Início Notícias Moda

A transformação das feiras

Na sequência de adiamentos e até cancelamentos de vários eventos provocados pela disseminação do novo coronavírus, o panorama das feiras vai mudar no futuro próximo à luz de incertezas e reduções de custos.

Magic

Face ao surto de Covid-19, as normais deslocações entre países para reuniões de negócios foram substituídas por videoconferências nas mais variadas plataformas digitais, como é o caso do Zoom, noticia o Sourcing Journal. O objetivo das empresas é continuarem a estabelecer ligações comerciais durante a crise causada pelo novo coronavírus.

Também foram muitos os eventos cancelados e as feiras que se destinam à promoção de negócios e interações comerciais não podiam ser melhor exemplo. Com muitos dos organizadores a serem forçados a adiar ou a anular certames na primeira metade do ano, este sector continua a restruturar a forma como pode manter o sentido comunitário a nível económico, de segurança e de eficácia.

Kelly Helfman

Numa recente reunião organizada pela Fashion Snoops, uma empresa de previsão de tendências, os executivos das organizações globais de feiras de moda, casa e beleza partilharam as medidas que estão a implementar para se manterem ligados às indústrias em que atuam e como o panorama das feiras pode mudar no futuro próximo.

Dúvidas para o verão

Na semana passada, a Informa, responsável pela organização de salões de moda como a Project, Magic, Coterie e outros, anunciou que está a planear juntar as feiras de julho e agosto de Nova Iorque numa só data, de 22 a 24 de setembro. Contudo, Kelly Helfman, presidente da WWD Magic, Project Women’s, Micam Americas e Sourcing, apontou ainda outras mudanças que estão a ser programadas.

Embora alguns Governos estejam a estabelecer medidas de recuperação da economia, os atores das cadeias de aprovisionamento da moda podem não ter o produto ou a equipa preparada para voltar ao trabalho. «Há um efeito de ressaca agora, então mesmo que voltemos ao trabalho em julho, acho que todos sentimos que possivelmente não vamos estares prontos para ir logo a feiras em agosto», afirmou Kelly Helfman em relação à Magic em Las Vegas, que deverá decorrer de 16 a 19 de agosto.

Apesar do certame continuar agendado, Kelly Helfman adiantou que a organização está a analisar a hipótese de pôr em prática um plano B. «Acho que nas próximas semanas podemos dizer com certeza absoluta que vamos adiar o evento, mas hoje ainda não», admitiu.

Sam Ben-Avraham

Uma incerteza igualmente partilhada por Sam Ben-Avraham, proprietário do certame nova-iorquino de moda Liberty Fairs, que está previsto para a mesma data da Project, em setembro. «Realmente não vejo nada a acontecer no verão. Acho que nada vai suceder até 2021», acredita, confessando que se sente desconfortável com a concretização dos certames em setembro.

A Liberty Fairs tem já uma opção digital em cima da mesa. «O digital vai ter definitivamente um grande impacto na relação entre nós e os nossos clientes, compradores e marcas. Esperamos que até julho tenhamos algo concreto para partilhar com os nossos clientes», explicou.

Por seu lado, Raffaello Napoleone, CEO da Pitti Immagine, mantém a esperança de que a Pitti Uomo possa realizar-se de 2 a 4 de setembro, em Florença. O salão de moda masculina, que devia ter lugar em junho, vai acolher as coleções para a primavera-verão 2021, algo que causa certa perturbação ao CEO na medida em que, até à data, as coleções para a primavera/verão 2020 não foram postas à venda.

Além disso, com a maior parte da indústria italiana de produção de vestuário atualmente de portas fechadas, na sequência da pandemia, Napoleone teme que as marcas não tenham coleções para apresentar em setembro. «Estamos a tentar encontrar uma forma de ajudar os nossos expositores, fornecedores e visitantes a ultrapassar este momento muito difícil», assegurou.

O CEO da Pitti Immagine, contudo, mantém-se otimista sobre o papel da Pitti Uomo. O salão italiano de moda masculina, revelou Raffaello Napoleone, conta já com 47% das suas inscrições para a edição de setembro, sobretudo expositores de pequena dimensão que confiam no certame para chegar aos compradores internacionais. «Eles estão à espera da Pitti», garantiu.

Menos é mais

De igual modo, as feiras precisam de sobreviver ao Covid-19. Por isso, Kelly Helfman considera que expositores e visitantes devem «esperar certames menos atrativos, brilhantes, sofisticados». A realidade, acredita, é que as feiras vão procurar formas de cortar custos e começar por eliminar todas as grandes despesas associadas a atividades experienciais.

Raffaello Napoleone

Um certame como a Magic, acrescentou, pode gastar meio milhão de dólares somente em carpetes. «Também temos problemas, pois o nosso negócio está a diminuir significativamente», asseverou.

No entanto, ao reduzir gastos, as feiras têm uma oportunidade para se tornarem mais sustentáveis e gerarem menos desperdícios – o que pode ser uma abordagem mais atual ao negócio. «Os eventos vão ser muito diferentes. Podem parecer menos robustos, mas só porque muitas coisas deixarão de ser importantes. Vamos apenas fazer o que seja certo para o negócio e cortar o excesso», concluiu a presidente da WWD Magic, Project Women’s, Micam Americas e Sourcing.