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«A transição para a sustentabilidade tem de ser feita num ambiente competitivo»

O presidente da Euratex, Alberto Paccanelli, acredita que a sustentabilidade tem de estar ligada à competitividade para que tenha sucesso, apontando a necessidade de trabalhar com a Comissão Europeia para criar um ambiente favorável aos pequenos negócios, admitindo ainda que a transição para um modelo circular implique a fusão entre empresas para ganharem massa crítica.

Alberto Paccanelli

Em entrevista ao Jornal Têxtil no âmbito da 10.ª Convenção Europeia do Têxtil e Vestuário, Alberto Paccanelli aborda também os custos energéticos, a guerra na Ucrânia e o trabalho que a confederação tem vindo a fazer ao nível do comércio, nomeadamente do novo acordo comercial com a Índia, da inovação, da sustentabilidade e da captação de jovens talentos para o têxtil e vestuário, deixando ainda um elogio à resiliência do passado e capacidade de inovação e de reinvenção para o futuro da indústria portuguesa.

Porque é que a Euratex escolheu o Porto para esta 10.ª Convenção Europeia do Têxtil e Vestuário?

A Euratex é a confederação europeia do têxtil e vestuário, pelo que os nossos membros são as associações nacionais e a ATP é muito importante. Por isso, todos os anos selecionamos um local para fazer a nossa convenção e este ano foi o Porto.

O tema deste ano foi a sustentabilidade e a competitividade. Como vê a evolução da indústria têxtil e vestuário nestas áreas?

O tema desta convenção é sustentabilidade e competitividade porque não podemos desligar uma coisa da outra. A transição para a sustentabilidade tem de ser feita num ambiente competitivo e a competitividade será muito importante para a indústria. Continuo otimista. Penso que a indústria resolveu muitos problemas no passado por causa da enorme concorrência que sofreu. E hoje temos a situação de crise energética em curso. Mas se resolvermos a crise energética, penso que podemos ser bastante otimistas sobre as possibilidades no futuro.

Existe uma nova política da UE para a reciclagem de resíduos têxteis e para a sustentabilidade que deverá entrar em vigor em breve. Que análise faz deste pacote legislativo?

Estamos a trabalhar muito em Bruxelas na chamada Estratégia Têxtil da UE. Há 16 leis que irão surgir muito em breve, antes de 2030, e que vão impactar significativamente a forma como fazemos negócio, de um modelo linear para um modelo circular. Por isso, as empresas têm mesmo de se transformar. E há desafios aí. Temos de ter os recursos para fazer esta transição. Mas como disse Pedro Siza Vieira, estamos bem posicionados para aproveitar as oportunidades que surgem neste caminho e temos de nos manter unidos. Temos de trabalhar com a Comissão Europeia para criar um caminho de transição que seja fazível também para as pequenas empresas. E é isso que estamos a fazer.

Na sua opinião, as empresas da indústria têxtil e vestuário estão preparadas para essa transição?

Algumas estão prontas, mas a maioria não está. É por isso que tentamos comunicar com uma grande parte de empresas sobre como se podem preparar. E, claro, vamos tentar, a nível nacional, criar recursos e apoios para que as empresas façam esta transição. Estamos a falar de sustentabilidade, a fazer as coisas de forma mais eficiente, com mais poupança de energia, estamos a falar do eco-design, de como se cria um produto, estamos a falar da responsabilidade do produto para o consumidor, estamos a falar de performance ambiental. Nesse caminho, há muitas coisas que têm de ser entendidas e temos de dar ferramentas às empresas para as implementar.

Como podem as empresas se preparar melhor?

Através das associações nacionais, dos centros tecnológicos como o CITEVE e com o ecossistema que estamos a construir para ter as tecnologias e as ferramentas digitais. É um esforço enorme, mas estou convencido que é possível. No curto prazo é muito complicado, porque o principal objetivo no futuro próximo é manterem-se ativas e sobreviverem, porque o custo da energia está a ter um forte impacto.

Em que fase estão os planos da Euratex de instalar cinco centros de reciclagem na Europa?

Depois do estudo que fizemos com a McKinsey, estamos a desenhar um plano de ação. É um projeto muito difícil, mas a maior parte das grandes empresas está a apoiá-lo juntamente com a Euratex. Penso que veremos alguma ação no início do próximo ano.

