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«A situação de desfiles digitais não me diz muito, aliás não me diz nada»

O Portugal Têxtil conversou com Miguel Vieira, antes do aguardado regresso à passerelle do Portugal Fashion, que revelou dois grandes desejos: incluir novamente o segmento infantil nas suas coleções e voltar a exportar para a China, um mercado que lhe foi bloqueado por existir um registo de marca com o mesmo nome.

Miguel Vieira

É o único português a integrar o calendário oficial da semana da moda masculina de Milão e está hoje de volta à passerelle do Portugal Fashion, no anunciado regresso ao novo normal ou na almejada era pós-covid, ainda que sob a ameaça do vírus bem patente neste mundo globalizado. Em entrevista ao Portugal Têxtil, Miguel Vieira revisita os duros momentos vividos na era covid e confessa os sonhos que ainda lhe faltam dar vida.

Como correu este ano e meio marcado pela pandemia para a marca Miguel Vieira?

Às vezes é um bocado difícil dissociar o Miguel Vieira marca do Miguel Vieira pessoa. Mas acho que tanto em termos de marca, como a título pessoal esta pandemia serviu, no fundo, para eu descansar e pôr as ideias no sítio.  Andava sempre de um lugar para o outro, entre aeroportos, hotéis, feiras, aviões… e de um momento para o outro ganhamos mais tempo, e ajuda-nos a refletir. Não significa que este tempo fosse para criar coisas novas, porque o momento é um pouco negro e, por isso, não é muito bonito para poder criar, mas o facto de estar em casa permitiu focar-me, tirar ilações e pensar no futuro. Relativamente à parte comercial, foi um desastre total porque as lojas todas fecharam obviamente e isso ressentiu-se nas vendas da minha marca.

Esta pandemia fez-lhe repensar a Moda?

Sim, fez-me pensar bastante. Não criei muita coisa, apesar de que consegui fazer desfiles.

Desfiles online?

Sim, desfiles online.

Que feedback obteve desses desfiles digitais?

Correram bem mas, se em 1998, quando eu comecei com a minha coleção, me  dissessem que a minha vida seria isso, que os desfiles seriam assim, que não haveria público, calor humano ou glamour, que não é uma palavra que goste muito de utilizar, mas o glamour próprio de um desfile, que é eu escrever o convite à mão e enviar para a pessoa, receber os jornalistas, receber os meus convidados, andar na primeira fila a ver isto e aquilo, haver palmas …eu se calhar optaria por outra profissão porque a situação de desfiles digitais não me diz muito, aliás não me diz nada. Primeiro porque dá muito trabalho fazer um vídeo de cinco minutos e depois porque não tem o impacto de um desfile físico.

A coleção para um desfile online é menor do que a habitual?

Não, pelo contrário. Não sei o que é que aconteceu com as pessoas, mas tornaram-se um bocadinho mais exigentes. Se antigamente a coleção, vamos imaginar, tinha 100 peças, hoje em dia tem que ter mais e as pessoas compram menos. Portanto parece que as pessoas querem mais.

[©Miguel Vieira]
[©Miguel Vieira]
A nível de materiais fala-se muito na sustentabilidade e que a pandemia veio impulsionar, de certa forma, a economia circular. O Miguel está a repensar a sua moda nesta perspetiva?

Se há pessoa que pensa há anos na sustentabilidade sou eu. Posso-lhe dizer que não tenho cor partidária, mas fiz parte do Governo, há já dois mandatos, na área da moda e fiz um programa de sustentabilidade. Era um tema que não se falava ainda na altura, mas que eu já pensava. Foi uma coisa que eu tentei fazer sempre ao longo da minha vida profissional, não só nessa área como em “n” áreas, nomeadamente na parte digital, na parte das redes sociais…

Mas nas suas coleções tem dado prevalência aos materiais ditos sustentáveis?

Sim, dou prevalência há bastante tempo. Agora, muitas vezes não é fácil encontrar um todo e conseguir que, vamos imaginar num sapato que tem não sei quantos materiais diferentes, todos eles tenham características distintas em termos de sustentabilidade.

Nota, de certa forma, que o mercado volta a mexer? Já há alguma retoma?

