reparados para revenda ou reciclados para fabricar novos produtos. A iniciativa deverá ser expandida à Europa, Médio Oriente e África no outono e à região da Ásia-Pacífico na primavera do próximo ano.

Timberland [©Business Wire]
O programa surge cerca de um ano depois da Timberland ter anunciado a intenção de «ter um impacto positivo líquido na natureza» até 2030. «Este programa de recolha é um passo crítico para perseguir o objetivo de circularidade a 100%, ao mesmo tempo que responde à crescente procura dos consumidores por design responsável e opções progressivas de retalho», revela Susie Mulder, presidente global da marca. A Timberland desenvolveu o programa com a ReCircled, uma empresa de reutilização e reciclagem com instalações no Nebraska, nos EUA, e em Itália.

Já a Decathlon é uma de 18 entidades de cinco países envolvidas no projeto SCIRT, que tem como objetivo desenvolver soluções para os resíduos do vestuário e reciclagem, avançando na moda circular. O projeto, que é financiado pela UE, é coordenado pelo centro de investigação belga VITO e pretende gerar uma solução de reciclagem de ciclo fechado para têxteis pós-consumo, estimular o design e práticas de produção conscientes, criar novas oportunidades de negócio com o impulsionamento da atividade nas cadeias de valor têxtil e aumentar a consciência do público em geral para o impacto ambiental e social do consumo têxtil.

«À medida que as marcas de vestuário estabelecem objetivos ambiciosos e fazem promessas para incorporar fibras recicladas nos seus produtos, os têxteis que são deitados fora estão a acumular-se em abundância em todo o mundo», explicam as 18 entidades em comunicado. «Embora pareça que os astros da oferta e da procura estão alinhados para esta parte da economia circular, a verdade é que menos de 1% dos resíduos têxteis são reciclados em novas fibras têxteis, de acordo com um estudo de 2017 da Fundação Ellen MacArthur», salientam.

O SCIRT, que tem uma duração de três anos, vai criar um sistema de reciclagem completo para vestuário deitado fora, envolvendo diversos atores da cadeia de aprovisionamento e focando-se na reciclagem de fibras naturais e sintéticas, assim como em misturas de fibras.

Luxo adere

Nesta onda da reciclagem, nem o luxo se mostra indiferente, como comprova a parceria estabelecida entre a LVMH e a start-up francesa Weturn, que criou uma cadeia de reciclagem dedicada a transformar têxteis não vendidos, rolos de tecido e desperdícios do corte de grandes empresas de moda em novos fios e tecidos de qualidade 100% rastreáveis e produzidos na Europa. A Weturn trabalha já com várias marcas da LVMH na reciclagem dos seus têxteis e na reutilização destes materiais reciclados em produtos novos, sejam tecidos, uniformes para as equipas, embalagens, acessórios ou projetos de investigação para a integração em produtos de pronto-a-vestir.

«Esta parceria permite-nos dar mais um passo para atingirmos a nossa ambição no campo da circularidade criativa, que é uma das quatro prioridades estratégicas da LIFE 360, a nossa política ambiental para os próximos 10 anos», afirma Hélène Valade, diretora de desenvolvimento ambiental do grupo LVMH. «A Weturn oferece, às nossas casas de moda, a oportunidade de reciclarem os seus produtos acabados não vendidos, os tecidos de marca e as embalagens têxteis na forma de bobines de fio. Isto cria um ecossistema completo à volta da circularidade criativa, que é uma fonte de inspiração para os nossos designers», explica.

A Weturn criou uma cadeia de reciclagem exclusiva que dá, aos seus clientes, acesso a uma rede de especialistas em logística, empresas de reciclagem, fiações e produtores de têxteis unidos no objetivo comum de conservar recursos e matérias-primas. A start-up assegura que desenvolve e distribui novas matérias-primas recicladas de elevada qualidade a preços competitivos alinhados com o mercado, permitindo abrir novas perspetivas económicas para a reciclagem.

Weturn [©Weturn]