Para além da sustentabilidade, que outros desafios antecipa no futuro da indústria têxtil e vestuário europeia?

Claro que a competitividade é o básico em qualquer indústria. Para sermos competitivos, temos de trabalhar em conjunto de forma a termos a cadeia de valor completa, que tem de estar digitalmente integrada. Temos de fazer um esforço com a criatividade para sermos capazes de criar produtos com eco-design que sejam realmente criativos e, claro, talvez algumas pequenas empresas percebam que devem fundir-se com outras empresas para aumentarem a massa crítica.

O grande problema atual é a energia. A Euratex recentemente pediu mais esforços conjuntos após a decisão do Conselho de Energia da UE. Que outras medidas gostaria a confederação de ver implementadas?

Acreditamos que a questão da energia tem de ser resolvida a nível europeu, não a nível nacional, que é preciso pôr um teto no preço do gás de uma forma que seja possível e temos de separar o mercado da eletricidade do mercado do gás e, claro, temos de criar as condições para regressar a um certo preço, porque os outros concorrentes no mundo não têm este nível de aumento dos custos, por isso estamos em desvantagem em termos competitivos.

No início da guerra, a Euratex lançou uma iniciativa para facilitar a cooperação entre as empresas ucranianas e as europeias. Até ao momento, quais foram os resultados?

Fizemos um bom esforço, primeiro que tudo, a ligar as empresas da Ucrânia às empresas na Europa. Foram feitos alguns trabalhos preliminares. A ideia é apoiar a indústria na Ucrânia com encomendas, com a possibilidade de serem coordenadas pela Europa em termos do mercado e isso irá ajudá-las a sobreviver até a guerra acabar.

Que outras iniciativas está a Euratex a preparar para o futuro próximo?

Estamos a trabalhar em quatro grandes áreas: o comércio, e neste momento estamos a trabalhar com a Comissão Europeia no novo acordo comercial com a Índia, que vai ser difícil e complicado, por isso é muito importante estar aí; a inovação, com a Plataforma Tecnológica Europeia, onde a digitalização e os têxteis inteligentes são muito importantes; a sustentabilidade, com a implementação da nova estratégia têxtil; e na capacitação e atração de jovens talentos, que é muito importante para nós – estamos a gerir projetos para criar novos currículos, novos programas para requalificar e melhorar as qualificações e, claro, temos de atrair novos talentos para a nossa indústria.

Além da guerra em curso, que outras ameaças identifica?

Para mim, a grande ameaça é realmente assegurar que o percurso de transição está bem definido, porque a mudança tem de ser feita nas empresas sem colocar demasiada pressão nelas, de forma a que possam aceitar a mudança e se possam transformar. Na minha opinião, é muito importante que o caminho da transição, especialmente para a sustentabilidade, seja feito e criado com a Comissão Europeia de forma correta.

E em termos de oportunidades, quais devem ser aproveitadas pelas empresas da indústria têxtil e vestuário?

Temos de trabalhar em fazer produtos de boa qualidade que tenham criatividade. A sustentabilidade também é durabilidade. Por isso, se criarmos um produto que dure mais tempo, já é um passo na sustentabilidade. Por isso, elevada qualidade e durabilidade, inovação na forma como se comercializa o produto, porque há também ferramentas digitais, plataformas de comércio eletrónico, que devemos usar, e depois tentar explicar ao consumidor o valor do produto, sobretudo se for sustentável.

Esteve na visita à JF Almeida. Como vê a indústria têxtil e vestuário portuguesa?

Conheço a indústria portuguesa há muitos anos, comecei a visitar o país desde meados dos anos 90 e senti as dificuldades do período que abrangeu a globalização. Penso que hoje a indústria está a tornar-se mais forte, mais inovadora e certamente o que vi na JF Almeida é a combinação de elementos que estão a fazer a competitividade da indústria europeia, ou seja, produtos de qualidade, inovação e massa crítica. Um dos principais pontos fortes da indústria portuguesa é o conceito de cluster, as empresas estão muito ligadas entre si, mas há também algumas empresas verticais muito fortes, como a JF Almeida, onde vejo um forte envolvimento dos donos, que é uma parte essencial da gestão do negócio, e a vontade de inovar, sobretudo com o novo projeto da fibra reciclada. É um sinal muito bom do que significa implementar a economia circular na indústria e penso que é um ótimo sinal para a indústria portuguesa.