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A verdadeira corrida do sportswear

Estará o sportswear a ignorar os verdadeiros atletas? Há um grupo de empresários que acredita que sim. Vários veteranos da indústria começaram recentemente a investir em empresas destinadas a fazer o que as gigantes, na sua opinião, não conseguem fazer: responder às necessidades dos atletas.

Matt Taylor sempre praticou corrida. O que mais valoriza no desporto é a competição. Quando treina para as corridas, Taylor está focado numa medalha ou, pelo menos, em bater o recorde pessoal.

Porém, teve dificuldades em encontrar uma marca de activewear capaz de responder a corredores competitivos como ele. Num mundo pós-athleisure, empresas como a Nike e a Adidas desenham, cada vez mais, para atividades físicas ocasionais, como ir ao ginásio, e não para atletas. «A nossa cultura tem agora esta filosofia segundo a qual “todos são vencedores”», ironiza Taylor. «Mas, quando se está numa corrida, isso não é verdade. Há apenas um vencedor», afirma.

Tendo trabalhado na Puma, Matt Taylor sabe como as grandes marcas desportivas chegam aos consumidores. Há três anos, decidiu lançar-se, por conta própria, e apresentar a Tracksmith, uma marca de vestuário desportivo pensada para verdadeiros corredores.

A Tracksmith utiliza tecidos técnicos desenvolvidos especificamente para corredores masculinos e femininos, e homenageia a história do desporto ao recriar os singlets de corrida vintage. A marca publica também a Meter Magazine, uma revista trimestral que mergulha nas vidas de corredores famosos.

Taylor não é caso isolado. Há três anos, um ex-executivo da Reebok criou a iSlide, uma marca que desenvolve slides (modelo de chinelo) personalizados para os atletas usarem quando saem do campo. Em 2014, dois outros funcionários da Reebok deixaram a empresa para fundar a NoBull, que fabrica calçado high-tech para CrossFit. Tal como a Tracksmith, estas marcas estão a chegar a nichos de atletas cujas necessidades não estão a ser atendidas pelas marcas mainstream.

Atualmente, a indústria de sportswear está lotada, mas a procura dos consumidores por sapatilhas, equipamento de treino e calças de yoga também tem vindo a aumentar. Ao longo dos últimos sete anos, as vendas na categoria activewear subiram 42% para 270 mil milhões de dólares (aproximadamente 240 mil milhões de euros). De acordo com a Morgan Stanley Research, este ritmo de crescimento deve continuar, acrescentando cerca de 83 mil milhões de dólares em vendas em 2020.

A nova geração de empreendedores acredita que há espaço para marcas inovadoras que produzam produtos especializados. E, enquanto os gigantes ficam pela superfície, tentando atrair o maior número possível de consumidores, as emergentes procuram ir mais fundo, apontando para grupos específicos de atletas.

Tracksmith

Quando era mais novo, Matt Taylor lembra-se que, quando praticava “Run Cannonball Run” (uma espécie de maratona que incluía um salto para o rio antes de voltar à corrida) e chegava a parte de saltar para a água, os seus calções de banho ficavam encharcados e pesados. Essa memória ajudou-o a desenhar o par perfeito para a experiência: calções feitos de tecido high-tech, macios, confortáveis e repelentes à água. «Tudo o que precisa de saber é que a peça foi construída com a intenção expressa de se molhar e voltar a secar», afirma o website da Tracksmith sobre os calções “Run Cannonball Run”.

A marca desenvolve outros produtos semelhantes, com detalhes que só um corredor aprecia. A Tracksmith vende, por exemplo, singlets pensados para corridas de estafetas.

iSlide

Durante 13 anos, Justin Kittredge trabalhou na Reebok e, ao trabalhar com grandes equipas desportivas, percebeu que havia uma necessidade sem solução para calçado destinado à pós-competição.

Há três anos lançou a iSlide, especializada em chinelos desportivos personalizáveis. «As únicas empresas que faziam slides eram as grandes empresas que não possibilitam a customização, como a Nike, a Adidas e a Under Armour», diz Kittredge.

As grandes marcas fazem chinelos de borracha, mas todos os modelos exibem grandes logotipos. Kittredge queria criar algo diferente: uns chinelos desportivos confortáveis que pudessem ser personalizados com qualquer design, logotipo ou nome. As únicas empresas que prestavam esse serviço tratavam-se de empresas de produtos promocionais e as propostas eram «realmente de baixa qualidade», analisa.

Para Justin Kitteredge, o design e a confeção foram fáceis de conseguir. A dificuldade foi a criação de um processo de customização in-house, rápido e acessível.

Para estampar designs individuais de forma célere e em grande escala, Kittredge criou a uma máquina de serigrafia, sendo agora capaz de oferecer slides estampados a 50 dólares o par.

Até à data, a resposta tem sido positiva. Em 2015, a empresa vendeu 15.000 pares e, este ano, Kittredge espera que o negócio supere um milhão de dólares em vendas. «Nos últimos cinco anos, o mercado de slides mais do que duplicou. Então, trata-se de uma categoria de 600 milhões de dólares, apenas nos EUA e para slides atléticos, nem mesmo incluindo flip-flops ou qualquer outro modelo», aponta.

NoBull

Michael Schaeffer e Marcus Wilson conheceram-se na Reebok. Quando saíram da marca, tiveram a oportunidade analisar de um prisma diferente aquilo que o mercado pedia. Por conseguinte, há dois anos, lançaram a marca de calçado desportivo NoBull.

«A nossa mentalidade é que as sapatilhas não vão tornar a pessoa apta, fazê-la saltar mais alto ou correr mais rápido», explica Wilson. «A única coisa que vai fazer com que a pessoa fique mais magra e saudável é o treino diário».

Com a marca, Schaeffer e Wilson estão também a responder ao que consideram uma necessidade sem resposta entre CrossFitters: calçado desportivo com boa performance em atividades como o levantamento de peso, treino intervalado e ginástica (fundamentais para exercícios devCrossFit) que dedique particular atenção à moda. A Nike e a Reebok começaram a fazer calçado para CrossFit mas, para os fundadores da NoBull, os modelos são pouco apelativos, reduzida paleta de cores e padrões. «Na comunidade CrossFit, o estilo é muito importante», afirma Wilson. «Eles levam o estilo a sério e nós também», sublinha.

Muitos CrossFitters já se deixaram conquistar pela marca que parece falar a sua língua, sendo que a NoBull está no caminho certo para vender mais de 100.000 pares em 2016.