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Abolição das quotas: o próximo Bug do Milénio?

Para Mike Flanagan, daClothesource,o fim das quotas, ao invés de estimular o valor do comércio mundial de têxteis, vai quase de certeza reduzi-lo, tornando assim ainda mais complexo o competitivo mercado internacional deste sector.


A abolição das quotas, prevista para o próximo dia 31 de Dezembro, é aguardada com grandes expectativas.

Segundo um jornal coreano adiantou recentemente, esta situação provocará um acréscimo de 300 mil milhões de euros, em termos de valor, no mercado mundial de têxteis e vestuário.

A par das opiniões de diversos comentadores, alguns ministros indianos afirmam que as exportações de têxteis e vestuário do seu país passarão dos actuais 12 mil milhões de dólares para 50 mil milhões de dólares, enquanto os responsáveis da ITV do Sri Lanka acreditam que as vendas nacionais passarão de 2,3 mil milhões de dólares para 4,5 mil milhões de dólares.

Na opinião de muitos analistas dos chamados países emergentes, o fim das quotas no comércio internacional de têxteis e vestuário poderá despoletar uma onda de encomendas e negócios, que até aqui eram quase monopolizados pelos países mais ricos.

No entanto, os países mais desenvolvidos não pensam o mesmo. Segundo o Departamento do Comércio dos Estados Unidos, cerca de 90% dos artigos de vestuário vendidos neste país são fabricados no estrangeiro, e a Associação de Importadores de Têxteis do Japão estima que a percentagem de produtos importados seja equivalente.

Desde que a produção de vestuário começou a deslocar-se para o estrangeiro, os preços destes artigos – mesmo daqueles produtos limitados pelas quotas – começaram a decair a uma média de 5% ao ano.

Quando as quotas desaparecem em relação a um produto, os preços descem ainda mais, dado que os bónus das quotas desaparecem e a concorrência se torna mais agressiva, pelo que os fabricantes de vestuário têm que produzir muito mais peças, para assegurar o mesmo lucro.

O fim próximo das quotas assemelha-se ao “bug do milénio” noutro aspecto, ou seja, desde essa data, em 2000, os nossos computadores têm vindo a ter problemas constantemente.E porquê?Principalmente porque os governos mundiais não aprovaram leis que impeçam algumas pessoas de disseminar vírus informáticos.

Actualmente, o principal efeito colateral do fim das quotas é que o comércio internacional de vestuário se vai tornar muito mais complexo do que é actualmente – quando poderíamos esperar exactamente o oposto.

Vejamos alguns exemplos:

Quais serão os direitos aduaneiros sobre as importações americanas de vestuário oriundo do Brasil a partir de Janeiro próximo? Ninguém sabe, porque o Brasil possui privilégios ao abrigo do actual sistema de quotas, que termina no próximo dia 31 de Dezembro. Entretanto, estes benefícios serão substituídos pelos termos definidos na reunião da OMC realizada em Cancun em Setembro passado, mas que entretanto também foram cancelados…

E quais vão ser os encargos aduaneiros das importações de vestuário da União Europeia vindas do Paquistão neste ano? Mais uma vez, ninguém sabe, devido à contestação apresentada pela Índia em relação aos benefícios concedidos às exportações paquistanesas para a Europa.

Outra questão: quais serão as taxas aduaneiras cobradas pela UE sobre os têxteis-lar importados da Índia? É uma pergunta pertinente, uma vez que, desde 1997, essas taxas já sofreram diversas alterações.

E quanto às quotas sobre os produtos oriundos de países como a Rússia, o Vietname e o Cambodja?

Além disso, os agentes da indústria têxtil e do vestuário têm grandes dificuldades em compreender o que os governos planeiam fazer, como prova um recente estudo realizado junto dos importadores norte-americanos, que afirmam na sua maioria pretender fazer negócios com fabricantes da China, mas estarem ao mesmo tempo muito receosos de futuras medidas fiscais e aduaneiras que prejudiquem esses mesmos negócios.

Nos anos 90, os comerciantes de vestuário tentavam essencialmente entender as regras que mudavam constantemente neste sector, e que naturalmente afectavam a sua actividade. Actualmente, muitos deles ainda revelam escassos conhecimentos dos referidos moldes comerciais, o que se revela como uma grave lacuna.