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Abrir caminho aos wearables

Borre Akkersdijk está a mudar o mundo dos wearables. Nos últimos anos, criou vários protótipos que reinventam o vestuário, incorporando routers wi-fi, purificadores de ar e “leitores” de sentimentos. Dependendo de onde as suas peças são mostradas, as funções mudam para resolver problemas locais.

Akkersdijk, que se assume como designer têxtil, estudou na Academia de Design de Eindhoven na Holanda e no Fashion Institute of Technology em Nova Iorque. Depois da formação, começou a fazer experiências com diferentes técnicas de tricotagem e há alguns anos foi-lhe pedido para resolver um problema comum com a primeira onda de tecnologia wearable.

«A Universidade Técnica de Eindhoven estava a realizar uma grande projeto denominado CRISP, com têxteis inteligentes, e defrontavam-se constantemente com o mesmo problema», explica o designer. «Simplesmente colavam a tecnologia ao têxtil. Era uma espécie de sanduíche. E estavam à procura de novas formas e camadas de base para colocar aí a tecnologia de sensores», acrescenta. Usando máquinas de malha circular que foram originalmente concebidas para produzir colchões, Borre Akkersdijk já fazia criações bastante volumosas. Esse era um dos principais atrativos da sua técnica: a espessura era perfeita para embeber e proteger sensores relativamente grandes, assim como para colocar os fios dentro do vestuário.

A universidade queria simplesmente usar alguma da malha de Akkersdijk para embeber os sensores e colocar os fios sem que se notasse muito por fora. Mas embora o designer estivesse interessado, achava que isso não iria resolver completamente o problema. «Quis investigar fios condutores, a tecnologia de sensores e como se podiam incorporar. Por isso, o que começamos a fazer, dentro do processo de produção, foi inserir os fios condutores na tricotagem», revela. O primeiro projeto que iria inspirar o modelo de Akkersdijk para o futuro dos wearables nem sequer era um wearable. Em 2013, o designer trabalhou com a Universidade Técnica de Eindhoven numa almofada que ajudava pessoas com demência grave a comunicar. «Eles já não falam», explica Akkersdijk.

«O que fazem é sentar-se e querem tocar e mover, regressam aos sentidos da infância… Pensámos em fazer uma almofada que eles conseguissem sentir, pudessem colocar no colo e que vibra de um lado quando se toca e exatamente da mesma forma do outro. É uma espécie de nova forma de comunicação. Consegue-se sentir o que a outra pessoa está a fazer e quase como tocar as mãos um do outro». Em 2014, a almofada chamou a atenção da organização do SXSW, que pediu a Borre Akkersdijk que a levasse ao festival para uma demonstração. Os programas governamentais na Holanda fizeram com que isso acontecesse: Jan Kennis, adido cultural da Holanda nos EUA tem um trabalho único – é basicamente um olheiro de talentos para profissionais criativos holandeses que trabalha para lhes encontrar público nos EUA.

Kennis descobriu Akkersdijk e o seu projeto através de um ex-colega e pensou que o SXSW seria uma boa «feira estratégica» para mostrar o seu trabalho. Mas o designer queria ter um impacto maior do que simplesmente apresentar a almofada. «Eu pensei: o Twitter foi lançado aqui, o Foursquare foi lançado aqui e eu vou lá com uma almofada?», conta Akkersdijk. Decidiu então fazer um fato com fios condutores. Amigos que tinham ido ao SXSW disseram-lhe que encontrar um hotspot wi-fi era um problema comum no festival. Como os colegas não podiam ir à feira, também queriam poder segui-lo num mapa.

E porque o SXSW é principalmente um festival de música, Borre Akkersdijk pensou que tinha de integrar um componente musical no projeto. Assim nasceu o BB.Suit, um fato completo em malha 3D com baterias, um ponto de acesso wi-fi, GPS ligado ao interface Google Maps e uma playlist a que as pessoas podem aceder. O fato chamou a atenção da organização da Semana de Design de Pequim, mas Akkersdijk achou que a versão do fato do SXSW não era suficiente. Mais uma vez, teve em atenção a localização do evento e tentou encontrar um problema local para solucionar. «Em Pequim há uma coisa óbvia que as pessoas tentam resolver: poluição atmosférica», revela Akkersdijk. «Fomos a uma empresa de malhas circulares (em Xangai) que faz os desenvolvimentos para a Nike e esteve a trabalhar para a Apple muitos anos antes em tecnologia wearable que não avançou.

Eles disseram para irmos ao laboratório deles e que iam ajudar a desenvolver o fato». Borre Akkersdijk encontrou um grupo de investigadores da Alemanha que estava a desenvolver unidades de ionização de plasma frio para sistemas de ar condicionado para automóveis – um pouco grossos, mas pensou que o fato seria grosso de qualquer forma. O benefício dessa unidade volumosa era que conseguia limpar até 30 metros quadrados de ar poluído à volta do utilizador. Também decidiu que o fato precisava de um filtro de ar, que «olhasse para o espaço» e desse uma leitura de quanta poluição existia à volta. O sistema funcionou e o design era mais elegante e refinado do que os projetos iniciais, mas comercializar este fato não era o objetivo. «É apenas uma prova do conceito», refere Akkersdijk.

«A intenção era a mesma do SXSW, fazer algo que é apenas um caminho. Mais uma vez tem a ver com a localização, a estética e a tecnologia que se juntam – não tem a ver com uma só dessas coisas, tem a ver com o conceito de fazer uma plataforma no corpo e à volta dele. Poder fazer alguma coisa diferente em cada lugar», resume. Akkersdijk vê também estes projetos como um primeiro passo para o objetivo último para os wearables: permitir a comunicação de uma forma livre e orgânica. Para fazer do vestuário uma verdadeira plataforma tal como os telemóveis e os computadores, o designer está a falar com centros de investigação e grandes empresas holandesas como a Philips e a NXP para criar tecidos com os seus próprios sensores, eliminando o volume e tornando o vestuário inteligente tão simples quanto usar uma tela inteligente – algo em que a Google está também a trabalhar.

Até lá, o designer considera que a atual geração de wearables não é verdadeiramente usável, embora haja sinais de uma nova era de comunicação e computação com o Apple Watch. Antes da tecnologia de escala mais pequena estar disponível para permitir essas características de nova geração, Akkersdijk está já a fazer experiências que usam vestuário com sensores para transmitir pensamentos e sentimentos. Recentemente fez uma apresentação na qual utilizou uma camisola especial com vários sensores, incluindo ritmo cardíaco e localização, que ajudaram a medir os seus próprios níveis de energia. Alguns dos membros da audiência também usaram sensores na mão.

Ser capaz de mostrar “sentimentos” pessoais pode levar a todo um outro nível de invasão de privacidade mas, segundo Akkersdijk, os resultados da sua experiência foram reveladores. Ele inquiriu os membros da audiência que se recusaram a usar os sensores e a maior parte deles, após a experiência, lamentaram não os ter usado. Inicialmente queriam salvaguardar a forma como se sentiam, mas depois queriam ver as suas próprias leituras tal como todos os outros. «É preciso privacidade para se ser um ser humano. A questão é que é preciso dizer sim ou não. As pessoas querem privacidade mas também estão curiosas», justifica Akkersdijk. «Precisamos de descobrir. Mas é preciso que seja uma decisão, tal como as pessoas desligam a sua localização quando não querem ser encontradas», conclui.