Sim. Tive vários clientes que mal puderam viajar, apanharam um avião para virem a Portugal comprar as nossas coleções. Portanto sente-se isso, as coisas a mexer. É diferente comprarem fisicamente, onde podem tocar o produto, do que através de imagens.

[©Miguel Vieira]
Qual é o principal mercado atualmente?

São vários, não temos um específico. Vendemos sempre para muitos, não muito nem em quantidade.

Onde se encontram os melhores compradores da marca Miguel Vieira?

Na Europa. Fora da Europa serão a África do Sul, Angola ou Moçambique. Temos ainda clientes no México, Argentina e Japão, e outros mais pontuais.

Das linhas comercializadas, qual tem mais peso no volume de negócios?

O vestuário e o calçado.

Mas está tudo na mesma fasquia ou consegue distinguir o vestuário do calçado?

Não, estão iguais. Uma área muito forte é a parte de óculos, porque já existe há muitos anos e temos mais de 300 modelos de óculos, desde as linhas para o sol até às linhas para óculos graduados.

[©Miguel Vieira]
Gostava de incluir novamente o segmento de criança na marca?

Essa era uma área que eu gostava muito e que me continuam a pedir para relançar. Mas é também um nicho complicado para a minha marca. Isto porque a Miguel Vieira Júnior ia dos quatro até aos 14 anos, e, por exemplo, no caso dos sapatos, uma menina hoje de 12 ou 13 anos calça facilmente o tamanho 38 ou 39. O valor do calçado de criança é, à partida, inferior ao de adulto, e o que acontecia era muitas vezes a senhora acabava por comprar a linha nesse segmento. Assim como uma t-shirt, ou par de calças, porque hoje um miúdo dessa faixa etária já veste tanto como um adulto e o valor entre as duas linhas é distinto. Apesar de se gastar os mesmos metros de tecido, há uma certa dificuldade em trabalhar com este segmento para não colidir com o de adulto. Tínhamos de andar constantemente a usar na coleção a palavra Júnior para a diferenciar.

Falando da coleção para a primavera/verão 2022, já apresentou em Milão a parte de homem. Qual foi o tema e quais são os principais destaques?

O tema foi o ADN de cada um, que fogem a estereótipos, protagonizando

a libertação de rótulos impostos pela sociedade que nos limitam como indivíduos – uns são punk, outros rockabilly, … portanto, existem vários grupos – e como é que as pessoas se comunicam na maneira como se vestem. Nesta coleção introduzi muita cor para tornar o mundo mais colorido, em oposição à característica da minha marca, que é habitualmente monocromática. Alias, o preto e branco são as tonalidades pelas quais sou reconhecido e isso deixa-me bastante feliz porque enquanto marca consigo ter uma traça minha. Apesar de, nos últimos anos, ter vindo a incluir coordenados com cor, decidi intensificar nesta coleção, tornando-a mais alegre.

O regresso à Milan Fashion Week foi positivo? Milão é a sua segunda casa?

Correu muito bem.  Eu toda a vida fiz vários desfiles em várias Fashion Weeks internacionais, nomeadamente Madrid, Barcelona, Istambul, S. Paulo, Praga, Nova Iorque, Paris, etc., mas o meu foco foi sempre, sempre a Milan Fashion Week.

E podia pura e simplesmente ter morrido na praia mas fui lutando sempre com o foco de entrar na Camera Nazionale della Moda Italiana, de poder desfilar na Fashion Week de Milão, ao lado de marcas italianas como a Prada, a Gucci, a Dolce & Gabbana ou a Fendi. Portanto, foi uma grande vitória ter conseguido entrar no calendário oficial onde só estão italianos e ter a benesse depois de ver o meu trabalho nas revistas de moda de referência mundial e em publicações nos EUA, na India ou na Austrália.

Perspetivas para o futuro?

Gostava de continuar neste trajeto enquanto criador de moda. Gostava de conseguir resolver uma situação complicada que tenho com a China há muitos anos, que é a utilização do nome Miguel Vieira naquele mercado. Estamos agora com um grande apoio por parte parte da embaixada de Portugal na China. Mas não está a ser fácil. A China é um mercado que gostaria de voltar a ter, é um mercado consumidor de brands no segmento de luxo. Vivo sem ele, mas quando a pessoa não tem acesso a um mercado sente-se mutilado em termos de marca nesse sentido.