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Acordo histórico na moda

Depois de duas décadas de costas voltadas, a ModaLisboa e o Portugal Fashion chegaram a um entendimento e, com a bênção do Primeiro-Ministro António Costa assinaram um acordo de cooperação que, acreditam todos, irá beneficiar os designers e a moda nacional.

Em terreno neutro – na Casa da Arquitetura de Matosinhos –, a Associação ModaLisboa e a ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários assinaram ontem, dia 11 de setembro, perante uma plateia com representantes de diversas associações empresariais, o protocolo que marca o início de uma nova era nas relações entre as duas entidades.

«Hoje é um dia de mudança. Esta é a concretização dos esforços que representantes das duas entidades têm vindo a desenvolver com o inestimável apoio do Governo. Mas também, temos que o dizer, é apenas o primeiro passo de uma nova etapa que pressupõe continuidade e uma efetiva cooperação entre as organizações, no sentido de, em conjunto, articularem as respetivas agendas, ações e projetos, tendo em vista o interesse maior: valorizar a moda portuguesa no nosso país e internacionalmente», afirmou, na sua intervenção, Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa.

«Acima de tudo», acrescentou Adelino Costa Matos, presidente da ANJE, «a moda e a indústria merecem este acordo», sublinhando que o mesmo «é também um exemplo e um desafio ao próprio país, para outras instituições e cidadãos trabalharem em conjunto na criação de valor, com o objetivo de uma estratégia comum».

O que muda

O acordo de cooperação agora assinado começa por definir, em termos nacionais, as áreas da atuação, em que a ModaLisboa será a anfitriã dos desfiles na capital, enquanto o Portugal Fashion será o responsável pelos eventos a norte.

«Um dos primeiros critérios deste protocolo é termos um acordo de não concorrência, de não competição a todos os níveis, seja de recursos, seja de datas, seja de locais», explicou, ao Portugal Têxtil, Adelino Costa Matos. «Por exemplo, fazíamos um dia em Lisboa, que achamos que não faz sentido fazer neste momento, fruto de estar obviamente a ModaLisboa em Lisboa, como nós faremos o nosso Portugal Fashion no Porto», apontou. No entanto, as duas entidades deverão coordenar-se «para durante a mesma semana fazer os dois eventos», adiantou.

A cerca de um mês de abrirem as passerelles, os esforços multiplicam-se para efetivar as mudanças já nesta edição. «Uma das questões do protocolo efetivamente, é conseguirmos reunir, colaborar e discutir uma estratégia global, mas nesta edição já teremos pequenas alterações, fruto deste desenvolvimento, que achamos que fazem sentido», revelou Adelino Costa Matos.

«Iremos albergar na ModaLisboa um ou dois criadores do Portugal Fashion», adiantou Eduarda Abbondanza ao Portugal Têxtil. Em sentido contrário, três designers da ModaLisboa deverão participar no showroom Brand-Up, uma área que pretende promover comercialmente as marcas junto dos compradores internacionais. «Para nós é mais importante no Porto esse networking para os nossos criadores e, de alguma maneira, para o Portugal Fashion é mais importante garantir passerelle para alguns criadores», justificou a presidente da ModaLisboa.

Ainda antes da assinatura do protocolo, as duas entidades tinham já acordado uma pequena ação de colaboração que levará o designer Gonçalo Peixoto, que desfila na ModaLisboa, à feira White, em Milão, com o apoio logístico da ANJE, desvendou Eduarda Abbondanza ao Portugal Têxtil.

Aliás, outra área em que a colaboração deverá registar-se é na internacionalização, onde a ModaLisboa espera conseguir aceder aos fundos do Portugal 2020, aos quais o Portugal Fashion já tem acesso, para levar os designers que apoia a outros mercados. «Só poderá existir um equilíbrio entre as duas organizações quando a ModaLisboa também tiver os seus fundos», considera Eduarda Abbondanza. «Não queremos fazer tudo, de maneira nenhuma. Queremos poder fazer aquilo que sabemos fazer. Admitimos que há outras organizações que sabem fazer outras coisas melhor do que nós. Mas sempre que tivemos oportunidade de operar, tivemos resultados fantásticos na criação de projetos internacionais disruptivos, como em Paris, com o CENIT, a ANIVEC e a APICCAPS…», afirmou ao Portugal Têxtil. «Temos um histórico de trabalho colaborativo enorme, porque temos sempre esta perspetiva. Nunca quisemos conquistar o território nacional, quisemos sempre conquistar o mundo. E para conquistar o mundo, é preciso trabalhar em conjunto», realçou.

Desígnio nacional

Uma visão partilhada igualmente por António Costa, que fez questão de marcar presença na assinatura do protocolo. «Este acordo é muito importante para o país. Há de ser seguramente para a ModaLisboa, há de ser seguramente para a ANJE, há de ser seguramente para a indústria, mas é muito importante para o país», reconheceu o Primeiro-Ministro, que destacou a importância da indústria têxtil, vestuário e calçado no crescimento das exportações.

«Este crescimento tem sido feito porque temos sabido vencer antigas fronteiras. Não há o mundo dos criadores e o mundo dos produtores. Hoje, os criadores e os produtores têm que, necessariamente, trabalhar em conjunto. Só assim geramos produtos e serviços com maior valor acrescentado», admitiu. Por isso, «este “casamento”, ou este “namoro”, agora assinado, é um passo da maior importância, porque o país é pequeno e todos nós somos poucos para prosseguir este esforço muito grande que temos que fazer», concluiu António Costa.